
Atualizada às 09h34 Brad Spurgeon
Do "Herald Tribune"
Quando Rubens Barrichello concede entrevistas, ele prefere conversar em pé; parece cauteloso. As respostas que ele oferece parecem ter sido repetidas muitas vezes. E, de fato, provavelmente foram.
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do piloto brasileiro Rubens Barrichello?
Aos 36 anos, ele não é o piloto mais velho do grid, e nem o mais cínico. Mas, no Grande Prêmio do Canadá, neste final de semana, ele será sem dúvida o mais experiente. Nas duas últimas provas, o piloto brasileiro da equipe Honda vem celebrando um recorde: ele superou a marca de Riccardo Patrese, e disputou mais de 256 GPs.
A contagem depende de quem é o encarregado de fazê-la e de finais de semana nos quais houve corridas para as quais ele estava inscrito, mas não entrou na pista.
Assim, quando pergunto qual é a sensação dessa longa celebração, ele diz que "se você pensar no assunto a sério, percebe que, a cada vez que entra na pista está batendo o seu recorde pessoal, e isso também mereceria comemoração".
Ao longo de boa parte de sua carreira, desde que chegou à Fórmula 1, aos 20 anos de idade, ele teve de se sujeitar a padrões de comparação nem sempre fáceis de superar, ou de viver à sombra de outro piloto.
Barrichello começou na equipe Jordan, em 1993, com a reputação de ser um piloto altamente veloz, mas vivia à sombra de seu mentor, o tricampeão mundial Ayrton Senna.
No ano seguinte, no Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, a história de Barrichello e a de Senna terminaram unidas para sempre. No treino da sexta-feira, Barrichello sofreu um acidente horrendo, quando seu carro atingiu a zebra e decolou, chocando-se contra a cerca de proteção.
Ele quebrou o braço e não pôde participar da corrida - que veio a ser um dos Grandes Prêmios não incluídos no cômputo (oficial) de sua carreira-, mas seu acidente foi apenas o primeiro de um final de semana negro.
No dia seguinte, Roland Ratzenberger, um piloto austríaco estreante, morreu em uma colisão. Depois, na corrida, no domingo, Senna bateu o carro e morreu. Subitamente, a sombra do mentor se transformou em expectativa, já que Barrichello terminou carregando as esperanças de seu país quanto a um sucessor à altura de Senna.
Mas ele era jovem e inexperiente demais para assumir esse papel. "Foi muito difícil, em 1994 e 1995", diz ele. "Mas a vida continua, como tem de continuar. Depois disso, as coisas melhoraram".
Em 1997, ele se transferiu para a equipe Stewart, onde reconstruiu sua força mental e recuperou sua melhor forma, terminando em sétimo lugar o campeonato mundial de pilotos de 1999.
No ano seguinte, a Ferrari o escolheu como companheiro de equipe para Michael Schumacher, que já havia conquistado dois títulos mundiais como piloto. Foi o começo da maior era na história da escuderia.
Mas Schumacher se tornaria a nova sombra para Barrichello. Além de ser o mais talentoso piloto de sua geração, o alemão também sempre foi um mestre em controlar as ambições de seus companheiros de equipe.
Barrichello conquistou sua primeira vitória no Grande Prêmio da Alemanha, em Hockenheim, em 2000, depois que Schumacher deixou a prova em função de uma batida. Era a 123ª corrida da carreira do brasileiro na categoria. Ainda que ele tenha sido o piloto vitorioso que mais demorou a vencer sua primeira prova, não demorou a se acostumar com a vitória.
No GP da Áustria, em 2002, surgiu uma crise no relacionamento entre Barrichello e a Ferrari. Ele foi mais rápido que Schumacher durante todo o final de semana. Havia feito a pole position e liderado a prova desde a largada. Mas perto do final da corrida, o diretor da equipe o instruiu pelo rádio a permitir que Schumacher o ultrapassasse e ficasse com a vitória. Para Barrichello, foi a gota d¿água.
Ele esperou até os segundos finais da corrida, pouco antes da linha de chegada, antes de desacelerar para permitir a ultrapassagem de Schumacher. Queria mostrar ao mundo o que estava acontecendo.
"Foi provavelmente uma de minhas melhores corridas; ninguém conseguiria me vencer naquele dia", diz Barrichello. "Foi bom mostrar a todos aquilo que só eu sabia. Eu o fiz para que todos soubessem o que estava acontecendo".
De fato, Barrichello estava em sua melhor forma, naquele ano, quando venceu cinco provas e terminou o campeonato de pilotos em segundo lugar - atrás de Schumacher. Mesmo assim, ele continuou na Ferrari até o final da temporada 2005.
"Eu queria ter uma chance de vencer, e não me deram a chance completa", ele diz. "Eu queria descobrir quais eram os meus limites".
"Nunca tive um carro melhor do que os que tive na Ferrari", afirma. "Mas lá eu tinha de suportar uma situação que, depois de seis anos, chegou a um máximo".
Ele optou pela Honda. Mas a equipe, que concluiu a temporada de 2006 em quarto lugar, caiu para o oitavo em 2007, e agora está se reorganizando.
Barrichello diz que é apenas questão de tempo para que a Honda volte a vencer. A equipe contratou Ross Brown, ex-diretor técnico da Ferrari, para comandar as operações técnicas e para o posto de diretor esportivo.
A despeito da idade de Barrichello, ele diz que continua otimista quanto a correr na Fórmula 1 por mais alguns anos, e continua faminto por um título mundial. "Tenho muita fé em mim", ele disse. "Fisicamente, eu poderia continuar pilotando para sempre".
Com pelo menos 256 corridas e 15 temporadas completadas, o que ele aprendeu de mais importante, desde que começou?
"Experiência", ele diz. "Sempre fui rápido, mas a experiência surge naturalmente ao longo do tempo. Os objetivos mudam, ao longo da carreira, e com mais experiência você de certa forma usa energia para as coisas boas e não queima energia com as coisas erradas".
Como conceder entrevistas, talvez.
Tradução: Paulo Migliacci ME
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