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 Autor de gol histórico avisa: "corintiano preferia Paulista a Libertadores"
15 de fevereiro de 2012 07h31 atualizado às 08h39

Ídolo corintiano relembra estreia da Libertadores de 1977

Diego Garcia
Direto de São Paulo

Gol histórico, público recorde, jejum de títulos e importância do Campeonato Paulista. Foi sobre tudo isso que falou o simpático Zé Maria a respeito do inesquecível jogo de 1977 contra o Internacional (primeiro do Corinthians na história na Copa Libertadores). No sofá de sua casa, localizada na Zona Norte de São Paulo, o ex-lateral direito se esparramou, vestiu uma camisa corintiana de 2005 - "não tenho mais nenhuma das antigas, dei todas" -, reviu um vídeo de seu gol histórico, falou sobre a "sina" corintiana na Libertadores, disse que a "maldição" começou no gol de Vacaria e narrou passo a passo daquela tarde no Morumbi.

» De curiosidades a destaques, saiba tudo da Libertadores 2012

Quase 100 mil pessoas estiveram no estádio para assistir ao Corinthians entrar em campo com: Jairo; Zé Maria, Moisés, Zé Eduardo e Vladimir; Givanildo e Basílio; Palhinha, Vaguinho, Geraldão e Edu. Era a base do time vice-campeão brasileiro no ano anterior, derrotado justamente pelo Internacional. O time paulista enfrentava, na época, o maior jejum de títulos de sua história, além do poderoso rival gaúcho, comandado por Falcão e companhia.

"Foi um negócio estrondoso, a expectativa que se abriu no torcedor foi algo muito grande. Entramos no embalo, e achávamos que conseguiríamos pelo menos passar a primeira fase. E tínhamos a disputa interna com o Internacional, o grande time da época. Como vínhamos daquele resultado de 76 sabíamos que poderíamos ter uma participação melhor ao longo do ano seguinte", definiu Zé.

Mesmo na fila, o time alvinegro era o grande campeão paulista, com 15 títulos (o Santos tinha 13, contra 10 de Palmeiras e São Paulo), e a competição regional era o grande desejo dos clubes. Mais até que os torneios nacionais, pois as disputas internas eram mais valorizadas, e os Estaduais maiores. Para se ter uma ideia, o Corinthians triunfou em 77 após atuar em 48 partidas - em 2012, o máximo são 23 jogos.

"Participar da Libertadores era um sonho, mas não era a menina dos olhos. A menina dos olhos era o Paulista, e o próprio torcedor queria o Paulista e o preferia", explicou Zé Maria. "Mas não tinha a obrigação de priorizar o Campeonato Paulista. Queríamos ganhar a Libertadores também, era a primeira do clube e queríamos desempenhar nosso papel. O Santos já tinha ganhado, o Cruzeiro também. E o Corinthians não era um time de fazer jogos internacionais, isso era muito difícil".

Na raça, sai o primeiro gol corintiano na história da Libertadores

Embalado pelo público gigantesco, o Corinthians partiu para cima do rival. Vivia-se nos anos 70 o auge do "corintianismo": para se ter uma ideia, apenas nos anos de 76 e 77 o time teve 10 de seus 40 maiores públicos, e o duelo contra o Internacional é o único desta lista que representa um jogo de Libertadores. Dessa forma, a equipe acuou o adversário com um desejo especial de vingança pela derrota na final do Brasileiro no ano anterior. E não demorou para sair o gol: aos 16min da etapa inicial.

"Eu dividi com o Caçapava, derrubei, dividi de novo, ganhei, quase caí, corri, tabelei com o Palhinha, entrei na bola com o Manga, ele quis dar um tapinha, quase que perdi, mas fiz o gol", narrou Zé Maria, que atravessou com a bola desde seu campo de defesa até chegar à meta colorada. "Acho que foi o primeiro gol do Corinthians na história da Libertadores", pensou, antes de sorrir ao descobrir que, de fato, foi.

"Fizemos um gol logo no começo, e o Corinthians jogou bem, era um jogo muito difícil, mas esperávamos o resultado, sonhávamos com isso. Foi um jogo bem disputado, lembrou a final de 76, mas tínhamos o apoio da torcida, o time entrou diferente, sabíamos que buscaríamos o resultado e esse seria um jogo-chave na nossa caminhada", contou Zé, aos poucos relembrando de cada detalhe da partida.

