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Cielo aponta doping como inexplicável e fala em "dor eterna"

10 out 2011
10h13
atualizado às 12h07
Marcelo do Ó
Vagner Magalhães
Direto de San Luis Potosí (México)

Pouco depois das 10h da manhã de domingo e após um café da manhã reforçado, Cesar Cielo inicia a sua preparação para mais um dia de treinamento na altitude da cidade mexicana de San Luis Potosí, para a disputa dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, a partir do dia 14. Antes, se aproxima da beira da piscina, para um bate-papo exclusivo com o Terra. Ao redor, muitos usuários do Clube Desportivo La Loma, percebendo a presença do campeão olímpico dos 50 m livre, cercam o local. Aguardam para um cumprimento, uma foto ao lado dele. Bem-humorado, Cielo lembra do tempo em que passava mais de seis meses sem atender nenhum jornalista. "Mudou muita coisa depois do título olímpico". Pronto para a conversa, diz que espera servir de exemplo para alguma criança, ou para alguém que nade como ele.

De cara, ele relembra o motivo que o fez iniciar no esporte: "comecei a natação porque a gente ia para a praia e eu não sabia nadar, aí meu pai não queria me deixar sozinho no mar". Repassa cada fase da vida e da carreira até se tornar um monstro da natação mundial: um ouro e um bronze nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008; três ouros e uma prata no Pan-Americano do Rio 2007; seis ouros, uma prata e dois bronzes em Mundiais. O que aprendeu nos Estados Unidos? "A melhorar a parte mental sobre o esporte e com relação ao público. Não nadamos porque está calor e gostamos, nadamos porque aqui é o nosso escritório, apesar de ter cadeiras e guarda sol do lado de fora".

Hoje recordista mundial dos 50 e 100 m livre, Cielo afirma estar pronto para defender o campeonato olímpico dos 50 m em Londres, no ano que vem. Depois de viver um período que ele define como de "anestesia", provocado pelo exame positivo de doping anunciado em julho passado - ele foi absolvido três semanas depois pela Corte Arbitral do Esporte -, o nadador afirma ter passado por uma situação inexplicável, que em um primeiro momento parecia uma "perseguição" a ele. "Meus pais, a gente não imaginava porque e como isso tinha acontecido. No resto da minha vida vai doer".

Fora das piscinas, fala sobre seu gosto musical, em especial o prazer em ouvir Spyzer, U2, Jack Johnson e Aerosmith. Revela um apelido que os colegas usam quando querem sacaneá-lo: "Nariz". E que gosta de fazer cara de mau. "Eu tenho a imagem de sério, de bravo, mas é bom. É bom os adversários acharem que sou bravo, do mal, mas é só brincadeira, temos objetivo em comum que é ganhar a competição".

Leia a íntegra da entrevista:

Terra - Mais um dia de treino que vem aí?
Cesar Cielo -
Sempre um prazer, estar abrindo meu dia a dia e expondo as coisas que eu faço e o pessoal não sabe. Então sempre que eu falo alguma coisa tem alguma criança, um cara que nada aí e consegue tirar alguma coisinha.

Terra - Como começou na natação?
Cielo -
Meus pais disseram para mim que eu teria que praticar um esporte, por tudo que isso envolve. Disciplina até uma nova roda de amigos, então fui para o judô e não deu certo, apanhei bastante. Aí comecei a natação porque a gente ia para a praia e eu não sabia nadar, aí meu pai não queria me deixar sozinho no mar. Aí foi dando seguimento, quando vi estava competindo em festivais em Santa Bárbara, em Campinas, quando vi estava no Paulista, Brasileiro, mas começou para aprender a nadar, era o objetivo principal.

Terra - E os Estados Unidos, você foi para treinar ou estudar exatamente?
Cielo -
Minha mãe virou para mim e falou: "você pode continuar nadando em alto nível, mas tem que fazer uma faculdade". E o único meio que achei de fazer isso foi indo para os Estados Unidos. A gente estava pensando em fazer faculdade no Brasil, mas a experiência de morar fora, treinar em uma faculdade americana, aí fiz as provas com 18 anos e já fui para os Estados Unidos no segundo semestre de 2005 e voltei só no segundo de 2010.

Terra - Tem ideia de quanto seu pai investiu em você até conquistar a primeira medalha de ouro?
Cielo -
A parte financeira não é a mais pesada, apesar de ter sido pesada. Participei de clínicas que custavam de US$ 10 a 15 mil, morei em São Paulo com meu pai bancando desde aluguel até colégio, foi uma parte financeira pesada, mas a psicológica é a mais pesada. Pai de atleta acorda às 5h com ele para treino, competição, colégio às 7h30, então mais do que a parte financeira, o dinheiro a gente trabalha e consegue, mas aguentar atleta todos esses anos não deve ter sido fácil.

