
Atualizada às 15h47 Bruno Ceccon
Especial para o Terra
Em apenas seis meses de Palmeiras, Kléber aplicou uma cotovelada em André Dias, mandou Alex Silva dançar balé, atropelou um torcedor tricolor e fez o companheiro Maurício sair chorando de um treinamento. No meio da confusão, foi um dos destaques do título paulista sobre a Ponte Preta, com direito a gol na primeira partida da decisão. Com entrevistas sinceras e perfil explosivo, semelhante a antigos ídolos como Edmundo e César Maluco, o atacante é um dos mais queridos pela torcida alviverde.
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Com apenas 1,73 m, Kléber se mete entre os zagueiros. Apanha por baixo, bate por cima. Cai, levanta, rola, dá carrinho. Abre o supercílio de seu marcador, sai com a boca sangrando. O atacante é um jogador à moda antiga. Do lado de fora do gramado, ele fala pouco, chega a ser arredio. Contudo, ver um adversário reclamar nos microfones de uma determinada jogada ou exibir marcas da batalha, algo que não acontecia quando o atleta começou a jogar na periferia da capital paulista, é suficiente para fazê-lo explodir.
No futebol do século XXI, a era do "fair-play", do "profissionalismo", do "replay", Kléber precisa de muito esforço para se enquadrar. Onze cartões amarelos e três vermelhos em 30 partidas fizeram do jogador um assíduo freqüentador dos julgamentos promovidos pela cartolagem nesta temporada. Dentro de campo, ele se diz perseguido pelos árbitros. "Eu sinto que algumas faltas a meu favor não são marcadas e de repente outro atacante sofre o mesmo tipo de falta em um lance parecido e eles apitam", afirmou o atacante em entrevista exclusiva ao Terra.
No auge de seus problemas de indisciplina, o jogador chegou a dizer que "futebol sempre foi pra macho". Recém-chegado ao País após passar três temporadas na Ucrânia, Kléber lamenta a mudança no futebol brasileiro ao longo dos últimos anos. Para ele, resultado da presença nos gramados de inúmeras câmeras de televisão, capazes de mostrar uma gota de suor sob todos os ângulos possíveis. "O futebol fugiu um pouco daquela coisa mais pegada que tinha antes, mas isso tem que existir sempre", afirmou o atleta, que ainda falou sobre a possível saída de Luxemburgo com destino à Seleção e explicou sua relação de amor e ódio com o São Paulo, clube que o revelou.
Confira a entrevista na íntegra:
Terra - O Palmeiras está na segunda colocação e enfrenta nos dois próximos jogos Atlético-PR e Sport, dois times que não vivem boa fase no Campeonato Brasileiro. Essa é a hora de arrancar e não sair mais do G-4?
Kléber - Acho que esse é o momento. O Grêmio deixou alguns pontos escapar, a gente encostou um pouco e diminuiu a vantagem que eles tinham na liderança. São duas equipes difíceis. O Atlético-PR vai jogar em casa e o Sport nos venceu em Recife, então a gente sabe que vão ser jogos complicados. Mas a hora é essa, de pegar confiança, mostrar a cara do Palmeiras e buscar pontos para seguir forte na briga pelo título do Campeonato Brasileiro.
Terra - Você acha que o Grêmio é realmente o principal candidato ao título ou tem mais receio de clubes como Cruzeiro e São Paulo?
Kléber - São todas excelentes equipes, que estão brigando. Do Coritiba para cima, todos vão brigar. Tem também o Inter, que perdeu alguns pontos e está mais embaixo. Todas essas equipes têm boas chances de brigar. Todos os jogos vão ser difíceis, agora vai ficar cada vez mais complicado, porque está afunilando. Não só o Grêmio, mas também tem outros times que podem buscar o titulo.
Terra - Durante a semana, alguns jogadores disseram que esperam ver o Palmeiras na liderança dentro de quatro ou cinco rodadas. Você também costuma estudar a tabela e fazer esse tipo de projeção?
