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Criticado, hóquei feminino enfrenta dores do crescimento

19 fev 2010
10h36

Charles McGrath

Em mais uma partida sem muita disputa no hóquei feminino, o Canadá derrotou a Suécia por 13 a 1 na quarta-feira. Quando o placar estava em 11 a 0, a televisão canadense suspendeu a transmissão da partida e optou por mostrar outro evento olímpico. As canadenses arremessaram 52 vezes a gol, ante apenas 13 tentativas suecas, e o placar final parecia mais um resultado de balanço financeiro que um resultado esportivo.

A não ser que você fosse uma das jogadoras canadenses que estavam deslizando pela arena, foi um jogo doloroso de assistir. Ao contrário das equipes de hóquei feminino da Eslováquia, China e Rússia, que vieram a Vancouver com o propósito declarado de ganhar experiência, a da Suécia supostamente veio para jogar sério. Em 2006, as suecas decidiram o ouro contra o Canadá, e perderam, depois de superar os Estados Unidos por 3 a 2 em uma prorrogação, na semifinal.

As jogadoras americanas saíram do rinque inconformadas, depois daquela partida, mas recentemente algumas das participantes daquela seleção que estão de volta na Olimpíada de Vancouver reconheceram que a vitória sueca havia sido boa para o hóquei feminino em geral, por criar mais competição no primeiro escalão do esporte.

Vitórias por vantagens esmagadoras se tornaram a norma hoje em dia nas disputas internacionais de hóquei feminino. Os observadores continuam espantados diante da vitória de 18 a 0 que o Canadá obteve sobre a Eslováquia no domingo e por isso esquecem que, para se classificar à Olimpíada, a Eslováquia derrotou a Bulgária por 82 a 0.

Alguns colunistas vêm argumentando que os dirigentes do hóquei deveriam instituir alguma forma de regra de misericórdia, que encerraria o jogo quando a desvantagem se tornasse grande demais. Outros acreditam que a melhor solução seria eliminar o hóquei feminino dos Jogos Olímpicos até que o nível de competitividade avance. Mas as partidas desequilibradas são como dores do crescimento em um esporte: quase inevitáveis quando este é jovem e está em desenvolvimento. Na versão masculina da modalidade, os dias iniciais mostravam desequilíbrio igualmente acentuado, e em 1924 a equipe canadense superou seus adversários por um placar combinado de 110 a 3.

No hóquei, o saldo de gols pode determinar que time avança em uma competição. É por isso que, para surpresa dos fãs acostumados a jogos de hóquei universitário e profissional, a seleção masculina da Suíça não trocou seu goleiro por um jogador adicional de linha no final de uma partida na qual estava perdendo por 3 a 1 diante dos Estados Unidos, na última terça-feira.

"Não estou muito contente, tenho de admitir", disse René Fasel, presidente da Federação Internacional de Hóquei. "Mas estamos apenas no começo para o hóquei feminino".

Falando sobre a competição masculina, ele declarou se recordar que "nos anos 30, a Suíça foi derrotada por 20 a 0 pelo Canadá, e em Turim uma partida entre essas equipes terminou com vitória canadense por 2 a 0. Foram precisos quase 70 anos para que as seleções masculinas se nivelassem, e o hóquei feminino está crescendo rapidamente agora".

Quando o hóquei feminino se tornou esporte olímpico, em 1998, o Canadá tinha uma imensa vantagem inicial. A primeira partida oficial entre mulheres aconteceu no final do século 19, no hóquei canadense.

Não que os homens do país sempre tenham apreciado a ideia de dividir com as mulheres seu tempo e espaço no rinque. Em uma famosa história de 1956, uma menina chamada Abby Hoffman, que cortou o cabelo bem curto e usava o nome de Ab para poder jogar hóquei com os meninos, levou seu caso à corte suprema da província de Ontário, em um esforço para sustentar seu direito de atuar em um time masculino. Ela ao final não teve sucesso, mas se tornou uma heroína nacional e o troféu que a equipe vencedora do campeonato feminino de hóquei sobre o gelo do país hoje leva seu nome.