Terra - Quais foram os momentos mais complicados desse período inicial da sua carreira?
Cielo -
Nunca passamos por necessidade e meus pais supriram até mais do que eu precisava. Se precisasse ser bancado pelo meu pai por mais um tempo com certeza ele faria. Queríamos um resultado importante, uma medalha grande, e ainda bem que veio na Olimpíada, foi sempre comemorando e conquistando cada medalha. Nosso sonho sempre foi comum da família. Comemoramos muito um Troféu Brasil, o Sul-Americano, e por etapas comemoramos cada conquista para valorizar a medalha olímpica porque foi muito suor e dedicação. Não existe planejamento de menos de 10 anos para isso. Tudo foi colocado em prática e deu certo.

Terra - O que você viu de diferente nos Estados Unidos em treinamento que aqui no Brasil não existia ou já existe?
Cielo -
A estrutura dos caras é melhor, não chegamos nem perto de ter uma piscina aqui como temos lá. Mas com relação à capacidade técnica nós temos mais do que lá fora. Filmagem embaixo d'água, essas coisas. Lá eles acreditam muito no olho, mas a estrutura e o profissionalismo são as coisas diferentes. Os caras não chegam atrasados, lá são amadores até os 21 anos e mesmo assim tem profissionalismo como se ganhasse dinheiro disso para viver. O Brasil está caminhando bem devagar e podemos melhorar o quesito profissionalismo, que é o mais simples. Melhorar a parte mental sobre o esporte e com relação ao público, não nadamos porque está calor e gostamos, nadamos porque aqui é o nosso escritório, apesar de ter cadeiras e guarda sol do lado de fora.

Terra - E quando seu pai teve que pagar o ingresso para te ver ganhar a medalha? Acha que é preciso esperar quebrar um recorde mundial para você ter apoio no Brasil?
Cielo -
Até um certo ponto do esporte tinha que ser sim, até o ano retrasado. Minha irmã naquela Olimpíada não conseguiu entrar, mesmo com ingresso, mas para ter uma força de voz o resultado tem que vir antes não conseguimos dar apoio bacana para o atleta chegar, depende de alguns fatores, de elementos individuais de alguns atletas. Para eles tomarem consciência e ajudarem o grupo. A natação dos resultados começou em 2007 com o Thiago Pereira, no Pan. Não é em função do esporte estar evoluindo que estamos tendo força, e sim pelos resultados.

Terra - Em termos de estrutura e grana, depois de Pequim, as coisas ficaram mais fáceis para você?
Cielo -
A parte financeira melhorou bastante, mesmo, não tem nem como comparar. A estrutura de hoje tenho facilidade de conseguir as coisas, mas tem aquela coisa de que em toda situação existirão prós e contras, hoje tenho compromissos que não tinha antes, agora eu tenho isso até com meus patrocinadores, e hoje me vejo muito mais profissional, vou em um evento e sei que faz parte da minha vida, eu tenho que fazer aquilo. A natação é o meu trabalho, mesmo quando não está afim, mas é o que eu faço. Minha mãe parou de dar aula para cuidar das minhas coisas, a natação envolveu a família inteira e vivemos isso 24 horas por dia.

Terra - Sobre o julgamento, quando você soube que deu positivo e qual foi sua reação?
Cielo -
Fomos avisados em um campeonato na França, e a reação foi de surpresa, nunca imaginamos isso aí. Até ali todo pensamento estava voltado para as medalhas em Xangai, e isso nos tirou da rota, dessa ideia. Foi um momento bem difícil, uma adversidade inexplicável. No momento parecia perseguição, meus pais, a gente não imaginava porque e como isso aconteceu e fomos atrás das coisas. Mesmo hoje ainda dói, (no) resto da minha vida vai doer, não tem como isso.

Terra - Onde você buscou apoio?
Cielo -
Continuei com a minha fé muito forte. Sempre pensei, Deus coloca as coisas no nosso caminho e os obstáculos da magnitude que você aguenta, nunca mais do que você possa suportar. E eu pensei que essa foi a pedra que eu tive que passar por cima. Se Deus colocou isso, vai ajudar a superar, e eu só saí mais forte disso tudo. Pensei em mostrar para todo mundo que não existe situação que não possa superar. Vou mostrar para todo mundo que sou forte mentalmente e vou superar isso aí, e vou ganhar mais respeito se passar por isso de todo mundo.

