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História
Roma 1960

A eleição da cidade que hospedaria a Olimpíada esteve coberta, em partes, por um ar especial. As principais metrópoles concorrentes foram Lausanne (Suíça), Bruxelas (Bélgica), Budapeste (Hungria), Cidade do México, e a mítica capital italiana. Ter sido eleita sede dos jogos olímpicos nunca foi tão importante para uma cidade como para Roma. E o foi não somente pelas competições ou pelo crescente interesse mundial pelo esporte. Os principais argumentos têm origem histórica. Na Antigüidade, os gregos criaram os jogos, e os romanos, quando dominaram a Grécia, transformaram a competição em um grotesco circo de barbáries. O imperador Teodósio I, para aliviar sua consciência, terminou com os jogos no ano 394 de nossa era.

Por isso, em 1960, depois de 1.567 anos, os romanos queriam mostrar que eram capazes de realizar uma edição memorável dos jogos. Então, a XVII Olimpíada simbolizou um marco importantíssimo não só na história olímpica como também nas realizações esportivas da geração que não havia participado na última Guerra Mundial. O momento era especialmente feliz e se apresentava uma ocasião extraordinária. No dia 24 de agosto, em meio a este ambiente tão especial, o Papa João XXIII recebeu os mais de cinco mil atletas em uma cerimônia, convidando todos a meditar sobre a "alta dignidade do atleta".

Mas se esta Olimpíada teve grandes êxitos, a polêmica também não ficou de fora. A Alemanha participou com uma equipe unificada, sob a bandeira olímpica e as notas da "Ode à Alegria", de Beethoven. A China, por sua vez, se viu obrigada a competir com o nome de Formosa apesar das ressalvas do governo nacionalista de Chang Kai Chek, que abaixo do rótulo do nome da ilha incluiu a legenda "sob protesto". No resto, as tensões políticas aliviaram-se no que diz respeito às edições anteriores. A Europa atravessava um momento de estabilidade e a descolonização africana era um fato. Desta forma, o esporte prevaleceu.

Estes jogos significaram também uma importante revolução na concepção que até então se tinha sobre a relação técnica-esporte. Roma vai marcar o final do que muitos chamaram "olimpismo artesanal", para dar lugar a uma moderna concepção do esporte. Os italianos souberam dotar seus primeiros jogos de contribuições técnicas impressionantes, bem organizadas e especializadas, provendo de meios suficientes o seu Comitê Olímpico Nacional, que dispunha de dinheiro, de bons organizadores e da colaboração complementar das autoridades civis, que enxergaram as vantagens que os jogos poderiam trazer. Os fundos necesarios foram financiados por meio da loteria semanal de futebol profissional, que lhe rendeu um patrimônio estimado em US$ 30 milhões.

As instalações foram ajustadas às exigências técnicas mais rigorosas. Foram construídos dois palácios de esportes que se converteram em exemplo de arquitetura esportiva. A Vila Olímpica, situada no bairro de Flumicino, vizinho ao branco estádio de mármore de Monte Mario, a piscina  e o campo de futebol criaram uma área de grande ambiente esportivo. Igualmente, na capital italiana, combinaram-se com gosto admirável o antigo e o moderno. Os mais de 60 mil visitantes ficaram cativados, assim como os romanos, pela organização e paixão com que se viveram as provas. Mas o que sem dúvida contribuiu para propagar a universalidade dos jogos foi a televisão: as cadeias européias transmitiram pela primeira vez as diversas competições ao vivo.

Nas fantásticas instalações esportivas, sobressai o abrigo de vários lugares históricos do antigo império. A Basílica de Maxentius hospedou a competição de luta. Havia dois mil anos, essas provas também tinham como espaço a basílica. Da mesma forma, foram utilizados os banhos termais de Caracala como cenário para a ginástica e o Arco de Constantino como marco final para a maratona.

Estiveram presentes nesta edição dos jogos olímpicos 5.348 atletas (cifra recorde de participação até aquele momento), representando a um total de 83 nações. A participação feminina também alcançou um número histórico, com 610 atletas. As 150 provas dos 17 esportes oficiais se desenvolveram entre 25 de agosto e 11 de setembro, e mais de 1.500 jornalistas foram registrados.

