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Feliz e quase líder, Adílson Batista quer mais 5 anos de Corinthians

18 set 2010 - 09h24
(atualizado às 11h40)
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Dassler Marques
Direto de São Paulo

Mais de 25 anos no futebol moldaram as atitudes e as palavras de Adílson Batista, desde 27 de julho o treinador do Corinthians. Raramente você conseguirá vê-lo envolvido em uma polêmica ou arrancará dele uma declaração forte. Mais fácil é ouvir de Adílson, 42 anos, um "tô tranquilo", expressão repetida pelo menos três vezes nesta entrevista exclusiva concedida ao Terra, na última quinta, no Parque São Jorge.

Não se pode dizer que o treinador corintiano esteja errado. Afinal, a equipe que herdou de Mano Menezes, então líder do Campeonato Brasileiro, segue dona do melhor aproveitamento da competição. Está em segundo lugar por desvantagem de um gol de saldo para o Fluminense, mas tem um jogo a menos do que o rival.

Adílson, sem motivos para intranquilidades e com um bom humor inabalável, havia batido bola e se divertido como criança com jogadores reservas e membros da comissão técnica pouco antes de falar com o Terra.

A quinta-feira, aliás, não era um dia comum. Menos de 24 horas antes, o Corinthians havia dominado o Fluminense no Engenhão e conseguido uma daquelas vitórias que, em pontos corridos, costuma ser decisiva.

A boa fase não dá confiança para Adílson entrar de sola em assuntos espinhosos, como a má fase do ex-rival Atlético-MG, as polêmicas de Neymar ou a proposta realmente enviada pelo Internacional. Mesmo assim, ele lembra que a admiração por Elias e Jucilei vem de longa data, prefere esquecer a Libertadores de 2011 por enquanto e pensa em ficar mais cinco anos no clube. Mas sabe que para isso precisa vencer.

Confira a entrevista com Adílson Batista na íntegra:

Terra - Te surpreendeu a forma como o Corinthians conseguiu dominar o Fluminense em sua casa por quase todo o jogo?
Adílson Batista - Foi um bom jogo, bem disputado, em que fizemos um bom primeiro tempo e neutralizamos, dificultamos a ação do Fluminense. Mérito aos atletas pela dedicação e concentração. Houve entrega pela importância do jogo.

Terra - Você já era da casa e voltou (Adilson teve passagem como jogador pelo clube). Já se sente realmente em casa, adaptado, tomando conta de tudo?
Adílson - Estou tranquilo. Fui bem recebido, já conhecia muita gente da minha época. Já enfrentei alguns atletas, joguei com alguns, trouxe outros, caso do Thiago Heleno que era do Cruzeiro. O Andrés (Sanchez, presidente) e o seu Mário (Gobbi, vice de futebol) passaram tranquilidade.

Terra - Você disse que não mudaria muita coisa no Corinthians do Mano, mas dá para perceber uma equipe um pouco diferente, mais veloz e ofensiva. O que acha que há de diferente?
Adílson - É difícil julgar o trabalho estando longe. Enfrentei o Mano algumas vezes, o Corinthians também recentemente com o Cruzeiro. Eu via um time organizado, bem postado, com posse de bola e grandes jogadores. Acho que só procurei adiantar o Elias, foi uma mudança pequena e que tem dado certo.

Com Mano, o Corinthians normalmente atuava em com dois volantes, três meias em linha e um homem de área. O mesmo 4-2-3-1 levado para a Seleção. Adílson monta seu meio-campo quase sempre em quadrado: dois volantes, dois meias e dois atacantes.

Terra - Ia te perguntar justamente sobre o Elias. Ele nunca mais atuou como volante desde que você chegou. Por que essa mudança de função?
Adílson - Acompanhei ele na Ponte Preta, até tinha pedido a contratação pelo Cruzeiro, mas não foi possível. Acho que ele tem uma dinâmica parecida com a do Ramires, que evidentemente tem uma condição física melhor. Por isso que a gente conversou para mudar. Ele já fez isso. É mérito do jogador.

Terra - Contra o Fluminense, na quarta, ele apareceu decisivamente nos dois gols
Adílson - É verdade. O primeiro em uma jogada de inteligência do Roberto com o Bruno. Depois com uma saída rápida, triangulação do Elias, penetração do Alessandro e conclusão do Iarley. Eles têm essa liberdade e competência para fazer.

Ao lado de Renato Cajá, Elias foi o grande nome da Ponte Preta vice-campeã paulista de 2008 atuando como meia ofensivo. Diferente do que se tornou com Mano Menezes, um volante que chegava à frente de surpresa.

Terra - Outra mudança importante desde que você chegou foi a fixação do Jucilei definitivamente entre os titulares. A gente vê ele mais solto, caprichando mais também na finalização e no último passe. O que você tem achado desse jogador?
Adílson - É outro jogador que nos recomendaram no Cruzeiro. O Ivair (auxiliar e fiel escudeiro) foi olhar o Atlético-PR contra o J. Malucelli, hoje Corinthians Paranaense, e foi indicação dos amigos de Curitiba. Nenê, Gralak, Nei, Ademir Alcantara. Pessoas que conhecemos no Paraná e falaram muito bem desse jogador. Também tentamos no Cruzeiro, mas não foi possível.