Terra - Muita gente falou muita coisa naquele período. O ex-goleiro do Bahia Renê foi pego na mesma substância e falou que "o cara ganhou medalha e estou aqui, um ano sem trabalhar". Muita gente falou muito. Isso te deixou mais chateado ou foi o processo em si?
Cielo -
A própria situação de ter acontecido isso, sempre tomamos muito cuidado com tudo, nunca passamos por nada parecido por sempre ter tomado muito cuidado e não fazia parte de qualquer ideia nossa. Cada situação é uma situação, tem gente que vai falar coisa a mais, mas cada coisa é uma coisa, me virei com a minha situação e o resto não é comigo, dos outros eu não vou falar.

Terra - Você sofreu algum tipo de preconceito no Mundial por isso?
Cielo -
Eu estava tão anestesiado no Mundial que para os 50 m borboleta minha ideia era deixar todo mundo quieto, vou entrar e deixar todos de boca fechada. Aí depois pensei que vou deixar o Mundial rolar, já estou aqui porque pior não vai ficar, e depois que conquistei a medalha pensei que podem dizer o que quiserem que eu vou lá e resolvo. Eu estava espiritualmente aliviado já, e não reparei nisso, meus amigos continuaram meus amigos e me deram muita força. Os amigos daqui, de fora, sempre que passavam me davam uma força, e em muitos momentos essa adversidade me mostrou que sou abençoado por meus amigos e tudo acontece por uma razão, até hoje superei com sucesso as coisas que aconteceram.

Terra - Quando você chegou aqui pensou que quer mostrar que está treinando vivo, ou está mirando outra coisa lá para a frente?
Cielo -
Isso é mais a parte mental. Achei que apesar de ter ganhado duas medalhas parecia que eu estava longe, e só quero mostrar que estou dentro da competição e de qualquer desafio que me dispor a entrar. Quero mais do que tudo sentir aquela sensação à flor da pele antes da prova. Acho que hoje mais do que nunca não existe adversidade que vá me derrubar e antes da Olimpíada entro com uma bagagem que nenhum adversário meu possui. Eles vão ter que sentir que estão um pouquinho atrás de mim na parte mental e vou fazer tudo que puder para conquistar o bi olímpico.

Terra - Na hora de folga, o que você lê, ouve, faz?
Cielo -
Música depende muito do meu momento. Gosto dos caras do Spyzer, que conheci no Altas Horas, quando estou tranquilo vou de U2, Jack Johnson, Aerosmith, e para ler gosto de livro de auto-ajuda, autobiografia de personalidades. Acho que sempre tem alguma mensagem por trás daquele livro. Acabei de terminar o do quarterback do Saints, foi um livro que gostei muito e recomendo. Tento não ver muita TV no período da temporada, longe da internet e tecnologia porque consome muito da nossa energia. O importante é estar feliz nas horas pré-competições, pensar em coisas que te fazem sorrir e dar risada. Aproveitar com o pessoal do Brasil também, é difícil a gente estar junto assim por um tempo em um clima não tão pesado. Aqui podemos fazer bastante piada e brincar bastante, que na hora que chegar em Guadalajara aí é serviço, todo mundo fecha a cara, aí é ficar com olho de tigre e mirar a competição.

Terra - Eu te vi no dia da foto oficial de óculos escuro, tirando uma onda com o Thiago Pereira. Essa é uma face do Cesar que as pessoas não estão acostumadas a ver, não é?
Cielo -
Eu tenho a imagem de sério, de bravo, mas é bom. É bom os adversários acharem que sou bravo, do mal, mas é só brincadeira, temos objetivo em comum que é ganhar a competição, passamos pelas mesmas adversidades, mesmo nervosismo, então quando nos juntamos é brincadeira quando pode, mas com alguns temos mais afinidade, como o Thiago, então acabamos fazendo uma brincadeira, tirando uma onda.

Terra - O Thiago é o Cristo do Cesão?
Cielo -
Em 2007 o Thiago apareceu muito bem, veio com resultados bacanas, sempre na final, então estamos juntos em toda Seleção. É bacana porque a pressão em nós dois é parecida e a afinidade rolou por isso aí. Sempre rola uma brincadeirinha ou outra.

Terra - Ele tem algum apelido?
Cielo -
Todo mundo deve saber, eu não vou falar porque depois ele vai falar de mim, mas o "Zoreia", o "Zora", não é fácil não, ele é uma figura, uns caras como ele descontraídos são bons para deixar o clima mais leve. Sempre que possível brincamos, eu, o Francinha, o Zoreia, junta todo mundo aí.

