Lituanos fazem bonita festa em ginásio na Turquia
Foto: Solly Boussidan/Especial para Terra
- Solly Boussidan
- Direto de Istambul
A noite de quinta-feira realmente não era da Argentina. No segundo dia de partidas das quartas de final do Mundial Masculino de Basquete, os argentinos foram massacrados dentro e fora de quadra pela Lituânia, encerrando a campanha sul-americana no campeonato.
Dentro da quadra, o que se viu foi um fenomenal show de basquete do lado lituano. O time argentino não parecia ter a ferocidade e precisão da partida na qual eliminou o Brasil, pelas oitavas de final.
"Alguém que assistiu à Argentina jogar pela primeira vez nesta noite com certeza pensaria: 'eles jogam basquete muito mal, a Lituânia é o time número um do mundo'. Perdemos por uma diferença de quase 30 pontos", resumiu o técnico argentino, Sergio Hernandez.
As bolas argentinas simplesmente não entravam na cesta. Luis Scola, que até então era o melhor jogador do Mundial, com mais de 30 pontos por partida, "emperrou" nos 13 tentos e passou a coroa de cestinha do jogo ao companheiro de equipe, o ala-armador Carlos Delfino, que fez 25.
A Lituânia esteve soberba e encerrou a noite com a vaga na semifinal e um placar de 104 a 85. O triunfo, entretanto, não ocorreu somente entre os jogadores. A arena Sinan Erdem assistiu a uma ensurdecedora apresentação dos fanáticos torcedores lituanos, que, apesar de em menor número do que os argentinos, fizeram barulho suficiente para abafar o som da torcida rival.
Com o decorrer do jogo e sem muito clima para agitação, os argentinos resignaram-se a assitir ao naufrágio de seu time sentados e mudos. Os lituanos, vestidos de verde, com caras pintadas e acompanhados de 12 tambores, reco-recos e apitos, estenderam uma enorme bandeira do país sobre suas cabeças e, incansáveis, bradavam "Lietuva! Lietuva!" (Lituânia! Lituânia!, em lituano).
Ao final da partida, uma cena bonita: os torcedores argentinos, reconhecendo a superioridade do time e da torcida lituana, se levantaram e aplaudiram de pé os rivais de arquibancada.
Dois dos responsáveis pela festa dos tambores continuavam fazendo barulho mesmo depois da saída dos times de quadra. Amigos há mais de dez anos, o empresário Sarunas Gustainis e o mecânico Gytulis Aunlir não entendiam porque os companheiros pararam de tocar.
"Vencemos! Temos que continuar celebrando", gritava Sarunas, 34 anos. Originário de Vilnius, a capital da Lituânia, o empresário conta que sempre gostou de basquete e acompanhava os torneios há oito anos.
"Eu só comecei mesmo a tocar tambor há dois anos. Estava na Espanha em 2008 com Gytulis e outros amigos que batucavam em um dos jogos da Lituânia. Havia um tambor extra e um deles disse: 'vem, Sarunas! Você é forte - pegue aí a baqueta e ajude a gente a fazer barulho'".
Gytulis dá risada do amigo. "Começou a tocar e não conseguiu mais parar", brinca. "Éramos um grupo de 20 torcedores no começo, fanáticos por basquete. Hoje só no grupo principal somos 80 pessoas - fechamos um pacote e fretamos metade do avião que nos trouxe", explica o mecânico, 36 anos. "Eu amo a Lituânia e amo basquete", prossegue Gytulis em tom patriótico.
Patriotismo, aliás, é o que parece não faltar aos lituanos. Na coletiva de imprensa, logo após o término do jogo, Kestutis Kemzura, o técnico do time europeu, explicou a recuperação da Lituânia (o país não conseguiu se classificar para o Mundial e só participa por ter sido convidado pela Federação Internacional de Basquete) com uma metáfora que poderia entrar em cartilhas e panfletos nacionalistas.
"Somos uma pequena nação, mas é nosso fenômeno encontrar meios e começar a se unir, sem nunca desistir. Gosto de comparar o basquete com a vida das pessoas. No nosso país temos muitos altos e baixos, momentos difíceis, mas a gente sobrevive. Você pode bater em nós. Pode nos vencer. Mas você não pode nos destruir", disse o técnico.
Sarunas, menos propenso a metáforas grandiosas, estava certo da vitória da Lituânia na partida da semifinal contra os EUA no próximo sábado.
"Vamos ganhar. Agora temos certeza. O jogo de hoje (quinta) prova tudo. Não sei explicar bem o porquê, mas foi muito mais fácil do que esperávamos. Nossa capacidade tática vem melhorando com cada partida e estamos apresentando um bom aproveitamento", disse. "Em 2014 vamos à Copa do Mundo no Brasil com os tambores", avisa Gytulis, ao escutar o companheiro.
Ao ser perguntado por quem vão batucar durante as partidas de futebol, o mecânico dá uma leve risada e solta um berro: "Lietuva! Lietuva!".
Se o Mundial de Basquete da Turquia servir de amostra do que nos espera na Copa do Mundo de 2014, a sugestão que fica é providenciarmos tampões de ouvido - ou pelo menos estocar remédio contra dor de cabeça.
- Especial para Terra






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