O jogo parecia até uma reedição da final de 76. Com Manga; Cláudio Duarte, Marião, Hermínio e Vacaria; Caçapava, Falcão, Valdomiro e Batista; Dadá Maravilha e Pedrinho, o Inter tinha um time mais técnico em campo, mas encarava a raça e disposição corintiana, orquestrada pela massa alvinegra nas arquibancadas. Dessa forma, o Corinthians levou a vantagem no placar até o final do primeiro tempo, indo com o triunfo parcial aos vestiários.

"O grande resultado nosso seria contra o Internacional. Era começo do ano, vínhamos da euforia de 76, da invasão do Maracanã. Perdemos em 76 contra o Inter, e a Libertadores vinha como esperança, sonho. Nessa Libertadores achávamos que nosso grande resultado tinha que ser contra o Internacional. Ainda tínhamos o Cuenca depois, mas sabíamos, tínhamos certeza que seria contra o Internacional", definiu Zé Maria sobre o clima no intervalo. "Estávamos animados". Mal sabia ele que duraria pouco...

» CONTINUAÇÃO: Primeiro algoz corintiano na Libertadores relembra "gol maldito"

Terra
  1. Gol histórico, público recorde e "gol maldito". Foi sobre tudo isso que falou o simpático Zé Maria, em entrevista exclusiva ao Terra, a respeito da estreia do Corinthians na história da Copa Libertadores, em inesquecível jogo contra o Internacional, no dia 3 de abril de 1977. Na ocasião, o ídolo alvinegro marcou o primeiro tento corintiano na competição em todos os tempos, mas não conseguiu evitar o fatídico fracasso. Para ele, nascia ali uma "sina" que já dura 35 anos

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  2. No sofá de sua casa, localizada na Zona Norte de São Paulo, o ex-lateral direito se esparramou, vestiu uma camisa corintiana de 2005 - "não tenho mais nenhuma das antigas, dei todas" -, reviu um vídeo de seu gol histórico, falou sobre a "sina" corintiana na Libertadores, disse que a "maldição" começou no gol de Vacaria, aos 12min do segundo tempo, e narrou passo a passo de como foi aquela tarde no Morumbi

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  3. Quase 100 mil pessoas estiveram no estádio para assistir o Corinthians entrar em campo com: Jairo; Zé Maria, Moisés, Zé Eduardo e Vladimir; Givanildo e Basílio; Palhinha, Vaguinho, Geraldão e Edu. Era a base do time vice-campeão brasileiro no ano anterior, derrotado justamente pelo Internacional. O time paulista enfrentava, na época, o maior jejum de títulos de sua história, além do poderoso rival gaúcho, comandado por Falcão e companhia

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  4. Mesmo na fila, o time alvinegro era o grande campeão paulista, com 15 títulos (o Santos tinha 13, contra 10 de Palmeiras e São Paulo), e a competição regional era o grande desejo dos clubes, mais até que os torneios nacionais, pois as disputas internas eram mais valorizadas, e os Estaduais maiores. Para se ter uma ideia, o Corinthians foi campeão em 77 após atuar em 48 partidas - em 2012, o máximo são 23 jogos

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  5. Era 3 de abril de 1977 em São Paulo, e um céu nublado preenchia o cenário pitoresco daquela tarde pacata. Parecia apenas mais um domingo qualquer na capital do Estado... Mas só parecia. Naquele dia, 94.599 torcedores tomaram o bairro do Morumbi de preto e branco com bandeiras, faixas e rojões, e se dirigiram ao Estádio Cícero Pompeu de Toledo com um único objetivo: ver a estreia do Corinthians na Copa Libertadores da América

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  6. "Começou aí essa sina", lamenta o ex-lateral direito Zé Maria, um dos maiores ídolos do clube do Parque São Jorge. O adversário era o Internacional de Porto Alegre e a partida terminou com empate por 1 a 1, com "gol maldito" do ex- colorado Vacaria

