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Edmílson critica "desobediência" de brasileiros em campo

7 jul 2009 - 17h38
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Nove temporadas em clubes de ponta da Europa deram muita bagagem para Edmílson, 32 anos. Natural de Taquaritinga, o dublê de zagueiro e volante, revelado pelo São Paulo, retornou ao Brasil em 2009 para ser o jogador mais experiente do jovem time montado pelo Palmeiras, com o auxílio da Traffic. Do alto de sua experiência, ele aponta problemas no futebol brasileiro.

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Em entrevista exclusiva concedida ao Terra, Edmílson critica a falta de obediência dos jogadores em atividade no Brasil e também o pouco compromisso. O ex-jogador de Lyon, Barcelona e Villarreal concorda com Ronaldo, que apontou o dedo para o regime de concentração, mas não vê a classe de atletas pronta para uma total liberdade.

Campeão da Copa do Mundo e da Liga dos Campeões, entre outros, Edmílson fala sobre os momentos vitoriosos - e também dolorosos - da carreira. "São como estações", brinca.

Confira a entrevista com Edmílson na íntegra:

Terra - Você chegou ao Palmeiras como referência no projeto ambicioso para um time jovem e vencedor, mas já perdeu o Vanderlei Luxemburgo e o Keirrison, o melhor jogador. Como fica sua situação?
Edmílson - Continua a mesma. Infelizmente acabei me machucando contra o Sport (em 15 de abril) e a equipe do Palmeras estava em ascensão dentro da competição. Nós tínhamos ganhado deles de 2 a 0 em Recife, tínhamos tudo para ganhar aqui e empatamos. Mas depois contra o Colo-Colo mostramos determinação e muita força.

Agora, meus planos continuam os mesmos. A partir do momento que deixei o Villarreal para jogar no Palmeiras, meus propósitos continuam os mesmos. Infelizmente, aconteceram algumas coisas: machuquei o braço, Vanderlei e Keirrison saíram, mas o grupo é jovem, forte, e tem toda vontade de fazer um grande Campeonato Brasileiro.

Terra - Como foram os últimos dias com a saída do Keirrison e do Luxemburgo?
Edmílson - A saída deles nos pegou de surpresa. Não só os jogadores, mas o próprio Vanderlei. Só que a vida continua. Ele veio, se despediu da gente, e estamos na expectativa do novo treinador. Enquanto não chega, vamos continuar fazendo o trabalho com o Jorginho. Ele tem nos ajudado bastante nesse tempo.

Esse grupo do Palmeiras é muito forte, talvez não tenha demonstrado muito dentro de campo, mas é muito forte na hora que precisa mesmo e reverte situações.

Terra - Se você pudesse, indicaria qual perfil de treinador para a direção?
Edmílson - Acho que um treinador hoje no Palmeiras não encontraria falta de motivação ou até mesmo problemas internos, de relacionamento de jogadores. Estou até surpreso, porque se fala muito que os jogadores no Brasil não têm compromisso, gostam de farra, mas no Palmeiras a molecada trabalha muito, procura honrar os compromissos.

Se o treinador que vier souber levar o vestiário como o Vanderlei vinha levando, e manter o padrão de jogo do nosso time, com certeza vamos chegar entre os primeiros.

Terra - Você sentiu alguma pressão sobre o Vanderlei, pelo fato de o Muricy estar desempregado?
Edmílson - Foi uma decisão da diretoria em dispensar o Vanderlei. Eles mesmo disseram que não foi por causa de resultados, mas coisa deles com o Vanderlei. Nós também ficamos impressionados, porque as notícias que tínhamos era de que o planejamento iria continuar.

Terra - Mas o que faltou a esse time na Libertadores?
Edmílson - Acho que foi o jogo aqui contra o Nacional. O time deles veio jogar renunciando qualquer jogo ofensivo, ficou todo atrás, e nós fizemos um gol aos 10min do segundo tempo, tivemos algumas chances, e logo depois eles acharam um gol. Faltou experiência, vontade? Acho que não.

Nós tínhamos 1 a 0 e não tentamos forçar mais o segundo gol, e eles acharam um gol. Acabamos eliminados por lá e eles renunciaram o jogo ofensivo, jogaram no resultado.

