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Presidente queria escalar jogador, diz ex-técnico do Santo André

28 jul 2009 - 17h42
(atualizado às 19h51)
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Apesar dos bons resultados em trabalhos recentes pela Ponte Preta e Santo André, do qual se desligou na última segunda-feira, Sérgio Guedes é um treinador ainda mais reconhecido por outras características: personalidade e lisura. E foi por isso que ele deixou o clube do ABC Paulista.

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Sérgio acusa Ronan Maria Pinto, presidente da Gestão Empresarial do Santo André, de querer interferir na escalação do time. O problema em questão seria a utilização de um centroavante que o treinador já havia sacado dos planos para a Série A. Por motivos similares, Guedes, 46 anos, já havia deixado a Ponte Preta no último ano.

O trabalho no Santo André, no entanto, parece ter levado o nome do treinador para outro patamar, a ponto de ser um dos sondados pelo Flamengo. Mesmo sem jogadores importantes na temporada 2008, como Jéfferson (Vasco) e Willians (Flamengo), a equipe se encontrou com jogadores jovens e pouco badalados, mesclados a experientes com fama de problemáticos, como Marcelinho Carioca e Gustavo Nery.

Com todas as dificuldades, o Santo André foi sexto colocado no Paulista e, vinha em 13º na Série A, tendo ocupado até a sétima posição há quatro rodadas atrás. Sinal de que o competente treinador nascido em Rio Claro também tem resultados a apresentar além do forte discurso, classificado por ele mesmo como idealista.

Confira a entrevista com Sérgio Guedes na íntegra:

Terra - Houve sondagem do Flamengo por você?
Sérgio Guedes - Sim, mas acho que fizeram para muita gente. É normal, foi algo sem discutir perspectivas. Só para conhecer. Mas para mim, não tem nada, nada mesmo. Hoje sou uma pessoa na expectativa de propostas para trabalhar.

Terra - O Flamengo é um clube agitadíssimo. Como você lidaria com tudo isso?
Sérgio - É o clube de uma das maiores torcidas do mundo, então é natural que seja assim. Tem que ser dirigido de uma forma que, quanto mais apaixonado melhor, porque é isso que cativa as pessoas.

Terra - No ano passado, você deixou a Ponte Preta e recusou algumas propostas no meio da temporada. Te incomoda assumir clube no meio do ano? O que você está prevendo para o futuro?
Sérgio - Todos os dias a gente aprende uma coisa nova, só não tenho pressa para fazer as coisas. Preciso trabalhar, mas se for um lugar que não oferece coisas boas, que o ambiente não é bom, prefiro ficar em casa. Mas se surgir coisa boa, a gente pensa.

Dificilmente aparece mar de rosas. Mas um desafio se torna maior. Você pode gerenciar um problema que levou o time a chegar nesse momento. No futebol você precisa crescer e enfrentar situações que não gostaria, mas faz parte do crescimento. Gosto de gente que valorize caráter, que goste de trabalhar. Não sou radical.

Terra - Esse atrito no Santo André foi parecido com o que aconteceu ano passado na Ponte Preta?
Sérgio - Mas não teve nenhum atrito. Simplesmente não atendi o presidente em querer colocar alguém que ele queria. Comigo, o melhor jogador é que joga. Me comporto assim, é um direito de quem comanda, fazer o que quer. No fim da história, vamos ver quem tinha razão. No dia 3 de dezembro, vamos comparar, Sérgio Guedes e Santo André.

Terra - Mas foi uma situação similar ao que houve na Ponte Preta?
Sérgio - Foi, sim. Mais ou menos assim. Na Ponte foi o resultado que ajudou um pouco (o time vinha mal na Série B após o vice Paulista). No Santo André, não. O time tem jogado bem como pode, contra equipes superiores, e o presidente quis colocar um jogador depois da última derrota. Isso era acordo em comum entre eu e ele. E de repente começou a insistir de novo.

Terra - Qual treinador brasileiro que, eticamente, te agrada?
Sérgio - É muito difícil, por eu não conhecer. A gente ouve dizer. Meu problema é que isso vem de berço, é educação. O que é seu é seu, o que é meu é meu. O Muricy é uma pessoa que passa isso, pelo discurso. O Tite também.

Terra - O que te mais te agradou no trabalho realizado no Santo André?
Sérgio - Os jogadores entenderam o que eu queria, trabalharam pra isso. Era o time suplente do ano passado, teoricamente, e teve uma resposta tática muito melhor. Entendeu que precisava sempre melhorar.

A melhor coisa que a gente leva é deixar as portas abertas e consciente de que não é fácil fazer o que eu fiz. Sei que trabalhei no meu melhor e faço o time jogar o melhor que ele pode.

Terra - Como foi o Marcelinho Carioca contigo?
Sérgio - É um atleta que tem qualidade. Da minha parte fez tudo certo. E acho que ele gostou, porque até me ligou agradecendo, dizendo que aprendeu muito comigo.

Terra - E o Gustavo Nery?
Sérgio - Quando ele chegou no clube, eu disse o que pensavam dele, o que tinham me dito dele, mas falei que o meu conceito ia ser outro. Não tenho queixa, ele me ajudou e tem qualidade. Muitas vezes, depende da forma como as pessoas tratam. Da maneira que eu trato, só se o cara for muito calhorda para não dar certo.

Terra - Por essa postura, alguns clubes podem se afastar de você?
Sérgio - Não, pelo contrário. É uma tendência. O cara ganancioso demais, que quer mandar demais, fecha portas.

Terra - Nesse cenário de investidores e empresários, você acha possível um treinador trabalhar sem interferência?
Sérgio - No Brasil, é. Não tenha dúvida. Só que aí que está: não são todos que pensam assim. Há dirigentes que buscam esse perfil. Que falam "espera aí, é esse cara que eu quero". E não vai encontrar isso fácil. Se o torcedor perceber o que estão fazendo com o futebol, vai acabar. Sou um cara idealista, mas não construo castelo sozinho, preciso dos construtores. Quem constrói é o atleta, os torcedores, a mídia.

Sérgio Guedes, que acaba de deixar o Santo André, é um dos nomes cotados para o Flamengo
Sérgio Guedes, que acaba de deixar o Santo André, é um dos nomes cotados para o Flamengo
Foto: Gazeta Press
Fonte: Terra
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