Terra na Copa

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29 de maio de 2014 • 09h35 • atualizado às 09h53

Gaúcho da Copa: torcedor-símbolo vai para 7º mundial seguido

Considerado "torcedor-símbolo" da Seleção, o corretor de imóveis Clóvis Fernandes, 59 anos, mais conhecido como "Gaúcho da Copa", se prepara para acompanhar seu sétimo mundial seguido

O corretor de imóveis Clóvis, mais conhecido como "Gaúcho da Copa", vai para seu sétimo Mundial seguido, dessa vez em casa
Foto: Arquivo Pessoal

Dentro de campo, o alemão Lothar Matthäus e o mexicano Antonio Carbajal são os únicos jogadores que estiveram presentes em cinco edições da Copa do Mundo. Fora das quatro linhas, contudo, há um personagem que, apesar de nunca ter pisado no gramado, já ultrapassou essa marca. Desde 1990, quando a Itália sediou o evento, Clóvis Fernandes, 59 anos, viaja aos países-sede para acompanhar a Seleção e colecionar histórias - ele já comprou um carro no Japão e trocou por um PlayStation antes de voltar para casa. Neste ano, o Gaúcho da Copa, como é conhecido, pretende torcer das arquibancadas mais uma vez: será seu sétimo Mundial consecutivo.

"Fui atrás de um sonho. Todo brasileiro quer participar de uma Copa do Mundo. Muitos terão a chance na próxima, porque será em casa", afirma o torcedor, que por causa desse fanatismo pela Seleção conheceu 66 países. Nas seis edições em que participou, Clóvis garante que sentiu emoções diversas. Presenciou, por exemplo, a categoria do craque Zinedine Zidane acabar com o sonho do pentacampeonato brasileiro em 1998, mas também viu de perto o título chegar com o ressurgimento do fenômeno Ronaldo em 2002.

Primeira Copa de Clóvis foi a de 1990, na Itália
Foto: Arquivo Pessoal

O começo da "irresponsabilidade"
Foi durante a Copa de 1970, a primeira edição transmitida a cores pela televisão brasileira, que o então adolescente Clóvis traçou o objetivo. "Ainda assistirei a uma Copa ao vivo e a cores. Se Deus quiser, farei isso. E o 'velhinho' quis muito", relembra da promessa feita em meio à euforia criada pela conquista do tricampeonato da equipe brasileira, liderada por craques como Pelé e Rivellino.

Vinte anos se passaram. Veio a Copa do Mundo de 1990 e, com ela, o início da "irresponsabilidade". À época dono de uma pizzaria na capital gaúcha, Clóvis deixou o trabalho em segundo plano para seguir, como um marcador implacável, a seleção canarinho. "Eu me tornei um grande irresponsável. Passei a ver o trabalho não como a coisa mais importante da minha vida", revela.

Pelo fato de não conseguir conciliar trabalho e jogos da seleção, Clóvis vendeu a pizzaria para o irmão, que já trabalhava com ele. Desde a Copa realizada na Itália, bombacha, lenço, chapéu e botas fazem parte do vestuário do gaúcho nas viagens.

Movidos pela paixão 
"Quando resolvi não sonhar sozinho, convidei meus amigos". A fala de Clóvis resume o motivo que o levou a fundar o Gaúchos na Copa, grupo que se reúne para viajar e acompanhar a Seleção Brasileira em Copas do Mundo. Porém, os fanáticos torcedores tomaram uma decisão: não ficar esperando quatro anos até que uma nova edição do torneio ocorra. Então, o grupo também acompanha o Brasil em competições como a Copa das Confederações, Copa América e Olimpíadas. "Os custos de viagem são caros, e nem todos os integrantes têm disponibilidade de tempo para me acompanhar. Por isso, o grupo sempre se renova", diz Clóvis.

Gaúcho da Copa posa ao lado do alemão Franz Beckenbauer
Foto: Arquivo Pessoal

Ao chegar ao país-sede da competição, o Gaúcho da Copa e os amigos alugam um carro. Ou seja, nada de avião para o deslocamento até as cidades nas quais os jogos do Brasil ocorrem. A partir disso, o grupo sai pelas rodovias, conhece pontos turísticos e diferentes culturas.