O grupo do Palmeiras está de parabéns e foi a primeira vez que muitos participavam de um jogo tão importante assim. O planejamento da direção é manter esses jogadores, e com a experiência e juventude que eles têm, podem chegar longe.

Agora como profissional, temos que esperar quem vier. Se for o Muricy, o Dorival Júnior, o Arce, o Silas, ou quem for, o jogador tem que estar preparado e tentar mostrar em campo tudo que sabemos.

Terra - O que pôde notar de mudanças no futebol brasileiro depois de nove anos jogando na Europa?
Edmílson - Melhorou alguma coisa, mas ainda precisa melhorar muito. Nós brasileiros, e me incluo, e ainda a mídia, diretores e torcedores, temos que ser humildes em saber que é preciso melhorar em alguns setores.

Acho que tem muitos jogadores num elenco profissional. Vem um treinador, traz os jogadores dele, e depois vai embora e fica todo mundo. Isso ainda continua desde a minha época, não mudou muito. Na Europa, você vê que 20 jogadores são o máximo de um elenco.

Terra - Recentemente, o Ronaldo criticou o excesso de concentração no futebol brasileiro. Você concorda com ele?
Edmílson - Acho que toda opinião é válida para melhorar. O Ronaldo expressou a opinião dele e sou favorável. Não acho necessário ficar três dias num hotel fechado, só dormindo e comendo, sem fazer nada. Você pode estar no Centro de Treinamento, fazendo um trabalho, embora dependa do que o clube oferece.

Tem que partir da consciência do jogador. Não adianta liberar e o cara diz que vai dormir em casa, mas vai para a farra. O jogador brasileiro não está preparado para ter essa liberdade.

No Barcelona, a gente se apresentava no dia do jogo, almoçava, dormia de tarde, ia pro jogo e voltava para casa. É uma cultura que tem que ser mudada. No momento em que passarmos essa confiança para a diretoria e a comissão técnica, não vai ter mais concentração e o clube vai ter menos gastos (risos), porque são 25 jogadores em um hotel.

Terra - Também não vai de o clube analisar o perfil do jogador que vai contratar?
Edmílson - Sim, acho que isso parte desde a base. O Barcelona pesquisa tudo de um jogador para tê-lo na base. Não é só ser bom de bola, acho que esse é um trabalho que o clube tem que fazer.

Não adianta nada a gente contratar um jogador que está indo bem no Rio Branco, no União São João, e o cara não está estruturado mentalmente para jogar no Palmeiras, para ter pressão, assédio de fãs aonde vai e as coisas fáceis.

Essa preparação, na minha opinião, é do representante que está do lado dele. Tem que dar esse respaldo para ficar com a cabeça 100% em jogar bola.

Terra - O que o clube pode fazer nesse caso?
Edmílson - O clube tem que se organizar, ver porque o cara não está rendendo. Deve estar passando algum problema, não se alimentando direito, dormindo tarde ou pensando em outra coisa que não é futebol.

Terra - E você, o que mudou na Europa?
Edmílson - Acho que todo jogador que vai para fora do Brasil, muda. Aqui ele não é tão cobrado como é lá fora. Se ele vai lá e não faz o que o treinador quer, vai pro banco. Lá é apenas mais um jogador, exceção feita aos grandes craques.

Aqui o treinador manda marcar no primeiro pau, o jogador não marca, o time leva o gol e ninguém fala nada. Tem que marcar o meio-campo, o cara não marca. Ou fazer a cobertura, não faz. Aí se vai lá fora, faz tudo isso. Qual a diferença entre fazer aqui e não fazer lá? É falta de educação profissional e os clubes têm que estruturar os jogadores.

A grande chave para um jogador ir lá fora e vencer, é ser educado no Brasil, porque quando chega lá, com a qualidade que tem, vai arrebentar.

Terra - O que você prefere: zagueiro ou volante?
Edmílson - Hoje prefiro jogar de zagueiro, com uma possibilidade de saída de bola boa. Até porque são jogos de quarta e domingo no Brasil. Amanhã ou depois, nada impede de jogar também no meio-campo.

