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Choradeira e duelo com ídolo: brasileiro conta estreia na MLB

18 mai 2012
17h02
atualizado às 17h07
Emanuel Colombari

A noite desta quinta-feira, 17 de maio de 2012, foi histórica para o esporte brasileiro. Pela primeira vez, um jogador nascido no Brasil atuava por uma equipe da Major League Baseball (MLB), a mais importante liga de beisebol por equipes em todo mundo. O nome dele: Yan Gomes, paulistano, 24 anos, promovido à terceira base do Toronto Blue Jays.

A estreia de Gomes não poderia ter sido melhor: diante da mais tradicional franquia do beisebol americano, o New York Yankees, o brasileiro conseguiu duas rebatidas em três tentativas. No fim, diante de alguns de seus ídolos no esporte, como Alex Rodriguez e Derek Jeter, Yan Gomes e o Toronto Blue Jays venceram por 4 a 1.

"São os caras que eu cresci olhando", contou Yan Gomes em entrevista exclusiva por telefone ao Terra. Alex Rodríguez, conhecido como A-Rod, é um caso a parte entre os ídolos do brasileiro (e do esporte americano): o terceira base foi chamado 13 vezes para o All-Star Game entre 1996 e 2010, foi três vezes MVP da liga americana, campeão da World Series de 2009 e assinou, em dezembro de 2007, o mais caro contrato da história da modalidade: US$ 275 milhões por dez anos. Em 2011, ele superou Tiger Woods como o atleta mais bem pago do mundo, segundo a ESPN Magazine, recebendo US$ 32 milhões por ano. De quebra, já se envolveu nomes como Madonna, Cameron Diaz e Kate Hudson. E nesta quinta-feira, o time de Rodriguez foi derrotado pelo do estreante Gomes.

A história de Yan Gomes no próprio beisebol é curiosa. Aos 6 anos, ele foi recrutado pelo técnico cubano Augusto Fonseca em um supermercado, enquanto seus pais faziam compras, em Mogi das Cruzes (SP). Depois de passar às categorias de base da Seleção Brasileira, ele se mudou com a família para os Estados Unidos aos 12 anos. Mesmo assim, continuou jogando pela escola, e ao chegar à universidade, conseguiu um lugar no Tennessee Volunteers, da NCAA.

Daí em diante, o brasileiro colheu uma série de sucessos e marcas. Depois de duas temporadas pelos Volunteers, Gomes teve sua primeira chance na MLB, pelo Boston Red Sox, ao ser a 39ª escolha no draft. Surpreendentemente, recusou e se transferiu para a Barry University, atuando pela Barry Buccaneers e continuando a atingir marcas de destaque no esporte universitário americano.

Em 2009, não teve mais escapatória: foi a escolha do Toronto Blue Jays na décima rodada do draft. No mesmo ano, foi mandado para a Rookie League para reforçar o Gulf Coast Blue Jays (equivalente ao time E do Toronto); no entanto, foi escalando a pirâmide do beisebol americano, subindo de ligas: A, A+, Double-A e Triple-A. Nesta última, vinha atuando pelo Las Vegas 51s, time B do Toronto, até que foi chamado para assumir um lugar nos Blue Jays.

Em cima da hora, o brasileiro herdou as vagas de Adam Lind (em má fase, foi rebaixado para o Las Vegas 51s) e Brett Lawrie (suspenso), e não acreditou. "Sempre tem isso de pensar como vai ser aquele dia. Você pode sonhar mil vezes, mas quando o momento vem mesmo, o sentimento é muito louco. Foi muita choradeira de felicidade", disse o brasileiro, com um português sem sotaque, após a estreia.

Nesta sexta-feira, ainda colhendo os frutos do primeiro jogo na Major League Baseball, Yan mostrou que tem mais planos - entre eles, jogar pela Seleção Brasileira adulta. No fim do ano, o Brasil será um dos 16 países na disputa do qualifying do World Baseball Classic (espécie da Copa do Mundo da modalidade), pelo qual passarão quatro países que se somarão aos 12 já classificados. E ele já avisou: "quero muito jogar com o time do Brasil, seria uma honra para mim".

