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História
México 1968

A XIX Olimpíada foi a única organizada por um país latino-americano até agora: realizou-se no México no turbulento ano de 1968. A competição foi desenvolvida de 12 a 27 de outubro, mas antes houve acontecimentos que marcaram para sempre a história, não somente daquele país, como também do mundo inteiro.

Em abril, morria assassinado o líder negro Martin Luther King (houve protestos por parte de atletas negros na própria Olimpíada contra este ato; empunhavam luvas negras ao receberem medalhas). Um mês mais tarde estourou em Paris a chamada Revolução de Maio. Em junho, também foi assassinado o candidato à presidência dos Estados Unidos, Robert Kennedy. Em agosto, a Checoslováquia sofria toda a crueldade da força bruta diante da invasão de seu território por tropas soviéticas e do Pacto de Varsóvia. Apesar disso, o acontecimento mais forte ocorrido antes dos Jogos - duas semanas antes - foi, sem dúvida, o ápice do movimento estudantil no México que culminou no dia 2 de outubro com a matança da Praça das Três Culturas. Apesar dos desmentidos do governo, cerca de 300 pessoas foram liquidadas pela desproporcional e cruel reação àquele movimento, efetuada pela força de segurança do exército criada e treinada especificamente para garantir a segurança durante a Olimpíada.

No entanto, o presidente Gustavo Díaz Ordaz esteve presente no estádio da Cidade Universitária (CU), da Universidade Nacional Autônoma do México (na capital do país) no dia 12 de outubro, para conduzir a cerimônia de abertura, dentro do espírito de festa inerente à realização dos Jogos Olímpicos a cada quatro anos. Houve tempo para a reprovação, e assim, com a mesma característica espontânea do movimento estudantil - que havia sido exterminado dez dias antes -, se escutou uma sonora vaia, que teve um claro destinatário. Este, no entanto, não se alterou.

Em grande escala, a celebração dos Jogos nunca esteve em risco. Foi o mesmo governo que assim o fez crer, pois os colocou como bandeira para justificar a repressão aos estudantes, que sempre deixaram claro que o objetivo da manifestação não era o de impedir ou boicotar o evento, e sim o de alcançar uma democracia plena e terminar com o autoritarismo implantado pelo regime.

O sistema tentou a todo custo desvirtuar o movimento. Por rádio, imprensa ou televisão, até então terrivelmente regulados, empreendeu-se uma feroz campanha de desprestígio contra as reivindicações estudantis. Inclusive, um mês antes do início da Olimpíada, o Conselho Nacional de Greve contra-atacou, com panfletos: "O movimento é independente da celebração dos XIX Jogos Olímpicos e das festas comemorativas de nossa independência, e não é, em absoluto, intenção deste Conselho obstruir em algo seu desenvolvimento." Depois do trágico 2 de outubro, todas as autoridades, governamentais e esportivas, anunciaram que os Jogos se realizariam normalmente.

A festa, animada pela melhor atuação do esporte mexicano em toda a história, fez com que se deixasse de lado, por um momento, o movimento estudantil e a matança de 2 de outubro. Na organização dos Jogos, o México se atreveu, pela primeira vez na história do movimento olímpico, a designar uma mulher como última portadora da tocha olímpica no revezamento. Enriqueta Basilio cumpriu com passadas esplêndidas os 400m finais da pista de atletismo, e acendeu o estopim.

O México pôs todo o seu aparato técnico a serviço da Olimpíada. Acondicionou-se o estádio da CU para 80 mil espectadores, e com iluminação para provas noturnas. Ainda foi construído o Palácio dos Esportes, com capacidade para 22 mil pessoas, e que foi sede das competições de basquete. Igualmente se "levantaram" a piscina olímpica e o Ginásio Juan de la Barrera, um velódromo para ciclismo e hóquei, e se dispôs de uma das grandes jóias da arquitetura esportiva mexicana: o estádio Asteca, um grandioso e mítico estádio de futebol com capacidade para 98.500 pessoas naquela época.

Ainda foram construídos dois conjuntos habitacionais para alojar os esportistas e a imprensa: a Vila Olímpica, próxima à CU e destinada aos atletas, e a Vila Coapa, onde estiveram hospedados principalmente jornalistas.