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  7. Naquele fatídico final de semana de 77 o Corinthians fazia sua primeira partida naquela que seria sua principal "pedra no sapato". Contra o poderoso Inter, então atual campeão brasileiro com vitória contra o próprio rival paulista, a missão do time de Zé Maria era vencer e embalar no Grupo 3 rumo à quebra do tabu de títulos, que já durava 22 anos e só terminaria em um chorado troféu paulista diante da Ponte Preta

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  8. "Se não passa a primeira fase, fica a decepção no torcedor. O resultado nesse jogo daria certo desânimo na equipe. Se ganha do Internacional a história seria outra. Até no Brasileiro, perdemos e não ganhamos mais nada. Só nadávamos e ganhávamos Paulistas. Só fomos ganhar Brasileiro nos anos 90", continuou o "Super Zé", autor do tento alvinegro no jogo e, consequentemente, do primeiro gol do Corinthians na Libertadores

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  9. "Participar da Libertadores era um sonho, mas não era a menina dos olhos. A menina dos olhos era o Paulista, e o próprio torcedor queria o Paulista e o preferia", explicou Zé Maria. "Mas não tinha a obrigação de priorizar o Campeonato Paulista. Queríamos ganhar a Libertadores também, era a primeira do clube e queríamos desempenhar nosso papel. O Santos já tinha ganhado, o Cruzeiro também. E o Corinthians não era um time de fazer jogos internacionais, isso era muito difícil"

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  10. "Foi um negócio estrondoso, a expectativa que se abriu no torcedor foi algo muito grande. Entramos no embalo, e achávamos que conseguiríamos pelo menos passar a primeira fase. E tínhamos a disputa interna com o Internacional, o grande time da época. Como vínhamos daquele resultado de 76 sabíamos que poderíamos ter uma participação melhor ao longo do ano seguinte", definiu Zé sobre a estreia

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  11. Embalado pelo público estrondoso, o Corinthians partiu para cima do rival. Vivia-se no ano 70 o auge do "corintianismo": para se ter uma ideia, apenas nos anos de 76 e 77 o time teve 10 de seus 40 maiores públicos, e o duelo contra o Internacional é o único desta lista que representa um jogo de Libertadores. Dessa forma, a equipe acuou o adversário com um desejo especial de vingança pela derrota no Brasileiro. E Não demorou para sair o gol: aos 16min da etapa inicial

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  12. "Eu dividi com o Caçapava, derrubei, dividi de novo, ganhei, quase caí, corri, tabelei com o Palhinha, entrei na bola com o Manga, ele quis dar um tapinha, quase que perdi, mas fiz o gol", narrou Zé Maria, que atravessou com a bola desde seu campo de defesa até chegar à meta colorada. "Acho que foi o primeiro gol do Corinthians na história da Libertadores", pensou, antes de sorrir ao descobrir que, de fato, foi

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  13. "Fizemos um gol logo no começo, e o Corinthians jogou bem, era um jogo dificílimo, mas esperávamos o resultado, sonhávamos e tomamos o gol no final do jogo. Foi um jogo bem disputado, lembrou a final de 76, mas tínhamos o apoio da torcida, o time entrou diferente, sabíamos que buscaríamos o resultado e esse seria um jogo-chave na nossa caminhada", contou Zé, aos poucos relembrando de cada detalhe da partida

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  14. O jogo parecia até uma reedição da final de 76. Com Manga; Cláudio Duarte, Marião, Hermínio e Vacaria; Caçapava, Falcão, Valdomiro e Batista; Dadá Maravilha e Pedrinho, o Inter tinha um time mais técnico em campo, mas encarava a raça e disposição corintiana, orquestrada pela massa alvinegra nas arquibancadas. Dessa forma, o Corinthians levou a vantagem no placar até o final do primeiro tempo, indo com a vantagem aos vestiários

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  15. "O grande resultado nosso seria contra o Internacional. Era começo do ano, vínhamos da euforia de 76, da invasão do Maracanã. Perdemos em 76 contra o Inter, e a Libertadores vinha como esperança, sonho. Nessa Libertadores achávamos que nosso grande resultado tinha que ser contra o Internacional. Ainda tínhamos o Cuenca depois, mas sabíamos, tínhamos certeza que seria contra o Internacional", definiu Zé Maria sobre o clima no intervalo. "Estávamos animados".... Por pouco tempo