Terra - Você tem apelido?
Cielo -
Um de sacanagem não sei, mas o pessoal me chama de Cesão... Mas tem um sim, o pessoal me chama de Nariz. Também tem o Seu Barriga, o Guido. Não tem jeito, deixa o clima descontraído. O França nada peito, o Guido costas, desde os 15 anos viajamos para competição, então acaba saindo brincadeira mesmo.

Terra - Qual é o seu limite? Até onde pode chegar?
Cielo -
Acho que sempre que alcanço uma barreira nova abre portas para outra nova. A barreira mental que eu alcançar vai ser da motivação e a hora que eu cansar vai ser meu limite, quando pensar que não aguento mais a rotina, acordar de manhã, pular na piscina fria, aí vai ser meu limite. Sempre vai ter alguma coisa, quando melhorar os tempos, mesmo que 10 anos depois. Em relação à velocidade sempre vai ter aquele um centésimo. Evolução a gente não para nunca, sempre vai ter um detalhe que podemos melhorar.

Terra - Se pudesse escolher focaria só em 50 m, que é a que você tem melhores resultados hoje?
Cielo -
Se em cada competição pudesse nadar só uma prova seria os 50 m livre. Mas sempre gostei dos 100 m, para ser campeão mundial precisa gostar, gosto de borboleta também, mas 50 m é o que mais gosto porque é um desafio para ver qual velocidade pode atingir. As outras provas gosto da adrenalina, gosto de sentar ali e me sentir nervoso, isso me faz bem. Tem gente que gosta de pular de para quedas, a minha adrenalina é sentar ali e me desafiar, vou fazer isso até 2016. Sempre que possível vou nadar essas provas, ter elas no menu e tentar sempre melhorar, melhorar o quarto lugar que tive no Mundial, e ver se na Olimpíada consigo trazer essa medalha.

Terra - Já tem um ano que você tem seu projeto no Rio de Janeiro. Que balanço você pode fazer dele?
Cielo -
Foram vários projetos que começaram ano passado. No Flamengo a Patrícia foi muito feliz desde que começou com a natação. Acho que o projeto ganhou uma força muito grande com a minha ida e a do Nicolas e do Henrique, e é um resgate muito grande e importante para o Rio que vai sediar a Olimpíada ter um time como o Flamengo na natação. Foi muito importante esse início em 2010 para chegar em 2016 com um time forte, o Botafogo também está com um time bacana, incentivou todo o Rio. E os outros projetos, em relação a São Paulo de treinamentos, têm andado muito bem. Para 2012 já era um grupo fechado nos atletas que confiamos que vão chegar às finais, mas a partir de 2013 vamos abrir o leque para novos atletas. Estamos caminhando de tudo para ter uma equipe em 2012, estamos pensando já em 2016 em longo prazo, a natação de 2008 com duas medalhas, quem sabe não pule para três ano que vem e quatro em 2016. Estamos fazendo de tudo para virar o esporte mais forte do Brasil. Com as quatro de ouro desse ano já podemos dizer isso e a gente vem merecendo esse reconhecimento. Espero que possamos manter isso e tentar virar um país como Rússia ou Japão em 2016, que conseguem umas seis medalhas. Essa luz está clara para todos e o pessoal está começando a ver. Temos outra cara do que tínhamos em 2000 e em 2016 teremos ainda outra.

Terra - O Ronaldo já tem na empresa dele Neymar, Anderson Silva e Lucas. Se te chamar você vai?
Cielo -
Nunca pensei nisso. Tudo é questão de oportunidade e momento, se valer a pena com certeza eu faria sim, é questão de analisar. Eu e minha mãe abrimos empresa de gerenciamento de atletas, e alguns muito bacanas estão lá, Daniel Dias do paraolímpico, palestra do Gustavo Borges, do Tande, do Nicolas Santos, tem uma galera lá bacana e é muito bom trabalhar com eles, é bom sair da rotina. É tudo questão de conversar e analisar. Se fizer bem para mim não tenho que pensar só no dinheiro, a vida proporciona e analisamos cada situação de um jeito.

Terra - Ele já chegou a conversar com você?
Cielo -
Não, ainda não, se tivesse minha mãe com certeza me falaria, é mais com ela. Não chegamos a ter essa proposta.

Pan 2011 no Terra

O Terra transmitirá simultaneamente até 13 eventos, ao vivo e em HD, dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara via web, tablets e celular.
Com uma equipe com mais de 220 profissionais, a maior empresa de Internet da América Latina fará a mais completa cobertura da competição que será realizada de 14 a 30 de outubro, trazendo, direto do México, a preparação de atletas, detalhes da organização e toda a competição, com conteúdo em texto, fotos, vídeos, infográficos e muita interatividade.

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Fonte: Terra
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