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Exclusivo: Felipão diz que comprometimento definirá volta de Ronaldinho

8 jan 2013
14h08
atualizado às 15h29
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Um Luiz Felipe Scolari cauteloso, mas ao mesmo tempo elucidativo em questões importantes sobre a Seleção Brasileira. Educado e muito calmo, possivelmente inspirado pela atmosfera que encontrou em Zurique, na Suíça, na véspera da Bola de Ouro da Fifa. Felipão atendeu o Terra para uma longa entrevista exclusiva, de aproximadamente 40 minutos, em que questionou as críticas a seus chefes, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, mas especialmente tocou sobre sua área, a técnica. 

Felipão concedeu entrevista ao <strong>Terra</strong> na véspera do prêmio Bola de Ouro da Fifa
Felipão concedeu entrevista ao Terra na véspera do prêmio Bola de Ouro da Fifa
Foto: Dassler Marques / Terra

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O comandante do pentacampeonato mundial foi sincero e direto a respeito de Ronaldinho, um dos nomes mais cotados para a primeira convocação de Felipão, em 22 de janeiro, para amistoso contra a Inglaterra. O comprometimento, segundo ele, deverá ser fundamental para que o jogador do Atlético-MG entre no radar para jogar sua terceira Copa do Mundo. A clareza de Luiz Felipe Scolari também apareceu no assunto Carlos Alberto Parreira. Nosso entrevistado admite que, o nome de seu chefe, foi uma indicação dele próprio. 


Felipão ainda deixa claro que deverá seguir linha diferente, mais tranquila, em especial na relação com a mídia e os torcedores. No retorno ao Palmeiras, por exemplo, ele voltou a ter atrito com repórteres, algo que não deseja na Seleção. Até por isso, admite o treinador, a opção por Carlos Alberto Parreira. "Ele é mais bem aceito pela imprensa que eu", diz sobre o coordenador técnico. Abaixo, confira o que de melhor Luiz Felipe Scolari declarou ao Terra:

Terra - Você ainda não vestiu o agasalho de treinador da Seleção Brasileira novamente. Mas já se sente no cargo? Já sente a responsabilidade?
Luiz Felipe Scolari (Felipão) -
Já. Logo depois de assumir a Seleção. Naturalmente que foi um pouco diferente daquilo que eu imaginava, o mês de dezembro não foi o melhor mês para montagem total do que a gente precisava. Mas a gente já implementou aquilo que mais ou menos era nossa ideia, minha, do Parreira e da comissão técnica, e naturalmente a partir dali, quando as coisas começaram a fluir normalmente após aquilo que idealizamos e passamos à direção, a partir daí sim me senti mais à vontade e em condição de tocar o projeto à frente. 

Terra - O que já pôde observar em relação aos últimos jogos da Seleção e o que podemos esperar sobre ideia de time?
Felipão - Não te digo nada sobre a Seleção porque vai ser uma análise que vamos fazer com o tempo, com os jogos, dados que vamos coletar com a pessoa que vai trabalhar conosco nessa área, mais ou menos já definida, e o que fizemos e já coletamos desde que o Parreira e eu assumimos, que a gente começasse a olhar todos os jogos possíveis, todos nomes possíveis de convocação, para que a gente já iniciasse 2013 com pleno conhecimento daquelas pessoas que queremos convocar, do que queremos fazer. Da minha parte e da comissão técnica, estamos olhando muito o que está acontecendo nos jogos fora do Brasil, porque ficou prejudicada (a parte do Brasil, sem partidas) em dezembro. Conversamos sobre nomes que estão atuando fora, possibilidades, e vamos definir um pouco daquilo que pretendemos na primeira convocação. 

Terra - A saída do Mano pegou a imprensa de um modo de geral surpresa porque havia a ideia de que o time havia evoluído desde a Olimpíada. A saída do Mano e o convite, do jeito que aconteceu, foram surpresas para você?
Felipão -
Surpresa...foi uma situação estudada pela direção da CBF. Pelo que eu tive contato com o presidente Marin e com o vice-presidente Marco Polo, eles entenderam que o ideal nesse momento era essa troca e formalizaram a mim um convite. Claro que, no primeiro momento, imaginei o porquê, ou a ideia que me foi explicada normalmente, que era uma ideia diferente que o Marin e o Marco Polo tinham em mente, de colocar a Seleção de uma forma assim e assim, e que o nome indicado dentro do que eles imaginavam seria eu. Eu disse, bom, (está) dentro do trabalho que mais ou menos nós queremos, e assim seguimos esse caminho. Me enquadro perfeitamente nessa ideia, então aceito e vou trabalhar. Não posso dizer que é uma surpresa porque eu não conhecia o que pensavam os dirigentes da CBF anteriormente à minha chegada.