As veteranas da equipe americana de hóquei olímpico relembraram todas, na última semana, que quando eram meninas haviam se desenvolvido jogando com e contra meninos, mas acrescentaram que suas colegas mais jovens haviam saído em vantagem por terem participado de programas somente femininos. O hóquei das mulheres nos Estados Unidos, como quase todos os demais esportes femininos do país, recebeu forte estímulo com a lei da igualdade sexual de 1972, que na prática forçou muitas das escolas e universidades que contavam com times de hóquei masculino a iniciar programas semelhantes voltados às mulheres.

As escolas e universidades continuam, ainda hoje interessadas em jogadoras de talento, e se dispõem a lhes oferecer ajuda financeira generosa. Os benefícios da generosidade americana para com os times de hóquei chegaram também às seleções concorrentes na Olimpíada. Quatro das integrantes do elenco canadense jogam hóquei universitário nos Estados Unidos, e cinco das jogadoras da equipe finlandesa também disputam torneios da NCAA, a organização norte-americana de atletismo universitário.

Zuzana Tomcikova, goleira da seleção da Eslováquia, é atleta da Universidade Estadual Bemisdji, em Minnesota. Ela disse, depois da partida com o Canadá, que existem menos de 300 jogadoras praticando hóquei em seu país, como resultado de um programa iniciado dez anos atrás, e que a equipe se sentia muito orgulhosa por ter viajado a Vancouver. "Nós entramos para a grande família do hóquei a fim de aprender", disse, com a ajuda de um intérprete, o técnico eslovaco Miroslav Karafiat.

Hannu Saintula, cuja equipe, a China, sofreu derrota acachapante diante dos Estados Unidos, fez mais ou menos a mesma declaração. A única maneira de melhorar é disputar partidas contra concorrentes difíceis, ele explicou, e se partidas de placar elástico são a consequência, o preço vale a pena.

Não é surpresa que os países da América do Norte, da Escandinávia e a Finlândia estejam no topo do ranking do hóquei feminino. Eles todos têm históricos relativamente longos de apoio aos esportes femininos em geral e estão possivelmente entre os mais progressivos países do mundo no que tange a ignorar os estereótipos sexuais que defendem que mulheres são frágeis demais para esportes brutos. Eles também contam com mais dinheiro para investir no esporte feminino.

Mas o motivo para que a Rússia, um país de grande tradição no hóquei e um histórico de apoio às seleções femininas de basquete e futebol, tenha um programa de hóquei feminino de tão pouco sucesso e tão desprovido de recursos continua a ser um mistério.

Linuo Wang, a capitã da seleção chinesa de hóquei feminino, também cresceu jogando com meninos, nos lagos gelados de sua província natal de Harbin. Ela disse que o que prejudica as mulheres do hóquei chinês são os homens da China. "Nossa equipe masculina é muito, muito ruim", ela disse, com um aceno negativo de cabeça. "Quando eles melhorarem, o hóquei ganhará popularidade na China".

Entenda o torneio de hóquei no gelo dos Jogos de Inverno

Esporte mais popular do Canadá, país-sede da Olimpíada, o hóquei no gelo é disputado em três tempos de 20 minutos, com o relógio parando a cada interrupção da partida e 15 minutos de intervalo após o primeiro e o segundo período. As equipes se enfrentam em times de seis jogadores e tentam acertar o gol adversário com uma espécie de disco (puck).

Em Vancouver, os 12 países participantes foram divididos em três chaves de quatro. O vencedor de cada grupo avança à fase final, disputada em mata-mata. Em caso de empate após os três tempos, os times se enfrentam em prorrogação com "gol de ouro". Nova igualdade e a disputa vai para os pênaltis.

Jogos Olímpicos de Inverno no Terra

O Terra transmite ao vivo a competição em 15 canais simultâneos de vídeo. Além disso, os usuários têm a possibilidade de assistir novamente a todo o conteúdo a qualquer momento. Todo o acesso é gratuito.

Uma equipe de 60 profissionais está encarregada de fazer a cobertura direto de Vancouver e dos estúdios do Terra, em São Paulo, no Brasil, com as últimas notícias, fotos, curiosidades, resultados e bastidores da competição.

A equipe conta com a participação do repórter especialista em esportes radicais Formiga - com 20 anos de experiência em modalidades de neve -, e o pentacampeão mundial de skate Sandro Dias, que comenta a competição em seu blog no Terra.

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Tradução: Paulo Migliacci

Hóquei no Gelo (F) - USA 6 x 0 FIN
The New York Times
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