Saiba como foi a conquista
Bernardinho conta que o grupo adotou um pacto velado. "Ninguém falava em ouro. No máximo, eles falavam em medalha, mas nunca ouro. E isso não foi nada combinado. Quando eu percebi isso, entrei nesse esquema. A única coisa que havia era um quadro branco no vestiário onde o Anderson escreveu "O ouro é nosso"", lembra.
O treinador contou ainda tudo o que pensou nos momentos que antecederam a partida. "Eu caminhei pela manhã na Vila Olímpica, pensando no nosso favoritismo e em chegar à medalha. Aí, me lembrei da trajetória do Torben (Grael) e do (Robert) Scheidt, que nesse caso eles tinham que ser regulares para saírem vitoriosos e nós, se perdêssemos um jogo, estaríamos fora", comparou.
Ainda nesta caminhada, Bernardinho pensou no costume do brasileiro de exaltar a conquista de um ouro. "É um povo que em uma prova de hipismo torceu como se fosse um gol do futebol", disse, referindo-se ao desempenho de Rodrigo Pessoa que chegou a ficar na liderança. Além disso, a imagem do mito, sempre construída no Brasil, também o preocupou. "Eu pensava, serão que vão me ver como um mito se nós ganharmos. Eu não gosto desta idéia. Cheguei a pensar que se perdêssemos isso não aconteceria", desabafou.
Bernardinho foi vítima de insônia durante a Olimpíada, pensando sempre nos desafios do Brasil. Antes do jogo contra os Estados Unidos, na semifinal, o treinador já não dormia há 3 dias e não pregou os olhos até o jogo da final. "Mas não sofri com ela. Aprendi a conviver com a insônia. A dedicação e a dor são os uniformes do atleta. Nós treinávamos no aeroporto, no estacionamento do hotel. Quanto mais se trabalha, mas a vitória é merecida", disse, concluindo que seus ídolos são os jogadores da seleção.
Comemoração
Bernardo disse que nem se deu conta que o jogo havia terminado e que o Brasil era ouro. "Eu estava tão envolvido na partida, que achei que ainda faltava mais um ponto. Só senti que éramos campeões, quando vi os jogadores no pódio", diz. Para o técnico a presença da família perto foi muito importante. "Ter a Fernanda do meu lado, me abraçando foi muito importante, porque geralmente a família está longe nas conquistas".
Fernanda Venturini, levantadora da seleção feminina, é casada com Bernardinho e os dois têm uma filha de dois anos, Júlia. "A Fernanda até brincou, dizendo que agora eu era o melhor marido do mundo e que podia fazer o que eu quisesse", disse.
Bernardinho foi questionado, durante a entrevista coletiva após a vitória, sobre a perda do bronze no feminino. "O grande vencedor é aquele que é capaz de ser reerguer. Elas tinham que ter ganhado o bronze". Para o treinador, que foi duas vezes medalha de bronze comandando a equipe feminina, ele sentiu mais a derrota para Cuba, do que para Rússia, "porque as jogadoras não conseguiram se recuperar".
Humildade e futuro
O técnico não poupou elogio aos jogadores medalhistas de ouro. "É um exemplo de trabalho e dedicação. Cada um teve uma função, como o Giovane. Ele foi fundamental na construção do grupo, um exemplo de humildade". Para Bernardinho, os atletas inspiram as pessoas, não só porque são bons, mas porque têm atitude e postura em quadra. "É uma experiência para a vida deles, para os bons e maus momentos".
Sobre seu futuro no vôlei, Bernadinho disse que não sabe se continuará no comando da seleção. "Tenho que pensar, conversar com minha mulher, é muito cedo para se falar nisso. Por enquanto sou técnico, mas tenho que pensar na minha vida e no meu projeto no vôlei".
Bernardinho diz que não descartaria retornar à seleção feminina. "Não importam as pessoas, mas o projeto que me motiva". Mas o técnico seguiu falando no masculino e disse que é preciso pensar na renovação. "Tem jogadores que estão parando. Temos que trazer os mais jovens para moldá-los dentro do espírito do grupo e isso, obrigatoriamente, leva quatro anos".