| André Santos/Divulgação |
 Fernanda Parra é única mulher na disputa da Stock Light |
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Cabelos loiros, olhos castanhos, 1,63m, 51kg, busto 81cm, cintura 69cm e quadril 92cm. As medidas poderiam muito bem pertencer a uma modelo que estampa a capa de inúmeras revistas. No entanto, a descrição é da bela paulista Fernanda Parra, única mulher na disputa da Stock Light. Depois de acompanhar a trajetória do pai dentro das pistas desde pequena, ela resolveu assumir o gosto pela velocidade e deixou de lado a carreira publicitária para viver entre mecânicos e pilotos sujos de graxa.
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Em sua primeira temporada na Stock Light, Fernanda viveu algumas situações inusitadas. "Quando nós estávamos dando autógrafos e tirando fotos com os espectadores, um homem chegou e disse: 'olha, essa equipe trouxe a cozinheira!'", recordou. Depois de um momento de constrangimento, a piloto levou o acontecimento "na esportiva" e acabou ganhando mais um fã. "Ele pediu autógrafo, tirou foto comigo e disse que ficaria torcendo por mim na corrida", completou.
Para os outros 33 pilotos da categoria, a presença de Fernanda Parra provoca reações inusitadas. Enquanto alguns tratam a garota com naturalidade, outros se sentem incomodados. "Tem muitos preparadores que instruem os seus pilotos apenas para andarem na minha frente. O objetivo principal deles não é ganhar, mas sim não ficar atrás de mim. Eles pensam que é uma questão de honra andar na frente da mulher", conta a piloto.
Segundo a garota, o grande culpado pela sua aventura dentro das pistas é o pai, Fernando. "Quando eu e minha irmã éramos pequenas, não podíamos entrar nos boxes de Interlagos. Então, meu pai parava o carro um pouco antes do autódromo, colocava a gente dentro da porta mala e entrava", lembrou a piloto, que pretende correr na categoria principal da Stock Car em 2009. "Quando eu chegar na V8, não vou apenas para passear", avisou.
Terra - Você é uma das únicas brasileiras no automobilismo. Como foi o começo da sua carreira?
Fernanda - Eu comecei em 2004, mais por causa do meu pai. Desde pequena, sempre o assistia correndo. Quando eu e minha irmã éramos pequenas, não podíamos entrar nos boxes de Interlagos. Meu pai parava o carro um pouco antes do autódromo, colocava a gente dentro do porta-mala e dizia que precisava descarregar equipamento para entrar nos boxes. A gente descia e ficava escondidinha. Eu fui crescendo e tive essa vontade de experimentar. Fiz um curso de pilotagem e comecei.
Terra - Como seu pai já era piloto, imagino que para a família Parra não foi uma grande surpresa a sua iniciativa de correr...
Fernanda - Eles ficaram um pouco surpresos, sim, principalmente porque eu já tinha 24 anos quando comecei. Normalmente, os pilotos correm desde cedo no kart. Acho que minha família não esperava que eu começasse depois de grande. Meu pai não queria que eu entrasse nessa carreira por causa das dificuldades, é um esporte caro e complicado. Mas eu enchi bastante o saco dele e consegui convencê-lo (risos). Minha irmã também fez o curso, mas acabou não gostando.
Terra - Nesta temporada, você terminou a Stock Light na 23ª colocação. Como avalia o seu desempenho em 2006?
Fernanda - Acho que foi dentro do esperado, tanto o desempenho quanto a dificuldade. Eu sabia que seria uma temporada difícil, especialmente pela minha falta de experiência. A maioria dos pilotos da Light já tem uma certa experiência no automobilismo. Além do mais, eu só conhecia a pista de São Paulo, nunca tinha andado fora. Foi bem difícil de acertar o carro e não virei quanto queria em algumas corridas. Mas acho que foi bem proveitoso, tudo dentro do esperado mesmo. Tive um aprendizado muito grande.
Terra - Alguns rumores dão conta de que você pode mudar para a V8 no ano que vem. Quais são os planos para a próxima temporada?
Fernanda - Desde que comecei a correr, meu principal objetivo é chegar à categoria principal da Stock. Em 2007, vou continuar na Light. Na próxima temporada, tenho expectativas muito maiores. Quero andar entre os dez primeiros e ganhar corridas. Pretendo mudar de categoria apenas em 2008 ou 2009. Quando eu chegar na V8, não vou apenas para passear. Quero me preparar mais para chegar com a possibilidade de ser competitiva. A Light corre nas mesmas pistas, é a categoria que mais se aproxima da V8.
