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Futebol Masculino
Quinta, 19 de agosto de 2004, 14h54 
Futebol olímpico resgata orgulho dos iraquianos
 
Matthew Price
 
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Tarde da noite nas ruas de Bagdá. É possível ver as luzes vermelhas de balas teleguiadas cruzando os céus. Tiroteios são comuns na capital iraquiana, mas esse é um momento de comemorações. O Iraque celebra a classificação de sua seleção de futebol para as quartas-de-final do torneio olímpico.

Eu me dirijo a um café às margens do Rio Tigre. Existe uma televisão mal sintonizada em um canto. O narrador iraquiano se exalta, assim como os vários homens que estão assistindo.

Ouço então o grito de "Gooooool!". Eles vibram, pulam, se abraçam, sorrindo e se beijam. "O povo iraquiano está de cabeça erguida por causa disso", um deles explica. "Estamos muito orgulhosos do time."

Os jogadores de futebol do Iraque contrariaram todas as previsões. O país está imerso em violência. O presidente foi derrubado no ano passado. Eles têm pouco dinheiro, instalações de treino ruins e, mesmo assim, avançaram para as quartas-de-final dos Jogos Olímpicos.

Quartas-de-final

A seleção iraquiana derrotou Portugal, o país que conquistou o vice-campeonato europeu no mês passado, e ficou em primeiro lugar em seu grupo. Os iraquianos enfrentam agora a Austrália nas quartas-de-final. Na loja de materiais esportivos de Basim Al-Haji, em Bagdá, os negócios finalmente parecem um pouco melhores graças ao desempenho da seleção. Desde a queda de Saddam, a última coisa na cabeça das pessoas é comprar material esportivo. Tudo agora parece que está melhorando.

"A demanda já vinha aumentando por causa da Olimpíada. Agora, no entanto, várias pessoas vem comprar camisas do time iraquiano", diz Al-Haji. "Cada bom resultado nos faz vender mais."

As vitórias iraquianas parecem ainda mais inacreditáveis quando você cruza Bagdá e conhece o Estádio Nacional. Ele parece abandonado, esquecido e isolado por arame farpado.

Na última vez que a seleção jogou no estádio, Saddam ainda estava no poder.

Nas últimas semanas, morteiros caíram nas imediações do estádio. Durante os jogos classificatórios para as Olimpíadas, adversários se recusaram a disputar partidas em Bagdá, alegando falta de segurança.

As novas estrelas do futebol iraquiano não puderam, então, disputar nenhum jogo em casa.

Orgulho

Ex-técnico da seleção do país, Najah Hamood é agora um integrante da Associação Iraquiana de Futebol.

"É lógico que os jogadores são afetados com o que acontece aqui", diz Hamood. "Estamos tentando dizer a eles que, se jogarem bem, eles podem inspirar o país inteiro a trabalhar unido."

"Uma vitória no futebol poderia, talvez, ajudar a reconstruir o país." De volta às margens do Tigre, os craques do futuro treinam. O sol está se pondo, colorindo os jovens de ouro e alaranjado. Eles levantam uma nuvem de poeira ao correr no campo improvisado.

Acima de nós, helicópteros americanos patrulham os céus, abafando seus gritos, como se fossem um lembrete da guerra que continua a afetar as vidas deles.

No intervalo do jogo, um garoto me diz que "se avançarmos para a próxima fase, todos vão ficar felizes".

"Talvez se continuarmos a vencer, nós possamos esquecer o passado e seguir em frente."

Ele dá um meio-sorriso, como quem sabe que isso é pedir demais. O Iraque inteiro espera que seu time continue vencendo, mas a equipe de futebol já enche todo o país de orgulho.
 

BBC Brasil

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