Foi uma grata surpresa. Tem dinâmica boa, sabe jogar, chama, ajuda, recompõe, tem personalidade, arrisca. Está tentando finalizar. É um jogador que vai ter futuro bonito.

Terra - Agora faltam 16 rodadas para o fim do Campeonato Brasileiro. O que vai decidir daqui para frente?
Adílson - A regularidade. É uma maratona e você tem que estar sempre atento, não dá para ter descuido. Alguns jogos são chaves. Nesses confrontos, a gente precisa ter atenção.

Terra - Copa Libertadores é um assunto que você conhece bem. O Corinthians precisa mudar muito para brigar forte por essa competição?
Adílson - Primeiro vamos pensar no Brasileiro. Não dá para falar agora. É cedo. Na hora que alcançarmos a vaga, vamos focar a busca pelo título. A Libertadores é só ano que vem, aí a gente vai poder falar nisso.

No Sul, Adílson é o Capitão América, fruto da taça que levantou pelo Grêmio na Copa Libertadores de 1995. Com o Cruzeiro, como treinador, caiu nas oitavas em 2008, esteve muito próximo e acabou vice em 2009 e parou nas quartas em 2010.

Terra - Como tem sido o seu contato com o Ronaldo? Sente que ele vai te ajudar nessa última parte do Brasileiro?
Adílson - O contato é profissional, como acontece com os demais. É evidente que existe um respeito, um carinho, quero ajudá-lo e vejo que ele está querendo. Há entrega, procura fazer os trabalhos e evidente que também tem dor. Nós buscamos recuperá-lo para nos ajudar.

Terra - Te surpreende o crescimento do Cruzeiro, só um ponto atrás do Corinthians?
Adílson - Não só o Cruzeiro. O Botafogo, daqui a pouco o Internacional, o Santos. Eu disse para vocês há um bom tempo que não seria só Corinthians e Fluminense. O Cruzeiro tem lá uma base, um trabalho do Cuca muito bom. O Botafogo com o Joel mantém regularidade. Outras equipes podem crescer, caso do São Paulo que tem tradição.

Terra - Em Minas Gerais você teve problemas com a imprensa, discutiu várias vezes. Quando chegou a São Paulo, concordou que precisava ser mais pacífico e praticamente ainda não há rusgas. Como tem avaliado tudo isso?
Adílson - Às vezes, passam algumas coisas para vocês de fora que não são verdadeiras. Sempre fui questionado por alguns por algumas trocas. É como eu digo para vocês: quando você troca A por B, às vezes tem uma perda. Isso que as pessoas precisam entender.

O trabalho foi bom, a aceitação foi boa e o ambiente era bom. O cruzeirense me respeita. No Estado que tem duas equipes, e o América teve dificuldades ao longo dos anos porque era um time de tradição, alguns trabalharam contra o meu trabalho e o Cruzeiro. A resposta é dentro de campo: você vai crescendo profissionalmente e alguns vão ficando, estacionando, perdendo emprego. Eu estou tranquilo.

Se hoje Adílson está tranquilo, em Minas Gerais foi diferente. O treinador teve sérias rusgas com a imprensa. Jogar no Mineirão pelo Cruzeiro normalmente significa ser obrigado a dar espetáculo. Ousado, o treinador ganhou o apelido de Professor Pardal no Campeonato Mineiro de 2008: a equipe vencia o Ituiutaba por 4 a 1, ele fez três tocas e tomou o empate em casa.

Terra - E com a imprensa de São Paulo, você acha que tem sido diferente?
Adílson - No futebol existem pessoas mais capacitadas, outras não, e sabemos como funciona o futebol. A gente que vivencia o futebol, respira, acompanha, sabe o que está fazendo. Então estou tranquilo.

Terra - Após sua saída do Cruzeiro, Flamengo e Inter te convidaram?
Adílson - Depois que saí, recebi algumas propostas. Prefiro falar do lado de fora, do exterior. Do Brasil não vou comentar. Achei que era o momento de esperar, de ficar no país, e surgiu o Corinthians. Quando o Seu Mário me ligou, aceitei tendo a convicção de que faria um grande trabalho.

Terra - Você acha que também dá para ficar dois anos e meio no Corinthians, repetindo o que fez no Cruzeiro?
Adílson - Dá para ficar até cinco! Ganhando tudo? Fico até cinco anos (risos).

Terra - Aliás, o Mano Menezes já te procurou para perguntar sobre algum atleta?
Adílson - Só falei uma vez. Antes de vir, na véspera do jogo contra o Guarani, liguei para o Mano. Ele foi muito atencioso, conversei bastante. Foi essa vez.

Terra - E o Atlético, como você tem acompanhado...?
Adílson - (interrompendo) O Atlético Paranaense?

Terra - Não, o Atlético-MG, que foi seu rival. Você bateu bastante neles, aliás...
Adílson - (risos) Achei que era o Atlético do Carpegiani. Está bem o Atlético-PR, parabéns para o Carpegiani.

Adílson esteve no Cruzeiro por dois anos e meio, disputando 12 jogos contra os rivais atleticanos. Teve nove vitórias, dois empates e só uma derrota. Neste dia em especial, o atacante Zé Carlos foi expulso aos 15seg de partida.

Terra - E o Atlético-MG?
Adílson - O Vanderlei vai tirar. É competente, capacitado, tem tradição e força de torcida. Acho que o Atlético ainda sai.

Fonte: Terra
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