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  16. Por pouco tempo, pois estava em campo o lateral esquerdo Vacaria, o último em pé da esquerda para direita, ao lado de Falcão. O ex-jogador foi o primeiro algoz do Corinthians na história da Copa Libertadores, e também conversou com o Terra sobre o jogo, mas por telefone - ele relembrou histórias do fatídico confronto

    Foto: Gazeta Press

  17. "Era uma bola parada para o Internacional. Acho que um cruzamento, um escanteio. Não, um cruzamento na área mesmo. Aí a defesa do Corinthians aliviou, mas a bola veio parar comigo. O Vaguinho também veio, dividiu, aí eu pensei: 'já que estou aqui não vou perder a viagem'. Foi uma porrada. Pegou no ângulo... Sensacional". Foi assim, simples, que Vacaria lembrou do gol que decretou empate do Inter no Pacaembu. 1 a 1. Nascia aí uma "maldição" do Corinthians na Libertadores

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  18. "Começou aí essa sina, nesse gol. O time se perdeu até certo ponto, queríamos o gol a qualquer custo. Era ganhar ou ganhar... O empate seria uma derrota, até porque teríamos três jogos fora de casa depois disso, um deles contra o próprio Inter. Na época, era quase impossível vencer os gaúchos no Sul", continuou Zé. Coincidentemente, foi dos pés do próprio corintiano que saiu a "assistência" para o tento colorado

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  19. "O Edu correu pela direita, cruzou na área para o Dario, mas o Jairo saiu de soco, tirou, aí eu dei um carrinho, cortei e afastei a bola dali. Então eu vi ela ir parar nos pés do Vaguinho, mas o Vacaria chegou antes, dividiu e ganhou o lance. Aí ele cortou para a esquerda e bateu de canhota. Um petardo na gaveta", contou o corintiano, com lamentação. Para ele, um "gol maldito", responsável por uma obsessão que já dura 35 anos: "pode ter definido toda a nossa história até hoje"

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  20. "O Morumbi estava lotado e todos falavam que ali era o 'ninho' do Corinthians. Eles ganhavam de todo mundo ali e tinha uma razão nisso. Era um estádio grande, e lembro que nossa entrada no campo foi uma coisa emocionante. Uma vaia desgraçada saiu das arquibancadas. E, no meu gol, ela se repetiu. Sabíamos que estávamos fazendo algo grande naquele momento", contou Vacaria


    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  21. Depois do gol, o Corinthians se perdeu em campo. Ainda eram 12 minutos do segundo tempo, mas o experiente time do Inter passou a administrar o resultado e, como em 76, calou a massa alvinegra. Saiu de São Paulo com um empate precioso, crucial para a classificação em uma chave que contava com dois inexpressivos clubes: El Nacional e Deportivo Cuenca, ambos do Equador. "Os dez minutos finais foram de desespero. Se tivéssemos ganho, a história seria outra", diz Zé

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  22. O Corinthians perdeu, fora de casa, para o El Nacional (2 a 1), Deportivo Cuenca (2 a 1), Internacional (1 a 0), e ganhou, já eliminado, dos dois times do Equador (3 a 0 e 4 a 0, respectivamente). "O que nos surpreendeu foi a tal altitude para alguns jogadores. Tínhamos feito jogos fora, mas a tensão maior foi na altitude. Foi uma experiência amarga", relatou Zé Maria

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  23. Nesta quarta-feira, após quase 35 anos do embate histórico contra o Inter, o Corinthians volta a estrear em uma Copa Libertadores. Mais forte, tanto econômico quanto tecnicamente, o clube alvinegro encara o Deportivo Táchira, na Venezuela, às 22h (de Brasília). Será mais uma noite de sofrimento, e o início de uma nova chance alvinegra em sua maior obsessão em 102 anos de história. "Hoje vejo o Corinthians como uma força real", acredita o ex-lateral

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

  24. Será, também, mais uma oportunidade de o torcedor descobrir se existe a chamada "maldição" do clube na Libertadores. Se, de fato, aquele gol colorado foi o "começo de uma sina", conforme profetizou Zé, e também Vacaria, o primeiro ¿algoz¿ corintiano. "De repente esse tabu pegou mesmo pelo gol e o Corinthians não consegue ganhar mais de jeito nenhum, não é? Pode ser sido um pouco de maldição...", pensou. Veremos, Vacaria... Veremos.

    Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

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