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Goleiro vítima de ato racista se diz abalado e fará terapia

9 set 2014 07h38
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Igor diz que terá que fazer terapia para superar xingamentos
Igor diz que terá que fazer terapia para superar xingamentos
Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação

O goleiro do Operário-MT, Igor Lemos Cajuhy, 31 anos, disse que está “chateado, revoltado e tudo mais que você possa imaginar”, após ser xingado de “macaco, afrodescendente e Aranha”, no jogo desse domingo, contra o Tombense-MG, pela Série D do Campeonato Brasileiro.

Ele chegou ao hotel onde mora em Várzea Grande (MT), às 17h desta segunda, e contou ao Terra, por telefone, que chorou bastante, enquanto desabafava com algumas pessoas sobre o ocorrido, porque estava se sentindo muito mal.

Igor acredita que sofreu bullying da torcida e decidiu fazer terapia, porque acredita que com a cabeça que está hoje não tem condições nem de treinar.

Ele contou um pouco de sua história. “Meu avô, que também era negro, descendente de escravos, era muito bem de vida e minha avó, que era descendente de alemã e branca é que não tinha dinheiro”, conta ele, destacando que o racismo, na visão dele, não vê classe social. “Sempre fomos da classe média alta”.

Igor é baiano e começou a vida profissional no futebol muito cedo, aos 13 anos, no Vitória da Bahia, isso em 1997. Um ano depois, foi para São Paulo jogar no Palmeiras. Passou também no Bragantino, no CRB e outros clubes, chegando ao Misto de Cuiabá e ao Operário.

“Nunca fui expulso, nunca passei por racismo, é tudo a primeira vez. Se você olhar o meu histórico, vai confirmar isso e olha que já fui xingado de tudo que é coisa. Mas nunca tinham agredido minha integridade, minha identidade, minha raça, minha cor, da qual me orgulho muito”.

O presidente do Operário-MT, Geovane Banegas espera que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), suspenda o Tombense do Campeonato Brasileiro. Segundo ele, não dá para aturar mais esse tipo de coisa e o sofrimento que causa ao jogador.

No Maracanã, flamenguistas mandam recado contra racismo:
Trâmite policial

Após registrar boletim de ocorrência na delegacia de Tombos-MG, onde ocorreu o jogo, Igor assegura que vai representar o torcedor que foi preso também em Várzea Grande, para acompanhar o inquérito policial. “Quero punição. Vou conversar com advogados e juízes amigos meus e ver o que faço. Mas, na verdade, eu tenho que esperar o inquérito terminar”.

Após ser xingado, nos primeiros minutos do jogo, Igor assegura que foi até o juiz e pediu providências a ele.

Igor sugere que os interessados no caso peguem o take completo do jogo sem edição para ver que no início da partida, entre os 10 primeiros minutos, foi até o centro do campo, após um tiro de meta, e falou com o juiz o que estava acontecendo. “Eu disse: 'estou sendo agredido'. Daí ele me disse: 'você me conhece?'. E respondi: 'não, não conheço o senhor e o senhor me conhece?'. Daí o juiz disse: 'calma que eu quero te ajudar mas não é dessa forma que o senhor vai me ajudar'”.

Igor conta que tentou ver quem estava o xingando. “O que é que está olhando macaco”, responderam. Segundo ele, havia um grupo gritando, inclusive adolescentes, aparentemente de 12 a 14 anos, o que o deixou mais chateado. “Isso é um sinal de que o racismo é ensinado em casa”, lamenta.

"Como os insultos continuaram, depois de uma lateral ou falta do adversário, voltei a procurar o juiz, já indignado, cheguei transtornado e cobrei dele: 'o senhor não tomou providência e olha a palhaçada que está acontecendo comigo, a situação que eu estou passando. Um dos torcedores apontou o dedo do meio para mim'”.

Revoltado, o goleiro chutou a bola na direção da torcida. “Deu até vontade de largar o jogo, e chutar aquela bola foi uma forma de demonstrar minha insatisfação. Nos dias de hoje, esse tipo de coisa não poderia mais acontecer”.

Para Igor, xingar um jogador de macaco ofende a dignidade dele e desestabiliza demais. Segundo ele, chamar de afrodescendente e Aranha seriam elogios, se não fosse naquele contexto.

Igor é solteiro e tem uma flha de 5 anos. Em Cuiabá, mora sozinho. A família na Bahia ainda não sabe da boca dele o que aconteceu. “Estou primeiro me informando para saber o que vou fazer e depois contar. Minha mãe passou por um câncer e não quero dar esse sofrimento a ela”.

O faturista Rafael Pereira de Castro, de 32 anos, é o torcedor que foi detido e acusado de injúria racial.

Aranha perdoa gremista, mas pede justiça no caso:
Caso Aranha

O caso do Igor ocorre há menos de 15 dias do episódio que levou a estudante Patrícia Moreira da Silva, de 23 anos, à delegacia. Ela chamou o goleiro Aranha, do Santos, de macaco.

O jornalista João Negrão, do movimento União de Negros pela Igualdade (UNEGRO), explicou que o racismo se repete e está incutido até mesmo em alguns negros.

Segundo ele, isso ocorre por causa da impunidade. “As pessoas acham que podem fazer tudo que querem, não respeitam a vida e o sentimento dos outros, tudo em nome de uma suposta liberdade. Acham que podem dar uma porrada em um gay, chamar uma mulher de puta e xingar um jogar de macaco”.

Negrão diz ainda que as instituições também são omissas e não reprimem. “Aconteceu agora com o Grêmio, mas o clube não assumiu isso para si mesmo, internamente, repudiando”.

Segundo ele, as famílias precisam falar dentro de casa sobre o racismo, combatê-lo na escola.

Fonte: Especial para Terra
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