Terra - Vou fazer uma colocação e você pode dizer se concorda em responder. Há uma descrença geral, da imprensa e das pessoas, sobre o presidente Marin e Del Nero. Você sentiu confiança...
Felipão - (interrompe) Depende do que você diz descrença...

Terra - Da forma como chegaram até a presidência da CBF. O presidente Marin também comete deslizes em declarações, havia dito uma coisa e fez outra...
Felipão -
(interrompe) Sobre o quê?

Terra - Sobre seu antecessor, o Mano. Você sentiu confiança nos dois?
Felipão - O que combinei com eles, o que falei a eles e eles comigo, 100% definido. Existe o estatuto da CBF e não deve ter sido mudado, provavelmente dizia que o presidente tal assumiria na saída do presidente tal. Mesma coisa no Brasil. Se nossa presidente deixa o cargo, alguém vai assumir no lugar dela. Tem uma hierarquia. Assim também é a CBF e não precisa ser eleito. Discordo da colocação, me parece que a imprensa está querendo fazer colocação política e aí não me envolvo, não quero saber de nada, do aspecto político, porque às vezes se mistura. 

Terra - O combinado com você foi cumprido, é isso?
Felipão - É analisar se é bom presidente, se faz trabalho certo, se é correto. Não posso falar absolutamente nada a não ser que, aquilo que falei com eles, foi totalmente oficializado. A mim é uma surpresa e um pouco estranho, misturam algumas coisas, então não quero entrar nesse mérito. Meu negócio é campo. Tanto é campo que, efetivado, fiz a solicitação que queria alguém fora de campo e que não fosse eu a discutir assuntos fora de campo. Parreira! Contrataram, está lá e foi ótimo.

Terra - Você pediu a contratação do Parreira?
Felipão - Já falei sobre esse assunto e, se forem buscar nos jornais, em 2006, quatro anos depois da Copa, quando uma vez entrevistado, eu disse que, se voltasse à Seleção, gostaria de trabalhar um dia com o Parreira. O Parreira faria o trabalho de organização fora de campo e eu teria meu resguardo. Acho ele uma pessoa com uma forma de trabalhar e tratar com a imprensa diferente da minha, penso que ele é mais bem aceito pela imprensa que eu. Ele também tem uma imagem fantástica, perante a Fifa, já foi a seis ou sete Copas e, portanto, seria uma ótima. Marin e Del Nero entenderam assim e colocaram o Parreira.

Felipão pediu a contratação de Parreira (Foto: Daniel Ramalho/Terra)

Terra - Foi passado por Marin e Marco Polo, a você e Parreira, que tipo de equipe eles gostariam, o estilo, foi passado algo assim? Mesmo sobre comportamento. 
Felipão - Nada disso. Foi dada a liberdade de escolha, maneira de trabalhar em grupo, como gostariam que naturalmente a Seleção se comportasse dentro e fora de campo no sentido de equipe unida, ambiente do torcedor com a Seleção e tudo mais. Nunca foi falado por parte do presidente, do vice-presidente, qualquer coisa em relação a nomes ou qualquer coisa assim. Apenas como nos comportaríamos, o organograma da CBF como era e se a gente trabalharia dessa forma. 

Terra - Logo ao voltar ao Brasil, você tem uma série de reuniões para tratar sobre a primeira convocação. Sem falar em nomes, mas o que devemos esperar? Muitas mudanças, mais jogadores experientes, jogadores mais competitivos?
Felipão - Vamos estudar os nomes. Já fizemos uma pré-listagem e nela estamos observando. Temos que procurar saber com os treinadores que vão iniciar os campeonatos, como se comportaram os jogadores que queremos na pré-temporada, se estarão nos primeiros jogos do ano ou não. Vamos ter que analisar com o preparador físico, nosso médico, o doutor Runco, se podemos correr algum risco, se devemos deixar de lado dois ou três jogadores na primeira convocação pelo início da pré-temporada mais tarde. Vamos estudar a partir do dia 12, 13 ou 14 até convocar. 