Terra - Qual o momento mais especial da sua carreira?
Edmílson - O ano de 2002 foi brilhante. Fui campeão francês, convocado para a Copa, joguei a Copa e fui campeão e logo depois nasceu minha primeira filha. Foi um ano completo.

A vida do ser humano são estações (risos). Hoje você vive o verão e tudo está dando certo. Depois vem o outono e as coisas pioram. Temos que saber viver no momento de bonança e nas dificuldades. Sempre aprendi que quando você passa uma etapa difícil, sempre vem uma coisa boa. O mais importante é que sempre me saí muito forte nos momentos de frustração.

Terra - E o mais difícil?
Edmílson - Logo que cheguei no Barcelona. Joguei cinco jogos, estava fisicamente muito bem, em uma condição técnica excelente, com 28 anos, experiência, campeão do mundo, e aí rompi o ligamento cruzado do joelho. Foram nove meses parados, consegui jogar e ganhar a Liga Espanhola, a Liga dos Campeões, e depois fui convocado para a Copa de 2006 e cortado. É aquilo que falo, são épocas.

Lutei quatro anos no Lyon para jogar em um grande clube e aconteceu isso. Nas frustrações e decepções, você sempre aprende algo, e me dediquei muito para superar coisas que não imagei que conseguiria.

Terra - Quando estava surgindo, dava para perceber que o Messi ia ser tudo isso?
Edmílson - Ah, dava. Desde que cheguei, em 2004, lembro que falei com meu representante. "Rapaz, tem um argentino baixinho, acho que é Messi, Lessi, não sei...que vai dar o que falar". Era diferente, e é diferente. Um grande jogador que tem tudo para ter anos e anos muito bons.

Terra - O que acontece com o Ronaldinho?
Edmílson - Acabou chegando no auge e conquistou tudo, né? Até hoje, é muito respeitado no Barcelona, um clube que vivia seis ou sete anos sem ganhar nada. E ele mudou tudo.

Deve estar passando um momento difícil, de tentar se levantar e às vezes não está conseguindo. Quem aprendeu e quem fez, nunca esquece. Talvez seja um momento difícil de adaptação, auto-estima, ou motivação, e sempre confio nele, porque nos quatro anos que joguei com ele, vi fazer coisas impressionantes. Sempre digo, só depende dele. Se quiser voltar a ser, vai voltar e dar muitas alegrias.

Terra - Pois é, porque falam que o problema é justamente ele querer. Será que não falta ambição?
Edmílson - Talvez. Não creio que um cara que chegou até onde ele chegou, que passou o que ele passou quando foi transferido do Grêmio ao Paris Saint-Germain, e ficou um tempão parado...então só depende dele. Se ele quiser, pode voltar a ser o melhor do mundo.

Terra - Conte para nós alguma frase, dita por um treinador, que te marcou.
Edmílson - Uma que o Rijkaard (Frank, ex-treinador do Barcelona) sempre falava: "entre no campo e desfrute". Ou seja, tem 100 mil pessoas esperando que vocês deem espetáculo. Não entre com medo, tensão, mas entre solto e tente fazer o melhor possível.

Mas tem várias. A do Vanderlei: "o medo de perder tira a vontade de ganhar". E do Felipão: "estamos aqui é para ganhar, nunca viemos pra perder". No futebol, você sempre vai aprender muita coisa.

Terra - Você trabalhou com o Manuel Pellegrini no Villarreal e agora ele é o novo técnico do Real Madrid. O que espera dele e desse time de estrelas?
Edmílson - Acho que o Barcelona está dois degraus acima do Real Madrid. Eles estão estruturando o time, com jogadores novos, como Kaká e Cristiano Ronaldo, em um momento de transição. O Barcelona acabará saindo na frente.

Pellegrini fez alguns anos muito bons, mas uma coisa é treinar o Villarreal e outra é o Madrid. A cobrança é maior e o Madrid sempre jogou feio e ganhou. O Barça sempre deu espetáculo e não ganhou muito. Vai ser um grande Espanhol e o Barcelona sai um pouco na frente.

Edmílson critica "desobediência" de brasileiros em campo:
Fonte: Terra
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