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Campeã do moguls tem pavor de mortais; e mesmo assim ganha

16 fev 2010
15h36
atualizado às 16h26

Charles McGrath
Hannah Kearney, que no sábado ganhou a primeira medalha de ouro dos Estados Unidos nestes Jogos ao vencer no moguls, sofre com uma desvantagem considerável para alguém em seu esporte. Ela odeia ficar de cabeça para baixo e, por anos, evitou aprender os mortais que são hoje padrão para a maioria dos esquiadores de moguls.

"Tenho feito esses saltos por seis anos, mas ainda estou aprendendo a superar o medo", disse depois da cerimônia de entrega das medalhas. "Não sei se é uma fobia exatamente, mas é algo pelo qual não tinha interesse, com certeza. Batalhei muito para mudar isso e agora estou mais confortável".

Kearney disse que começou o esqui de estilo livre aos nove anos e, apesar do curso oferecer o esqui invertido mesmo para crianças tão novas, ela apenas optou "por ficar fora".

"Nunca passou pela minha mente que era algo que quisesse fazer", disse. "Não tenho nenhum desejo de ficar de cabeça para baixo".

Para superar o medo, ela não consultou um psicólogo esportivo. "Sou cabeça dura, se coloco algo na cabeça, na maior parte das vezes vou fazê-lo", disse ela.

Ao invés disso, ela embarcou no que chama de processo de formação de habilidade. "Você pode aprender a girar com um sistema de bungee jump sobre um trampolim, assim você se sente protegida", disse. "A partir daí, você vai para um sistema de bungee sem auxílio, depois só para o trampolim e, então, com esquis nos pés, mas sobre a água, você se sente segura".

No último verão americano, continuou, ela deu mil saltos na água, o que significa dar 58 mil passos em direção ao alto. "Cada um deles valeu a pena", disse ela.

Para chegar ao pódio em Vancouver, Kearney também precisou superar uma lesão no joelho de 2007, um corte temporário no patrocínio para esquiadores de moguls americanos no ano passado e, mais devastador, um desempenho desastroso nas Olimpíadas de 2006, em Turim. Favorita para ganhar uma medalha, ela esquiou terrivelmente e sequer chegou a ir para a segunda rodada.

"Minha primeira corrida olímpica durou cerca de quatro segundos", disse ela no domingo à noite, acrescentando, "me senti envergonhada. Não queria mostrar o rosto, estava muito desapontada com meu desempenho. Emocionalmente, levei alguns meses para me sentir motivada a fazer qualquer coisa".

Ela acabou voltando para a competição de moguls, mas depois da lesão, disse, ela entendeu que estava emocionalmente exausta.

"Estava cansada do estilo livre", disse ela. "Vivendo com uma mala, vendo as mesmas pessoas todas as noites".

Ela voltou para casa, em Norwich, Vermont, para se recuperar. Afastada das pistas, ela se apaixonou novamente pelo esqui.

"Todo dia, virou minha missão ir para a academia", disse ela, "foi quando entendi que realmente gostava do moguls e que era algo para o qual direcionaria minha energia".

Kearney está tão ligada a Norwich que ainda mora na casa em que cresceu, que foi construída por seu pai, um carpinteiro. Enquanto recebia a medalha de ouro, ela tinha outra presa sob a camisa ¿ um medalhão de prata no formato do Estado de Vermont.

Norwich, à beira do rio Connecticut, do outro lado de Hanover, New Hampshire, é o tipo de lugar em que escolas liberam os alunos mais cedo às quartas para que as crianças possam esquiar. A cidade enviou pelo menos um atleta para cada Jogo de Inverno desde 1984, em um total de 12. Kevin Pearce, atleta de snowboard que sofreu séria lesão cerebral num treinamento mês passado, teria sido o 13º.

"Supostamente, um em cada 322 moradores é atleta olímpico", disse Kearney. "Temos mais atletas olímpicos que Hanover. Não sei se é a água ou algo parecido".

Depois da entrega da medalha, a mãe de Kearney, Jill, com uma camiseta chamativa dizendo "Mãe do Mogul", lembrou que a filha começou a esquiar quando tinha apenas dois anos.

"Eu a prendia por uma corda e deixava que esquiasse na minha frente", disse ela.

Kearney já esquiava em pistas profissionais quando tinha cinco anos e começou no estilo livre aos nove.

"Ela não queria participar de corridas", disse sua mãe. "Ela fez os estilos ballet, moguls e aéreos. Eu me lembro da primeira competição, quando ela nunca havia feito um salto antes. Fiquei apavorada".

O técnico de Kearney era Nick Preston, que conduzia o programa de estilo livre na área de esqui de Waterville Valley, em New Hampshire, e continua sendo amigo próximo da família. Praticamente na primeira vez em que ele viu Kearney esquiar, disse à mãe dela que a menina era boa o bastante para um dia entrar na equipe americana de esqui.

"Escutei aquilo com ceticismo", disse Jill Kearney. "Sou diretora de recreação na prefeitura de Norwich e, acredite, sei que todo pai acha que o filho é uma estrela".

Preston afirma se lembrar de Hannah como uma menina bem quieta. "Ela não falava muito", disse. "Mas era uma esquiadora pequena e maravilhosa. Ela mantinha os pés juntos, naquele estilo angular - ela já tinha tudo o que precisava na época".

Jill Kearney disse que a única coisa desapontadora sobre a vitória da filha é que o irmão mais novo de Hannah, Denny, que joga hóquei por Yale, não pôde assistir.

"Ele ficou muito angustiado sobre se deveria ou não deixar o time, e o técnico deixou a seu critério", disse ela. No final, Denny Kearney ficou em casa, jogando em uma vitória contra Cornell no sábado que garantiu o título da Ivy League para Yale. Ele assistiu à sua irmã ganhar o ouro no ônibus do time.

"Todos os colegas estavam com ele", disse a mãe. "Então, deu tudo certo".

Amy Traduções

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