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São Raimundo subiu na Série D com "Carpegiani e Rei Artur"

29 out 2009 - 17h03
(atualizado às 17h04)
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Uma campanha à brasileira: assim pode ser definida a trajetória do São Raimundo de Santarém, interior do Pará, na Série D do Campeonato Brasileiro. Quatro treinadores na temporada, abandono de jogadores, muitas dificuldades financeiras e uma torcida fanática. Dessa forma, o clube apelidado de Pantera garantiu presença entre os 60 melhores do País em 2010.

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Nessa campanha certa por linhas tortas, o São Raimundo chegou até a decisão da Série D contra o Macaé. E no primeiro jogo em Volta Redonda, endureceu e voltou para Santarém com uma derrota por 3 a 2 na bagagem. Um resultado que, para os paraenses, dá a esperança do título histórico com uma vitória simples.

Ao lado de Chapecoense-SC, Macaé-RJ e Alecrim-RN, o São Raimundo é um dos clubes retratados na série de quatro reportagens que o Terra traz nesta semana. Os quatro "campeões" que conseguiram o acesso na primeira edição da nova Série D criada pela CBF têm histórias particulares, que atestam o abismo que separa os grandes clubes daqueles nanicos, que brigaram por um módico lugar entre os 60 maiores do país do futebol.

Na Série C, aos trancos e barrancos

Vice campeão paraense com o treinador Valtinho no comando, o São Raimundo viu o rival Paysandu levar o comandante embora. Então, a opção para tentar a sorte na Série D foi contratar Artur Oliveira para o comando técnico. Ex-atacante do Porto de Portugal e do Vitória da Bahia, o "Rei Artur", como é chamado, não se deu bem no interior do Pará.

"Ele (Artur) não deu certo. O time vinha jogando mal, apesar de ganhar. E os jogadores brigavam muito com ele, alguns foram até embora por causa disso", conta o diretor Sandiclei Monte.

"O grupo estava afastado, não tinha conjunto. Cada um tem seu método de trabalho e os atletas não se enquadraram", atesta Lucio Santarém, atual treinador. E entre Artur e Lucio, o São Raimundo ainda tentou a sorte com o auxiliar apelidado de Carpegiani, que não teve vida longa como interino.

Assim, aos trancos e barrancos, o São Raimundo conseguiu a campanha vitoriosa. E o diretor Sandiclei, admite, que o nível técnico dos clubes da região Norte favoreceu, já que na Série D as primeiras fases são disputadas regionalmente. "Facilitou para nós, porque os times são montados com muitas dificuldades. Fomos crescendo e pegando experiência", conta.

O elenco, cujo destaque é o atacante Michel, artilheiro da Série D e 27 anos, é todo montado com jogadores do estado, e há apenas um atleta não paraense.

Orçamento apertado e a rivalidade com Belém

Ao longo da Série D, o São Raimundo viu 10 jogadores deixarem o clube por outras propostas, e manteve o nível com uma folha salarial das mais baixas: com R$ 50 mil por mês, a direção custeava o elenco e o treinador. Para se ter uma ideia, a Chapecoense, que caiu nas semifinais, tem uma folha quase três vezes maior. "Apesar das dificuldades, não atrasamos os salários. É questão de honra", afirma Sandiclei.

O São Raimundo, que conta com o apoio da Unimed local e uma ou outra empresa, recebe, segundo a direção, quantias ínfimas em comparação com o que o Governo Estadual dá para a dupla Remo e Paysandu, da capital Belém.

"O Remo e o Paysandu recebem R$ 1,7 milhão por ano, e boa parte vai para pagar problemas na Justiça. Sabe quanto nós recebemos? R$ 5 mil", reclama Sandiclei. "Sou contra dinheiro público em clube de futebol, porque poucos sabem trabalhar com o dinheiro dos outros. Mas não posso ficar calado".

Segundo o dirigente, o Remo, que não conseguiu índice para disputar a Série D, torcia contra o São Raimundo. "Ficaram revoltados porque não desistimos de jogar o torneio. A nossa imprensa, de Santarém, disse que devíamos desistir porque íamos passar vergonha", conta orgulhoso o dirigente. Apesar de separadas por mais de 1 mil km, Belém e Santarém têm enorme rivalidade.

De acordo com ele, a reta final tem sido mais cômoda, já que a governadora paraense Ana Júlia cedeu passagens aéreas para o São Raimundo viajar ao Rio de Janeiro na finalíssima contra o Macaé.

Outra dificuldade do Macaé é conseguir outras fontes de renda. O clube disputou a Série D sem fornecedor esportivo. "Nosso torcedor é louco para comprar a camisa oficial e não tem onde", afirma Sandiclei.

Milagre com pouco dinheiro

As dificuldades para o São Raimundo foram tão grandes que, conta o técnico Lucio Santarém, houve jogos em que o banco de reservas foi reduzido ao extremo. "Viajei algumas vezes com 14 jogadores e dois membros da comissão porque não havia dinheiro para a passagem".

Um jogo em Macapá, particularmente, é apontado por Sandiclei como o momento de maior dificuldade na Série D. O clube chegou a desistir da partida porque não tinha passagem aérea, mas conseguiu fretar duas aeronaves pequenas para levar os jogadores. Depois de dificuldades no aeroporto, o elenco chegou às 13hrs, no mesmo dia do jogo. "Almoçaram e foram atuar", lembra.

Na precária Série D, o São Raimundo viajou ao Rio de Janeiro para enfrentar o Macaé sem sequer conhecer o adversário. "Tentamos pegar algumas fitas dos jogos, mas não conseguimos", diz Sandiclei. Apesar disso, chegou a estar na frente, e acabou perdendo por 3 a 2.

Para o jogo da volta, no próximo domingo, em Santarém, a expectativa é por 16 mil torcedores no estádio. E com uma vitória simples, a primeira edição da história da Série D vai ficar no Pará. "Sentimos que essa é a hora de não deixar o vento passar, o clube vai crescer", define Sandiclei, que prevê uma renda gorda de R$ 300 mil.

São Raimundo é motivo de orgulho para Santarém na rivalidade com Belém
São Raimundo é motivo de orgulho para Santarém na rivalidade com Belém
Foto: Elailson Santos (Katola) / Divulgação
Fonte: Redação Terra
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