Confira a entrevista exclusiva de Yan Gomes ao Terra:

Terra - A repercussão de sua estreia foi bastante grande no Brasil. Você conseguiu acompanhar?
Yan -
Eu vi, tenho bastante família aí ainda. Muita gente me ligou ontem. Foi muito legal.

Terra - Conte-nos um pouco mais de seu início de carreira. Você se mudou para os Estados Unidos aos 12 anos, recusou proposta do Boston Red Sox...
Yan -
(A mudança) não foi muito pelo beisebol, foi pela família. Estava começando a jogar, e percebi que estava jogando bem. Peguei telefonemas de escolas, joguei até com um cara do time aqui. Acabei indo para Barry no segundo ano (de faculdade). No segundo ano de Tennessee, eu poderia ser draftado. Fui escolhido pelos Red Sox, mas muita gente me disse que seria melhor ser escolhido no próximo ano e ter melhores chances.

Terra - E essa história de que você foi descoberto no supermercado quando tinha dez anos?
Yan -
Foi quando eu tinha 6 anos, na verdade. Meu pai conversou com o técnico em Mogi (das Cruzes). Em Mogi, tinha bastante técnico cubano. Meu pai estava fazendo compras e encontrou esse cara. Ele disse: "você tem filho, ele tem porte, leva ele para jogar". Começou aí.

Terra - Você comentou antes sobre o sonho de chegar até a MLB. E como foi quando você soube que tinha conseguido?
Yan -
(risos) Foi uma coisa muito louca, sabe? Sempre tem isso de pensar como vai ser aquele dia. Você pode sonhar mil vezes, mas quando o momento vem mesmo, o sentimento é muito louco. Foi muita choradeira de felicidade. Minha mulher estava aqui comigo. Eu estava em Las Vegas com ela. Teve a ligação do meu pai, da minha mãe. Foi muita choradeira, escutei que eles estavam muito felizes por mim. Comecei a me dar conta. O pensamento de ser o primeiro brasileiro (na MLB) estava na minha cabeça, mas quando eu entrei em campo, foi aquela coisa louca.

Terra - E nestes 12 anos que você está nos Estados Unidos, tem conseguido vir ao Brasil? Tem contato com o pessoal aqui?
Yan -
Foi muito difícil visitar o Brasil, mas fui duas vezes desde que vim para cá. Quero muito ir lá, porque no tempo em que eu estava na escola, eu não conseguia. Hoje de manhã, eu estava falando com três, quatro caras com quem eu joguei no Brasil. Eu tento manter bastante contato com o pessoal no Brasil.

Terra - Desse pessoal que você jogou no Brasil, tem alguém que você lembra que teria condições de estar na MLB?
Yan -
Se eles tivessem a chance de tentar mudar, se mostrar para um olheiro, o Brasil tem muita chance, mais do que só eu ainda. Eu só conheço dois caras aqui, entrei em contato com dois caras aqui, o Paulo Orlando (do Kansas City Royals, que joga na penúltima liga antes da MLB, a Double-A) e o André Rienzo (que defende o Chicago White Sox na Single-A). Nunca conheci eles pessoalmente, mas troco mensagens no Facebook.

Terra - Nesse tempo que você está aí, já cruzou com algum ídolo seu? Quem são os caras que te inspiravam?
Yan -
Tenho muitos ídolos. Sou um grande admirador de UFC, do Anderson Silva. Mas daqui do beisebol, são os caras que eu cresci olhando - como o Alex Rodriguez, o Derek Jeter, com quem eu estava jogando ontem. Foi uma coisa meio louca.

Terra - No final do ano, o Brasil disputa o qualifying para o World Baseball Classic de 2013. Você tem aquele pensamento de defender a Seleção Brasileira, como dizem os jogadores de futebol, ou tem prioridade pela equipe, como andou acontecendo na NBA?
Yan -
Eu, por mim, tenho entrado bastante em contato com o pessoal no Brasil. Quero muito jogar com o time do Brasil. Seria uma honra para mim.

Yan Gomes atuou nesta quinta-feira pelos Blue Jays na vitória por 4 a 1 sobre os Yankees
Yan Gomes atuou nesta quinta-feira pelos Blue Jays na vitória por 4 a 1 sobre os Yankees
Foto: Getty Images
Fonte: Terra

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