Torcedores turcos comemoram chegada do time local à final
Foto: Reuters
- Solly Boussidan
- Direto de Istambul
O evento esportivo que marcou a Turquia nas últimas semanas chegou ao seu final na noite deste domingo. Após uma partida relativamente fácil, os Estados Unidos venceram os donos da casa e tornaram-se campeões pela quarta vez no Mundial Masculino de Basquete.
Os americanos venceram a seleção turca mesmo com o público presente na Sinan Erdem Arena a favor dos anfitriões. Os 15 mil torcedores que esgotaram os ingressos para a partida em Istambul fizeram o possível para empurrar o capitão do time local, Hidayet Türkoglu, e seus companheiros. Ao final, os americanos, com fantástica atuação de Kevin Durant, encerraram o Mundial com uma vitória por 81 pontos a 64.
O Mundial de Basquete da Turquia teve duração de 16 dias e ocorreu em quatros cidades-sede em sua fase preliminar - Ankara, Istambul, Izmir e Kayseri. A fase final concentrou-se em Istambul, na Sinan Erdem Arena, um ginásio construído especialmente para o Mundial. Com arquibancadas telescópicas e construída com as mais recentes inovações de engenharia, a arena é capaz de receber até 15 mil espectadores e converter-se em palco para múltiplas modalidades esportivas, incluindo natação.
Foram 80 jogos disputados por 24 times e um investimento de mais de US$ 120 milhões (cerca de R$ 206 mi) para a realização do evento. O Brasil, com Tiago Splitter, Leandrinho, Marcelo Huertas e Marcelinho Machado, exibiu um bom nível de basquete, mesmo tendo sido eliminado pela Argentina nas oitavas de final. A Seleção realizou jogos dramáticos na fase preliminar, perdendo por muito pouco dos Estados Unidos e da Eslovênia.
A população da Turquia abraçou o basquete e acompanhou de perto o desenrolar do torneio e o desenvolvimento de seu time. Na noite da final a arena foi tingida de vermelho e branco pelos rostos pintados, camisetas e bandeiras empunhadas por uma torcida alegre, que cantou o tempo inteiro, quase não permaneceu sentada e vaiou muito o time americano.
Ainda eufóricos com a vitória na noite de sábado e a chance de, pela primeira vez na história da Turquia, disputar uma final de um torneio mundial em um esporte coletivo, os turcos não pareceram extremamente decepcionados com o segundo lugar.
Sim, eles vibraram e sonharam com o ouro, mas, para grande parte da Turquia, realizar um Mundial de alto nível e ver sua Seleção na final contra os Estados Unidos já tinha sabor de vitória.
"Não fiquei muito triste com a derrota. Acho que as pessoas aqui na Turquia já estão muito felizes com o segundo lugar e vão celebrar assim mesmo", disse a designer de moda natural de Istambul, Hilal Senil, ainda na arena após o término da partida.
Sua amiga, a professora Isin Tatlici, 30 anos, que joga basquete em um time amador há 13 anos, concorda. "Dizemos aqui na Turquia que nada é impossível. Seria um sonho vencer os Estados Unidos. Não conseguimos, mas acho que todos estamos muito orgulhosos de nosso time", afirmou Isin, que se declara uma fanática pelo ala turco Kerem Tünçer.
Orgulho, aliás, é uma palavra usada com frequência pelos torcedores presentes no ginásio para descrever seus sentimentos após a derrota do time local. "Ficamos um pouquinho chateados com a derrota, mas estamos muito orgulhosos de nosso time e do nosso país. Conseguimos organizar o melhor Mundial de Basquete da história", vangloria-se Umut Güzef, 25 anos.
O estudante de economia natural de Istambul crê que enfrentar os Estados Unidos na final já é uma vitória. "Para mim ter a Turquia jogando um Mundial e enfrentando os EUA já era um sonho. Jogar o Mundial e enfrentar os EUA na final é um passo além. Foi incrível e a derrota não significa nada", disse.
"Para nós já é suficiente chegar a uma final. Perdemos para os Estados Unidos e não para um time qualquer. Foi um jogo duro. Não temos porque estar chateados", diz o voluntário Sinan Kapraz, 21 anos. Ao seu lado, o também voluntário e amigo Kaan Akkanat, 17 anos, aprova o comentário do companheiro e acrescenta: "essa foi só nossa primeira disputa de uma final contra os EUA, não dá para vencer de primeira. Precisamos ganhar mais experiência".
Incidente político
A final do Mundial teve ainda a tradicional honraria de introduzir alguns grandes nomes do basquete no Hall da Fama da Federação Internacional de Basquete (Fiba). Um dos grandes homenageados da noite foi o ex-jogador brasileiro Oscar Schmidt, que durante os 32 anos de sua carreira marcou mais de 49 mil pontos.
Alguns "senões", entretanto, marcaram a celebração máxima do basquete mundial. Primeiramente, houve certo desconforto quando alguns torcedores vaiaram o hino dos EUA durante sua execução.
O momento mais constrangedor, entretanto, ocorreu durante a entrega das medalhas. O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e o presidente da nação, Abdullah Gül, foram fortemente vaiados pelo público presente ao entrarem e deixarem a cerimônia de premiação.
Como se para evitar dúvidas sobre para quem as vaias eram dirigidas, os torcedores foram ainda mais contundentes na demonstração quando os nomes dos políticos foram anunciados e eles se aproximaram dos times vencedores para a entrega de medalhas.
"Não gostamos do comportamento do público. Sem o apoio do presidente e o primeiro-ministro não teríamos podido realizar este Mundial", disse o técnico da Turquia, Bogdan Tanjevic.
Segundo a imprensa turca, o comportamento dos torcedores pode ser reflexo do resultado de um referendo nacional ocorrido no mesmo dia da final do Mundial de Basquete, na qual a maioria do país autorizou o primeiro-ministro a modificar a Constituição da Turquia. Analistas locais e internacionais temem que as mudanças possam fazer com que o país abandone princípios seculares em favor de leis de cunho islâmico.
Passado o incidente, a celebração na Sinan Erdem Arena continuou normalmente. Ao som de flamenco, cheerleaders realizaram uma dança espanhola, lembrando ao mundo que em 2014 o basquete mundial volta a celebrar seus heróis - desta vez no solo da Espanha.
- Especial para Terra



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