Já no aspecto esportivo destes jogos, recordes olímpicos foram batidos à vontade, e mundiais também foram liquidados; apesar de que o mais significativo foi sem dúvida o de salto em distância. Jesse Owens possuía a melhor marca nesta especialidade desde Berlim 1936 com 8,06m. Vinte e quatro anos depois, seu compatriota Ralph Boston superou esse recorde em seis centímetros.

Enquanto isso, a África se consagrou como o continente do futuro em longas distâncias no atletismo. Um dos responsáveis por isso foi Abebe Bikila, um soldado etíope, que venceu na maratona depois de ter percorrido descalço os 42km sobre as velhas lajes imperiais. Entre os dez primeiros classificados da maratona já se encontravam quatro atletas africanos.

Também foi a segunda vez consecutiva que a URSS terminaria os jogos como líder no quadro de medalhas.

Nos 100m ganhou o alemão Armin Harry, famoso pelo poder de reação nas largadas e por ser o primeiro ser humano a correr a distancia em 10 segundos; com isso se rompeu um tabu de 32 anos, nos quais somente haviam vencido esta prova atletas norte-americanos.

Um dos destaques desses jogos foi a velocista norte-americana Wilma Rudolph, apelidada de "gazela negra". Na infancia, havia sofrido de uma paralisia na perna esquerda, que lhe havia deixado na cama por vários anos. Esta atleta ganhou os 100m (igualando o recorde mundial nas semifinais), os 200m, e com sua equipe o revezamento 4x100m (diminuindo a melhor marca mundial em ambas). No total, três medalhas de ouro.

Na competição de ginástica feminina, o domínio das soviéticas foi total. Não somente ganharam a competição por equipes: tanto na competição individual como no de aparelhos, as ginastas da URSS monopolizaram as três medalhas. Escapou a medalha de ouro na trave de equilíbrio. Sua ginasta mais destacada foi Larrisa Latynina, que conseguiu três medalhas de ouro (individual, exercícios de solo, e aparelhos por equipes). Latynina já havia vencido a competição individual nos jogos anteriores, em Melbourne.

Roma 1960 assistiu ao nascimento esportivo de uma estrela mundial do boxe: Cassius Clay, que até então era um rapaz de apenas 18 anos de idade, cordial, simpático e falador, e que assombrou a todos quando obteve o título olímpico dos meio-pesados. Anos mais tarde, abraçaria o Islã, o que lhe faria mudar o nome para Mohamed Ali, que será lembrado de forma gloriosa no pugilismo como um dos grandes campeões mundiais de todos os tempos.

QUADRO DE MEDALHAS

País

Ouro Prata Bronze
1. URSS URS 43 29 31
2. Estados Unidos USA 34 21 16
3. Itália ITA 13 10 13
4. Equipe Alemã Unificada (1956,1960,1964) EUA 12 19 11
5. Austrália AUS 8 8 6
6. Turquia TUR 7 2 0
7. Hungria HUN 6 8 7
8. Japão JPN 4 7 7
9. Polônia POL 4 6 11
10. Checoslováquia TCH 3 2 3
11. Romênia ROM 3 1 6
12. Grã-Bretanha GBR 2 6 12
13. Dinamarca DEN 2 3 1
14. Nova Zelândia NZL 2 0 1
15. Bulgária BUL 1 3 3
16. Suécia SWE 1 2 3
17. Finlândia FIN 1 1 3
18. Áustria AUT 1 1 0
19. Iugoslávia YUG 1 1 0
20. Paquistão PAK 1 0 1
21. Noruega NOR 1 0 0
22. Etiópia ETH 1 0 0
23. Grécia GRE 1 0 0
24. Suíça SUI 0 3 3
25. França FRA 0 2 3
26. Bélgica BEL 0 2 2
27. Irã IRI 0 1 3
28. Holanda NED 0 1 2
29. África do Sul RSA 0 1 2
30. Argentina ARG 0 1 1
31. Egito EGY 0 1 1
32. Gana GHA 0 1 0
33. Canadá CAN 0 1 0
34. Cingapura SIN 0 1 0
35. Portugal POR 0 1 0
36. Índia IND 0 1 0
37. Marrocos MAR 0 1 0
38. Formosa TPE 0 1 0
39. Índias Britânicas do Ocidente BWI 0 0 2
40. Brasil BRA 0 0 2
41. Espanha ESP 0 0 1
42. México MEX 0 0 1
43. Iraque IRQ 0 0 1
44. Venezuela VEN 0 0 1
       
Medallero, Roma 1960 Altius, Citius, Fortius
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