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Seleção Brasileira

Índios e policiais se enfrentam em Brasília; agente leva flechada

27 mai 2014
21h23
atualizado às 21h25

A polícia dispersou com bombas de gás lacrimogêneo uma manifestação em Brasília, a qual aderiram líderes indígenas para protestar contra os gastos na Copa do Mundo e que acabou com um agente ferido por flechada, constatou a AFP.

Vestindo trajes tradicionais, incluindo roupas com plumas e pinturas rituais, cerca de 500 chefes indígenas se uniram a outros 500 manifestantes e marcharam em apoio a várias causas sociais no eixo monumental da capital federal, em direção ao estádio Mané Garrincha, onde serão disputados vários jogos da Copa.

Quando a polícia montada se preparava para bloquear a passeata, alguns dos índios se lançaram na direção dos cavalos e um deles disparou uma flecha em sua direção, atingindo um policial na perna.

Alguns índios começaram a atirar pedras contra cerca de 700 policiais que cercavam o estádio. Manifestantes também bloquearam as ruas ao redor do Congresso, do Palácio Presidencial e do Supremo Tribunal Federal.

Mais cedo, líderes indígenas subiram no teto do Congresso Nacional em um protesto destinado a defender a proteção de seus direitos.

O protesto, que reuniu cerca de 100 grupos étnicos de todo o Brasil, contou ainda com o cacique caiapó Raoni, de 84 anos, um ícone da defesa da Amazônia ao lado do astro da música Sting.

"Subir no Congresso foi um ato de coragem, demonstração de que somos guerreiros e defendemos nossos direitos", disse à AFP Tamalui Kuikuru, da região do Xingu, no Mato Grosso (centro-oeste).

Os índios, que estavam pintados, usando plumas, arcos e flechas tradicionais, desceram pacificamente do teto do Congresso logo depois, percorreram a Esplanada dos Ministérios e, em seguida, juntaram-se às centenas de manifestantes contrários à Copa e ao movimento dos sem-teto que marchavam na direção do estádio.

Duzentos policiais acompanharam o protesto e o mesmo número resguardava o estádio Mané Garrincha, onde estava o troféu da Copa, em exibição para o público nas cidades sede antes do torneio.

"A Copa é para quem? Não é para nós!" - clamava um manifestante com um alto-falante. "Não quero a Copa, quero esse dinheiro para a saúde e a educação".

O protesto aconteceu em um contexto de greves em vários setores às vésperas do Mundial, que será disputado entre 12 de junho e 13 de julho.

Uma greve de motoristas de ônibus paralisou nesta terça Salvador (nordeste), uma das 12 cidades-sede da Copa, e o policiamento foi reforçado para garantir a segurança das unidades em circulação.

Em Brasília, os indígenas, que são 0,3% da população de 200 milhões de habitantes do país, iniciaram seu protesto com orações tradicionais, ao ritmo de chocalhos, na Praça dos Três Poderes, cercada pelo Palácio do Planalto - sede da Presidência -, pelo Congresso e pelo Supremo Tribunal Federal.

Alguns mais velhos usavam fumaça para "espantar o mal", explicaram à AFP.

"Antes de fazer a Copa do Mundo, o Brasil deveria pensar melhor na saúde, na educação, na moradia. Vemos manifestações dos povos: não se gastam tantos milhões para um evento que não traz benefícios", disse o indígena Neguinho Truká, da etnia Truká de Pernambuco (nordeste), com um cocar tradicional de plumas azuis e vermelhas na cabeça.

Os indígenas multiplicaram seus protestos na capital durante o governo da presidente Dilma Rousseff, a quem acusam de deter a demarcação de suas terras ancestrais e de favorecer os grandes agricultores.

O Brasil foi sacudido por uma onda de protestos em junho do ano passado, durante a Copa das Confederações, contra os elevados gastos públicos nos estádios.

Os protestos, que continuaram durante meses, embora com menos intensidade, têm sido mais vinculados nas últimas semanas a movimentos sociais organizados, de sindicatos a partidos radicais de esquerda, ONGs críticas ao Mundial, o Movimento de Camponeses Sem-terra ou os Sem-teto.

Vários setores, de policiais a professores, passando pelos motoristas de ônibus de várias cidades como Rio, São Paulo, Salvador e São Luís do Maranhão, têm aproveitado a proximidade da Copa para pedir aumentos salariais e fazer greves.

Na noite desta terça-feira, motoristas de ônibus do Rio convocaram uma nova paralisação de 24 horas a partir da 00h00 de quarta.

Os trabalhadores do metrô de São Paulo, que transporta diariamente 4,5 milhões de pessoas, devem votar nesta terça-feira se entram em greve. "O mais provável é que aprovemos a greve. Só teríamos que definir a data", declarou à AFP um porta-voz do sindicato.

Os motoristas de ônibus de São Paulo fizeram uma greve de dois dias na semana passada, que afetou mais de um milhão de pessoas e provocou engarrafamentos gigantescos.

Os professores da rede de ensino público do município e do estado do Rio também estão em greve e na segunda-feira, 200 deles bloquearam rapidamente a saída do ônibus que transportava a seleção brasileira até a concentração, em Teresópolis. "Não vai ter Copa; vai ter greve", diziam alguns cartazes.

Trabalhadores dos setores de transporte e saúde do Rio de Janeiro também estudavam entrar em greve. Os vigilantes bancários do Rio estão paralisados há quase um mês.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
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