Terra - Meu dever de jornalista é perguntar, você responde como preferir. Já se definiu a volta do Ronaldinho à Seleção?
Felipão - O que tenho pensado de Ronaldinho, de A, de B ou de C, é igual os outros todos. Todos jogadores brasileiros que estão no Brasil ou fora do Brasil, que têm 14, 15, 18 e 20 anos, 30, 37, 38 e 40 anos, todos que entendemos que possam fazer parte do grupo, com condições de serem ativos para o grupo, produzirem para o grupo, vão ser chamados. Não temos um nome escolhido ainda. Temos pré-listados praticamente 40 nomes e vamos observando, discutindo. 

Terra - O Ronaldinho foi ponta esquerda pelo Barcelona, Milan e Flamengo. No Atlético-MG, você certamente observou, ele joga como um armador. Como vê o Ronaldinho hoje?
Felipão - Ele é craque. Sabe jogar pelo lado esquerdo, por dentro, se você colocar na direita vai render. É um jogador que trabalha em qualquer função com muita qualidade. O comprometimento vai dizer quem vai ser convocado ou não. Pode ser que, para uma competição, no final, (eu tenha que) trazer um ou outro jogador que complemente o espírito da equipe. Mesmo que não tenha a qualidade técnica de A, de B ou de C, mas que tenha comprometimento. 

Terra - O Kaká retornou bem à Seleção, mas vive uma fase de poucas oportunidades no Real Madrid. Como você vê a situação dele? Aliás, você foi o primeiro a convocá-lo. 
Felipão - Vai ser analisado também. Vamos buscar informações, ter o diálogo com os clubes, os treinadores dos clubes, as dificuldades que o treinador enfrenta para escalar ou não escalar. Falar com o jogador para saber como se sente e por que isso ou aquilo, para sabermos como vamos nos comportar. Não tenho palavra de incentivo ou de não porque ainda é muito cedo para fechar alguma coisa. 

Terra - A gente fica imaginando como vai ser seu time, o sistema tático...o David Luiz tem jogado bem como volante no Chelsea. Muita gente falou que ele vai ser o Edmílson da Copa de 2002. Como você vê o David como volante?
Felipão - O primeiro jogo em que atuou assim, no Japão, no Mundial, foi muito bem. Nos últimos jogos tem atuado quase como um terceiro zagueiro porque jogam Cahill e Ivanovic e ele fica mais à frente, mas para testar e colocar um jogador na posição, vamos observando no clube e depois com o tempo, vamos ter dois ou três sistemas táticos para mudar durante o jogo, e estamos vendo que é uma boa opção. É boa opção. 

Terra - Existe uma discussão se é bom sair ou não do Brasil para a Europa, mas temos um jogador em caminho inverso. O Pato, que ainda é jovem, volta para o Corinthians. Como você vê essa situação toda sobre o Brasil e o exterior?
Felipão -
Discuto um pouco isso, porque sempre vou valorizar o trabalho feito na base do Internacional e dos outros clubes, que dão consistência aos atletas. Na Europa vão ter mais de organização e consciência tática. Mas acho também que no Brasil os técnicos estão dando mais isso que antigamente. Dou um exemplo claro: o Neymar hoje no Santos é um jogador quase completo pelo trabalho também do Muricy. Ele colocou um espírito de marcação, de colocação em campo, que taticamente dificulta o adversário. 

Terra - O Mano tinha a preocupação em diminuir o peso dos mais jovens. De um tempo para cá, voltaram Kaká, Ramires, o Paulinho ficou titular. Você também vê dessa forma, da Copa, pelo que aconteceu na Olimpíada em que o time sentiu a responsabilidade?
Felipão - Quando o Santos foi campeão da Libertadores, quem carregou o Santos? Foi o Neymar. Com 19 anos. Não tinha pressão nenhuma porque é o estilo de jogo dele. Não é porque tem 35 anos que é experiente para carregar. Pode ser que um de 19 ou 20 anos saiba, em momentos decisivos, ser superior a um experiente. Claro que a experiência é muito boa, se puder dividir as responsabilidades, dar mais tranquilidade a quem mude o jogo, acho ótimo. Mas não acho que, "nossa", a gente precisa de jogadores de 30 e poucos anos. Vamos olhar se um de 20 não tem essa capacidade. Também há bons jogadores de 31, 32 ou 33, que podem jogar a Copa do Mundo ainda tranquilamente. 
 

 

Fonte: Terra

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