Terra - Dentre os 34 pilotos que pontuaram na Stock Light nesta temporada, você é a única mulher. Isso acaba intimidando ou serve como motivação?
Fernanda - Para mim, isso serve como motivação. Como sou a única piloto, quero representar bem para dar orgulho para as outras mulheres. O fato de ser a única mulher nunca me intimidou. Quando eu comecei a correr, foi um pouco complicado, porque muitos pilotos não estão acostumados e olham de uma forma um pouco diferente. Mas depois, isso passa.
Terra - Como os outros pilotos da categoria tratam você? Já é de igual para igual?
Fernanda - Hoje, a maioria já trata de igual para igual. Muitos pilotos já andaram no exterior com outras mulheres ou então com a Bia (Figueiredo, da Fórmula Renault) aqui no Brasil. Para eles, é normal andar com outra mulher. Por outro lado, tem muitos preparadores que instruem os seus pilotos apenas para andarem na minha frente. O objetivo principal deles não é ganhar, mas sim não ficar atrás de uma mulher. Eu acho isso muito engraçado. Eles pensam que é uma questão de honra andar na frente da mulher...
Terra - Em algum momento, você já se sentiu menosprezada ou sofreu algum tipo de preconceito?
Fernanda - Às vezes, tem um certo preconceito, sim. Uma vez, em Santa Cruz do Sul, aconteceu uma coisa que me deixou um pouco constrangida durante a visitação da prova . Quando nós estávamos dando autógrafos e tirando fotos com os espectadores, um homem chegou e disse: "olha, essa equipe trouxe a cozinheira!". Na hora, pensei: "não acredito que estão me falando isso". Mas depois, acabamos dando risada juntos. Ele pediu autógrafo, tirou foto comigo e disse que ficaria torcendo por mim na corrida. A gente leva na esportiva.
Terra - Ainda falta muito para acabar com essa visão machista ou você acha que isso não está muito longe?
Fernanda - Falta um pouco ainda. Isso só vai terminar quando tivermos mais mulheres correndo. Acho que temos poucas meninas no automobilismo por uma questão cultural. Quando tem filhos pequenos, os pais levam apenas os meninos para andar de kart. A mulher acaba crescendo afastada do automobilismo. As que correm começam quando vêem os pais e irmãos correndo. Com um grande número de mulheres, o tratamento poderia ser de igual para igual.
Terra - Você acha que, dentro do carro, homens e mulheres podem ter exatamente o mesmo desempenho?
Fernanda - Do jeito que a Stock Car está agora, acho que temos exatamente as mesmas possibilidades. Se fosse na época do Ômega, sem direção hidráulica e com o freio pesado, o homem poderia levar alguma vantagem. Mas hoje, como é tudo molinho, não tem que fazer força para pilotar. Precisa de resistência, uma coisa que ambos podem desenvolver com treinamento. Isso nos carros de turismo, porque os monopostos são mais pesados mesmo.
Terra - Você procura tirar algum tipo de vantagem pelo fato de ser mulher ou se imagina como apenas mais um piloto?
Fernanda - Eu tento me imaginar como apenas mais uma. Para fazer a diferença, assim como qualquer outro piloto, sei que tenho que andar na frente, ganhar provas e conquistar títulos. Mas para a categoria, acho que é uma coisa positiva. Tudo que puder ser diferente é válido para valorizar a modalidade.
Terra - No meio machista do automobilismo, imagino que você recebe cantadas com certa freqüência...
Fernanda - Não, eu não recebo muitas cantadas, não. Eu tenho noivo (Ruben Carrapatoso) e ele sempre está junto comigo. Todo mundo conhece ele no meio. Além disso, meu pai é o chefe da equipe. Então, ninguém chega perto (risos).
Terra - Para quem está acostumado a andar a alta velocidade, como é enfrentar o trânsito de São Paulo todos os dias?
Fernanda - Isso que é complicado mesmo, é ruim para todo mundo. Para quem é piloto ou não, precisa ter muita paciência no trânsito. Na pista, é bem diferente. O único jeito é ter paciência mesmo, ligar o rádio e passar o tempo. Quando está tudo parado, dá vontade de pelo menos colocar segunda marcha (risos). O que eu gosto mesmo é de andar acima do limite nas pistas e buscar ser mais rápida a cada volta.
Terra - No trânsito da cidade, quem dirige melhor: o homem ou a mulher?
Fernanda - Tanto na pista quanto na cidade, existem homens e mulheres que fazem bobagem. Tem vários amigos meus que não sabem andar direito e vivem se perdendo. Ao mesmo tempo, tem mulheres que são distraídas e dirigem com o celular. O sexo não determinada nada.
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