Kléber - A gente acompanha. Agora, prever em que rodada vai ser líder é uma coisa meio complicada de se fazer no futebol. Vamos ter jogos complicados, com resultados que você não espera. É claro que acompanhar faz parte da profissão, é aquela coisa de se importar com a profissão e ser profissional. A gente tem que pensar em jogar bem e fazer a nossa parte para depois ver como vai estar o campeonato.
Terra - Para você que joga no ataque, como está sendo jogar sem o Valdívia na armação das jogadas? Como você analisa o Palmeiras sem ele?
Kléber - Particularmente, eu e o Alex Mineiro não sentimos muita falta porque não mudamos muito nosso estilo de jogar. O Valdívia é um jogador que dispensa comentários, com uma qualidade muito difícil de encontrar no Brasil. Ele pode decidir um jogo a qualquer momento, mas eu ainda não senti falta. O Evandro caiu muito bem no time e eu espero que continue assim. O Valdívia nos ajudou enquanto esteve aqui, mas agora estamos sem ele e temos que pensar no nosso grupo.
Terra - O Palmeiras tem condições de conquistar o título brasileiro sem o Valdívia?
Kléber - Ele é um excelente jogador, mas o Palmeiras tem um elenco muito forte e tem mostrado isso depois da saída do Valdívia. Nos jogos em que ele não jogou por estar suspenso, o Palmeiras também foi muito bem e mostrou a sua cara. É isso aí que tem que fazer, independente de quem jogue. Quem entrar, vai entrar bem.
Terra - A saída do Valdívia deixou um "vazio" na torcida do Palmeiras. Você já é um dos principais ídolos. Acha que pode ocupar esse espaço?
Kléber - Meu objetivo é ganhar títulos. Quero jogar bem, fazer gols e ajudar o Palmeiras. O ídolo é a torcida que cria, o ídolo nasce jogando bem e fazendo gol. Eu tenho muito isso de garra e determinação. Quando eu entro, entro sempre para ganhar e visto a camisa do Palmeiras com muito prazer e orgulho. Não me preocupo em ser ídolo ou não. Primeiro temos que pensar no grupo para depois pensar individualmente.
Terra - Você foi campeão mundial Sub-20 e voltou ao Brasil falando em retornar à Seleção. Acha que esse sonho ainda está distante?
Kléber - Acho que estou crescendo e tenho jogado bem nas últimas partidas. Estou mantendo uma média boa, apesar de infelizmente não ter feito gol em alguns jogos. Mas mesmo assim eu joguei bem, finalizei, procurei o gol e tentei ajudar a equipe. Eu venho jogando bem e se continuar assim, uma oportunidade logo vai aparecer. Tenho que continuar assim, pensando em fazer bem o meu trabalho no Palmeiras.
Terra - O Vanderlei Luxemburgo tem sido freqüentemente questionado sobre a possibilidade de substituir o Dunga no comando da Seleção. Ele chegou a falar sobre isso com o elenco?
Kléber - Não, não. A única coisa que sabemos é que ele conversou com a gente e garantiu que vai ficar no Palmeiras pelo menos até dezembro, independente de qualquer coisa. Depois ele vai decidir o que fazer. Ele conversou com a gente quando começou esse boato mais forte, a imprensa a bater mais forte nessa tecla. Ele sentiu que era o momento de chegar e conversar, porque o boato estava muito grande. A especulação existe, a gente sabe disso, sabe que essa possibilidade existe, mas estamos tranqüilos. Ele falou com a gente e nós confiamos nele.
Terra - Se eventualmente o Luxemburgo substituir o Dunga, você acha que sua chegada à Seleção pode ser facilitada pelo fato de que ele já te conhece e gosta do seu futebol?
Kléber - Não sei, é difícil falar isso. Tenho que continuar trabalhando. Por mais que ele me conheça, tenho que continuar jogando bem e ajudando o Palmeiras como estou ajudando. Se continuar assim, com qualquer um que estiver no comando uma oportunidade vai aparecer.
Terra - Você foi contratado pelo Dínamo de Kiev em 2004. Teve alguma dificuldade de adaptação ao futebol brasileiro nesse retorno?
Kléber - Não, por incrível que pareça me adaptei muito rápido e fácil. O único problema que eu tive foi de receber muitos cartões. Com essa vontade grande de querer mostrar, a gente acaba reclamando muito com o juiz e fazendo algumas faltas. Tive problema com isso, com o futebol em si, não.