Apenas em uma oportunidade ocorreu algo "diferente". Durante a Copa do Mundo de 2002, na Coreia do Sul e no Japão, o grupo mudou os planos e comprou um automóvel. "Dirijo em qualquer lugar do mundo. Minha carteira é internacional. Mas, no Japão, o seguro não cobre o valor de um carro alugado. Então, contamos as moedas e descobrimos que tínhamos dinheiro para comprar um automóvel", explica o gaúcho.

A competição terminou com o pentacampeonato brasileiro, e Clóvis viu-se obrigado a dar um destino à aquisição. "Troquei o carro por um PlayStation, que dei de presente para meu filho. É sério", recorda.

Ásia: título, reconhecimento e prato indigesto
O ano de 2002 foi especial para o Gaúcho da Copa não só pelo título brasileiro e por ter visto Ronaldo se destacar ao longo da competição. Com os olhos brilhando, Clóvis relembra um fato que lhe trouxe grande reconhecimento: a Fifa o escolheu como torcedor-símbolo do torneio realizado em solo asiático. "Conquistei espaço na mídia. De repente, a televisão passou a mostrar um bigodudo com uma paixão enorme de acompanhar a Seleção e divulgar a cultura do Rio Grande do Sul", disse

Mas nem tudo foram flores. Ao longo da competição, ele experimentou iguarias da culinária local com seis colegas torcedores que o acompanharam. E Clóvis não guarda boas recordações de um prato em especial: carne de cachorro. "Foi uma vez só e nunca mais. Prefiro o bom churrasco. A carne de cachorro não tinha gosto de nada, até porque comemos com outras coisas para misturar e ver se tinha como engoli-la", relembra.

Surpresa africana
Antes de 2010, críticos colocavam à prova a capacidade sul-africana de organizar um Mundial. Para Clóvis, entretanto, apesar de a Seleção não ter vencido a competição, essa Copa trouxe inúmeras surpresas. "A África do Sul é o país para o qual tenho vontade de voltar. Foi uma bela surpresa", analisa.

A empolgação de Clóvis foi tão grande que ele e os integrantes do Gaúchos na Copa permaneceram por 45 dias no país de Nelson Mandela no período da Copa das Confederações, em 2009, e por mais 80 dias no ano do Mundial.

De arrepiar
Agora, o Gaúcho da Copa já está se preparando para cruzar as rodovias brasileiras e acompanhar os jogos da Seleção. O aquecimento para as viagens ocorreu no ano passado, ao longo da Copa das Confederações. Segundo ele, a infraestrutura rodoviária brasileira não está tão ruim. "Será possível acompanhar de carro os jogos do Brasil na Copa. Se eu acompanhei cinco jogos em 15 dias (na Copa das Confederações), é possível assistir a sete durante 30 dias de Copa do Mundo. Porém, sempre respeitando os limites de velocidade", diz.

Gremista, gaúcho quer que, após sua morte, suas cinzas sejam jogadas parte na Arena do Grêmio, parte em um jogo da Seleção
Foto: Arquivo Pessoal

O torcedor mostra-se empolgado ao relembrar as vitórias do time de Felipão no torneio realizado em 2013. Com um sorriso no canto dos lábios, resume o que foi a Copa das Confederações para ele: "foi de arrepiar os cabelos da alma".

Clóvis Fernandes hoje é corretor de imóveis. Segundo o gaúcho, torcedor do Grêmio, as viagens realizadas ao redor do planeta foram possíveis graças à compreensão de pessoas próximas, como a esposa Débora e os quatro filhos. "Se um dia eu morrer em uma arquibancada, não me enterrem. Me deixem lá, pois estarei muito feliz. Mas serei cremado, e meus filhos sabem que devem largar um pouquinho das cinzas dentro da Arena do Grêmio e, depois, em um grande jogo da Seleção Brasileira", revela o torcedor.

Material produzido sob a supervisão da professora Anelise Zanoni 

Unisinos Universidade do Vale do Rio dos Sinos