Participaram 112 nações, o que representou uma marca histórica. Ainda estiveram presentes 5.530 atletas. A cifra de mulheres participantes ascendeu a 780. Houve 172 provas de 20 esportes oficiais. Bateram-se 17 recordes mundiais e 29 olímpicos. Além disso, estes Jogos foram cobertos por mais de 4.373 jornalistas; a imprensa considerava de grande importância o evento, e mais de 600 milhões de espectadores puderam acompanhar via satélite o desenvolvimento das competições.

No aspecto esportivo, sublinha-se que, devido à altitude da cidade do México (2.260m acima do nível do mar), temia-se que isto fosse afetar os índices no atletismo e natação, mas ocorreram gratas surpresas. Começaram a surgir destaques como os campeões das modalidades de salto em altura e salto à distância, que revolucionaram ambas especialidades. Dos norte-americanos, Bob Beamon, com seus 8,90m em distância, pôs a marca a um nível digno do século XXI. Seu recorde mundial foi superado 23 anos depois, mas o registro olímpico segue vivo e imbatível.

O outro destaque destes Jogos foi o norte-americano Dick Fosbury, que revolucionou o salto em altura impondo um novo estilo na modalidade. Consistia em "inclinar-se" sobre a risca, passando de costas por cima da mesma, com a cabeça em primeiro lugar, e caindo na área de recepção. Os 2,24m obtidos por Fosbury no México estabeleceram um recorde, só quebrado na apresentação do polonês Wiszola nos Jogos de Montreal, com a melhora desta marca em um centímetro. Enquanto isso, Al Oerter sagrou-se tetracampeão de arremesso de disco no México com uma marca de 68,40m; acabaria virando recorde mundial.

A atleta mais popular durante esta Olimpíada foi a ginasta checa Vera Caslavska, que ganhou quatro medalhas de ouro e duas de prata. Caslavska, além de seu domínio na parte esportiva, também encantou o público mexicano. Tanto que meses depois regressaria ao país para a lua-de-mel, como mostra de agradecimento e carinho.

De forma triste, os Jogos em solo asteca foram os primeiros a presenciar a primeira desclassificação por uso de substâncias proibidas: o exame do sueco Hans-Gunnar Liljenwall apontou presença de álcool em quantidades excessivas.

QUADRO DE MEDALHAS

País

Ouro Prata Bronze
1. Estados Unidos USA 45 28 34
2. URSS URS 29 32 30
3. Japão JPN 11 7 7
4. Hungria HUN 10 10 12

5. Alemanha Oriental (1955-1990) GDR

9 9 7
6. França FRA 7 3 5
7. Checoslováquia TCH 7 2 4
8. Alemanha Ocidental (1950-1990) FRG 5 11 10
9. Austrália AUS 5 7 5
10. Grã-Bretanha GBR 5 5 3
11. Polônia POL 5 2 11
12. Romênia ROM 4 6 5
13. Itália ITA 3 4 9
14. Quênia KEN 3 4 2
15. México MEX 3 3 3
16. Iugoslávia YUG 3 3 2
17. Holanda NED 3 3 1
18. Bulgária BUL 2 4 3
19. Irã IRI 2 1 2
20. Suécia SWE 2 1 1
21. Turquia TUR 2 0 0
22. Dinamarca DEN 1 4 3
23. Canadá CAN 1 3 1
24. Finlândia FIN 1 2 1
25. Etiópia ETH 1 1 0
26. Noruega NOR 1 1 0
27. Nova Zelândia NZL 1 0 2
28. Tunísia TUN 1 0 1
29. Venezuela VEN 1 0 0
30. Paquistão PAK 1 0 0
31. Cuba CUB 0 4 0
32. Áustria AUT 0 2 2
33. Suíça SUI 0 1 4
34. Mongólia MGL 0 1 3
35. Brasil BRA 0 1 2
36. Bélgica BEL 0 1 1
37. Coréia KOR 0 1 1
38. Uganda UGA 0 1 1
39. Jamaica JAM 0 1 0
40. Camarões CMR 0 1 0
41. Argentina ARG 0 0 2
42. Grécia GRE 0 0 1
43. Índia IND 0 0 1
44. Formosa TPE 0 0 1
Medallero, México 1968 Altius, Citius, Fortius
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