Terra - Essa questão dos cartões é um problema de adaptação ou é mais uma conseqüência do seu estilo de jogo?
Kléber - Por ser atacante, eu me protejo mais do que os jogadores das outras posições. Os choques mais fortes acabam acontecendo, às vezes você deixa o braço sem querer e faz uma falta mais dura. Por ter jogado fora também, estava acostumado com um campeonato mais pegado e brigado. Mas é só tomar cuidado e não cometer faltas nas horas erradas. Estou mais tranqüilo, isso passa.
Terra - Você chegou a dizer que "futebol sempre foi pra macho". Acha que está ficando uma coisa meio burocrática por conta do patrulhamento do STJD? Por causa da punição baseada em imagens, pela proibição de fazer gestos e limitação até mesmo das comemorações...
Kléber - O futebol fugiu um pouco daquela coisa mais pegada que tinha antes. Acabou fugindo um pouco, mas isso tem que existir sempre. Se tem um lance polêmico, é válido usar a câmera, isso faz bem para o futebol. Mas tem certas coisas que não tem necessidade, como por exemplo precisar ir para o Rio de Janeiro toda vez que é expulso. Tenho que pensar em fazer o meu trabalho, independente disso.
Terra - Por que você acha que aconteceu essa mudança?
Kléber - Por causa disso, o pessoal toma mais cuidado porque sabe das câmeras. Se já foi expulso uma vez, sabe que pode tomar uma suspensão ainda maior se for reincidente. Por isso que acabou mudando, tem muita câmera no jogo e antes não tinha. Isso mudou um pouco, mas estou tranqüilo. Como eu disse, não tenho que ficar pensando nisso.
Terra - Você tem notado algum tipo de perseguição por parte da arbitragem? Sente que eles pensam: "vou dar logo um cartão para o Kléber para ele ficar esperto"?
Kléber - Isso aconteceu sim em alguns jogos, nos últimos até que não, mas nos primeiros teve bastante. Eu sinto que algumas faltas a meu favor não são marcadas e de repente outro atacante sofre o mesmo tipo de falta em um lance parecido e o lance é marcado. Acontece pela fama que criaram e botaram em mim, mas eu também tenho culpa por isso.
Terra - E os zagueiros adversários, eles também têm provocado mais você dentro de campo?
Kléber - Isso até que melhorou bastante, no começo eles me provocavam mais, porque achavam que eu ficaria esquentado e teria alguma reação. Mas agora está mais tranqüilo. Eu entendi que tenho que me controlar, eles perceberam isso e sabem que não vai adiantar ficar me provocando. Hoje está mais tranqüilo.
Terra - O Luxemburgo ou algum dirigente pediu para você mudar seu estilo de jogo?
Kléber - Meu estilo de jogo, não pediram para mudar, até porque todos gostam. Mas os caras conversaram comigo. O professor Vanderlei e o Toninho pediram para tomar mais cuidado para não ser expulso e acabar prejudicando o Palmeiras.
Terra - Quando você deixou o São Paulo, chegou a dizer que não queria sair, mas foi bem sucedido na Ucrânia. Ganhou dois Campeonatos Ucranianos e três Copas da Ucrânia. Mesmo assim, você preferia ter ficado no São Paulo? Tem algum arrependimento por ter saído?
Kléber - É difícil falar em arrependimento, não sei como seria minha vida se eu ficasse. Fui para a Ucrânia e foi muito bom, aprendi bastante, amadureci. Mas o meu sonho realmente era ser ídolo lá, como é ser ídolo em qualquer lugar. A gente nessa profissão quer jogar bem, ser ídolo. Não foi possível ser ídolo lá, eu me dei bem na Ucrânia e agora estou no Palmeiras. Estou muito bem aqui e espero ficar por muito tempo.
Terra - Antes de acertar com o Palmeiras, você chegou a negociar com o São Paulo a possibilidade de voltar?
