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Foto: terra

Brasileiro Série A

Especialistas cobram punições e apontam despreparo de meninos do Santos

3 ago 2010
16h20
atualizado às 16h49
Diego Garcia

Às vésperas da decisão da Copa do Brasil, o polêmico vídeo de alguns jogadores do Santos discutindo e insultando torcedores via Twitter rodou o País. Dois psicólogos renomados conversaram com a reportagem do Terra sobre o assunto, cobraram punições por parte do clube e apontaram o despreparo emocional, psicológico e educacional dos atletas como principal responsável pelo incidente.

"Foi uma atitude bastante infeliz, não só pelo sucesso que esses meninos estão fazendo, mas pela idade da maioria deles, pelo status que atingiram em tão pouco tempo, pelo despreparo completo - emocional, psicológico e comportamental - da maioria desses meninos", afirmou João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e com passagens por Cruzeiro, Goiás e Palmeiras.

"Tem que cobrar, punir, afastar, multar. Tem que ter um procedimento de correção desse comportamento, de reeducação, porque senão esse tipo de comportamento vai ser repetido, e isso não é aceitável. Precisa ter uma orientação e uma cobrança em cima dessas atitudes", acrescentou Suzy Fleury, mestre em Psicologia do Esporte e com passagens pela Seleção Brasileira e por diversos clubes.

A culpa do jogador:

Madson, Zé Eduardo, Felipe, Zezinho e Alan Patrick eram os atletas envolvidos no episódio da twitcam, equipamento usado no microblog Twitter que interage com outros internautas através de uma câmera. "O que ele ganha de salário é o que eu gasto com meu cachorro de ração no mês", disse o jovem goleiro, supostamente a um torcedor que o insultava na rede. Enquanto isso, Madson se expressava através de gírias e palavrões.

"Esses atletas são cidadãos, mas são cidadãos com responsabilidade social e não sabem, não aprenderam ou ainda não foram treinados para exercer essa responsabilidade que eles têm com a sociedade e com o meio. Esse comportamento indevido acaba manchando a própria carreira e a imagem deles diante do seu torcedor, como também a imagem do clube, que é a instituição maior e sempre mais importante que o jogador", justificou o psicólogo João Cozac.

"Acho que foi uma atitude pouco recomendável para atletas de futebol que são exemplos para crianças que gostariam de se tornar jogadores de ponta no futuro", acrescentou, acompanhando a linha de raciocínio de Suzy Fleury. "Mais do que representar uma equipe, um clube, esses jogadores também tem que ter consciência do papel que eles representam à sociedade, para adultos e crianças que os acompanham diretamente", afirmou a médica.

"O atleta profissional tem que se conscientizar que ele é um profissional que representa uma entidade - um clube, um patrocinador, uma torcida. Por isso, tem que se comportar como tal. É inadmissível, são jogadores internacionalmente conhecidos, pois eles representam uma bandeira como a do Santos, e com esse tipo de atitude eles não podem continuar. Isso depõe contra a imagem do próprio atleta, do profissional individualmente falando, da equipe e do clube que ele representa", concluiu a psicóloga.

A culpa da tecnologia

Com o avanço da tecnologia e o uso de inovadas técnicas de comunicação, como é o caso do Twitter e de outros exemplos de mídias sociais, as distâncias entre o ídolo e o fã acabam reduzidas. Isso causa incidentes como o deste último domingo, quando os jogadores se sentiram ofendidos com as críticas de um internauta direcionadas ao goleiro Felipe.

"Essas ferramentas têm que ser usadas com muita cautela e responsabilidade. Esse comportamento é indevido de alguns atletas que usam esse instrumento de uma forma pejorativa e negativa. O perigo dessa tecnologia é que os atletas têm a possibilidade de se aproximar dos torcedores, mas não é um contato físico. Sem ele, acaba ficando muito mais fácil para você perder a sua identidade de atleta e virar um cidadão comum", destacou o Dr. Cozac.

"É um comportamento sem essência e um ato praticado em um contexto particular ou muito exposto e através de uma mídia tão poderosa. E isso só vai aumentar, pois a tecnologia está evoluindo. Evitar que tenha acesso à comunicação é impossível. O que pode é ter controle da concentração, que não foi o que ocorreu nesse caso do Santos", concluiu Fleury.

A participação do clube

"Essa atitude infeliz demonstra uma carência de um trabalho psicológico do próprio Santos", disse João Ricardo. "O clube não tem o controle do atleta quando ele está em casa. Por esse motivo, é muito melhor educar, estabelecer procedimentos corretos, porque dentro ou fora da concentração tem que cumprir com aquilo lá, sempre", acrescentou Suzy Fleury.

"Acredito que a instituição tem que estabelecer normas e cobrar dos atletas profissionalmente. Tem que ser melhorado o comportamental, o educacional, mostrar quais são os aceitáveis e os inaceitáveis, e cobrar e punir eventualmente se esses ocorrerem. Fica a cargo do próprio clube assumir isso, porque é ele quem arca com a conta alta das atitudes de seus atletas, como aconteceu agora", concluiu a psicóloga.

Soluções:

"Acho que está na hora dos grandes clubes do País pegarem o exemplo das equipes da Europa, que têm regras e uso de multas para o mau uso da tecnologia digital. O que deveria ser feito no Brasil é uma associação semelhante a essa conduta que tem sido feita na Europa, para que os clubes tenham normas e restrições para o uso da tecnologia digital, estando sujeitos a punições e colocando multas severas", apontou como solução João.

"Nos EUA, o atleta que vai para a NBA passa por um programa educacional para fazer parte disso, do ponto de vista social. Ele aprende os direitos e deveres que ele tem que cumprir nessa trajetória, o que não ocorre no Brasil, infelizmente. O nosso País não se encaixa em uma política que coloca o esporte junto com a educação. Por isso, que pelo menos esses atletas sejam orientados pelos clubes que irão representar em suas vidas profissionais", adicionou Suzy Fleury.

Por último, o presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte aproveitou para dar uma definição simples ao incidente, porém realista. "Existem muitos atletas que ainda acham que estão acima das instituições, mas eu gosto de lembrar que o escudo do time vem no peito e o nome do atleta vem nas costas. Portanto, a instituição, o clube tem sempre preferência em cima da representação do atleta e do comportamento diante da agremiação que ele representa", finalizou Cozac.

Especial para Terra

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