Kléber - Negociar, não. Eu conversei com meu empresário sobre a possibilidade de voltar ao Brasil e disse que gostaria de jogar no São Paulo, porque eu vivi dez anos lá. Ele disse "tudo bem, vamos conversar". Quando meu procurador chegou para falar com o pessoal do São Paulo, algumas pessoas falaram..., algumas pessoas não, uma pessoa não aprovou o meu retorno e acabei vindo para o Palmeiras.
Terra - Você sabe quem é essa pessoa?
Kléber - Sei quem é, mas não gostaria de falar, faz parte da comissão técnica.
Terra - Durante esse ano, você teve alguns problemas nos jogos contra o São Paulo, principalmente com os zagueiros André Dias e Alex Silva. Mandaram você lutar boxe, você sugeriu que eles dançassem balé... Acha que isso tem a ver com o fato de ter começado lá e de o clube não ter aceito a sua volta?
Kléber - Não, de forma alguma. Infelizmente teve o lance da cotovelada com um jogador, mas eu respeito muito o clube, tenho um carinho muito grande pelo clube. Como vivi no São Paulo por dez anos, acabei criando um carinho muito grande. Mas tem jogador que chega e é só mais um passando, tem jogador que fala muito, quer aparecer. Tiveram alguns episódios que aconteceram, quiseram falar bastante e eu tive problemas com alguns jogadores. Mas não tem nada a ver com o clube, pelo contrário. Eu respeito e gosto muito do São Paulo. Foi o clube que me criou, não tem como eu falar mal do São Paulo.
Terra - O arqui-rival do Palmeiras é o Corinthians. Mas para você enfrentar o São Paulo envolve mais rivalidade?
Kléber - Eu joguei contra o Corinthians só uma vez, no Campeonato Paulista, e tem uma rivalidade muito grande. Mas por tudo que aconteceu contra o São Paulo durante o ano, com o lance da cotovelada, pelo fato de o São Paulo estar ganhando tudo e o Palmeiras ter a necessidade de mudar isso e conquistar o título, a rivalidade foi até maior. Mas o Corinthians vai subir no ano que vem e a rivalidade vai voltar a crescer, não tenha dúvida. É esperar o ano que vem para saber.
Terra - O São Paulo tem a imagem de ser um clube da elite e você veio da periferia. Teve algum problema neste sentido no começo da carreira?
Kléber -No começo, eu não me sentia bem, porque você vem do bairro pobre e a maioria dos meninos é do clube social e tem mais condição. O pai buscava, a mãe levava. Então o assunto não batia muito, eu até fiquei um tempo sem treinar. Depois voltei e foi tudo bem.
Terra - O Denílson, seu companheiro de clube, também começou no São Paulo, tentou voltar e foi vetado. Ele fala abertamente da mágoa que ficou em relação a isso. Você também tem algum tipo de ressentimento com o São Paulo?
Kléber -Não, pelo contrário. Sou muito grato por tudo que o São Paulo fez por mim. Como eu disse, fiquei dez anos lá, é difícil não gostar do clube. Tive problemas com pessoas que nem são ligadas, são jogadores emprestados, funcionários. Com o clube e com os torcedores, não tem problema. Eles me vêem na rua, me parabenizam pelo bom futebol e por tudo que está acontecendo na minha carreira.
Terra - Mas você teve um problema com um torcedor são-paulino em uma casa noturna de São Paulo. O que realmente aconteceu?
Kléber - Foi um são-paulino de uma torcida organizada que estava alterado, tinha tomado um pouco. Tivemos uma desavença do lado de dentro, fomos para fora e acabamos discutindo e brigando, mas já passou também.
Terra - Em alguns momentos da entrevista, você falou como se sua permanência na próxima temporada já estivesse acertada, mas o empréstimo termina no final do ano. Acha que tem chance de ficar no Palmeiras em 2009?
Kléber -Tenho vontade de ficar no Palmeiras no mínimo até a Libertadores, não me vejo agora fora do Palmeiras. Infelizmente, não pertenço ao clube, mas sim ao Dínamo. Tenho que continuar trabalhando independente de qualquer coisa. Se surgir a chance de compra definitiva ou renovação do empréstimo por um período maior, vou ficar muito feliz.
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Redação Terra
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Caetano Barreira/Foto Arena/Gazeta Press
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