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1954: da festa nas Eliminatórias à pancadaria no adeus

2 abr 2010
13h03
atualizado às 14h58
Júlio Simões

As feridas da traumática derrota de quatro anos antes, sofrida para o Uruguai diante de um Maracanã lotado, ainda estavam abertas em 1954, quando o Brasil teve novo compromisso pela Copa do Mundo. Com a pressão de ter deixado escapar o título em casa, a Seleção foi à Suíça com mudanças no grupo de jogadores, na comissão técnica e até mesmo no uniforme. Tudo para tentar diminuir o trauma do Maracanazzo.

No elenco, a Seleção Brasileira sofreu uma renovação profunda se comparado ao Mundial de 1950. Tanto que apenas seis jogadores que estiveram na Copa anterior foram mantidos pelo novo técnico, Zezé Moreira: Bauer, Ely, Castilho, Nilton Santos, Baltazar e Rodrigues. Apesar da desconfiança, o novo time foi conquistando a torcida já nas Eliminatórias, onde terminou em primeiro lugar do grupo, com duas vitórias contra o Chile e duas contra o Paraguai.

Já no uniforme, até então predominantemente branco, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e o extinto jornal Correio da Manhã promoveram um concurso para escolher o novo fardamento brasileiro. A regra principal do projeto, realizado em 1953, era uma só: o uniforme deveria ser desenhado com as quatro cores da bandeira brasileira (verde, amarelo, azul e branco), provavelmente com a intenção de aumentar a identificação do time com o país.

Ao todo, o jornal recebeu o projeto de aproximadamente 300 candidatos e contemplou um: o gaúcho Aldyr Schlee, na época estudante de direito e desenhista. Como prêmio, o jovem de 19 anos recebeu uma quantia em dinheiro ("dava para comprar um carro novo de baixo custo"), um estágio no Correio da Manhã ("fiquei seis meses lá") e uma cadeira cativa no Maracanã ("nunca usei e perdi quando houve uma renovação"). Além disso, teve a chance de conviver um período com a Seleção durante as Eliminatórias. E foi aí que o jovem Schlee se surpreendeu.

"Durante as Eliminatórias e quando a camisa estreou, eu estava junto aos jogadores. Primeiro em São Januário, depois na mansão onde o Flamengo se concentrava. Havia muita festa, muita alegria. Depois eu não fui até a Suíça e não vi o vexame que o Brasil deu, inclusive com conduta disciplinar condenável dos jogadores", lembrou o gaúcho em entrevista ao Terra, referindo-se ao jogo contra a poderosa Hungria nas quartas de final, quando a partida terminou em pancadaria.

Em campo, o Brasil não foi páreo para o time de Puskas e perdeu por 4 a 2, em partida com três expulsos - Nilton Santos e Humberto entre os brasileiros e Bozsik do lado húngaro.

O clima quente no gramado se estendeu até os vestiários, onde uma garrafa de água arremessada em Puskas atingiu o zagueiro Pinheiro e deu início a uma batalha campal que envolveu jogadores e membros da comissão técnica. O episódio ficou conhecido posteriormente como "Batalha de Berna".

Schlee, que não foi até a Suíça por opção, não se arrepende de ter perdido a estreia da camisa que havia desenvolvido.

"Eu tinha só 19 anos de idade e fiquei muito intimidado com tudo aquilo. Preferi ficar desfrutando de parte do prêmio que eu tinha ganhado no Rio. Achei que era melhor para mim, já que eu tinha ficado um pouco decepcionado com o contato que tivera com os jogadores e com a comissão técnica", contou o jornalista e escritor, que vive hoje na região de Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul.

A tal "decepção" citada por Schlee aconteceu nos dias em que esteve na concentração da equipe durante as Eliminatórias. Lá, o escritor conta que viu muita coisa que pode - ele prefere não julgar - ter atrapalhado a Seleção.

"Lá, ficava cada um na sua. Os que gostavam de jogar carta, passavam o dia jogando. Mas lá embaixo, os copeiros e os garçons de São Januário arranjavam mulheres para ir aos quartos de tarde. O Mário Américo (massagista) cuidava para que ninguém descobrisse, mas o Zezé Moreira (técnico) descobria e agredia os jogadores. Era uma coisa muito séria", disse ele, rindo do episódio.

Mas será que a indisciplina atrapalhou mesmo o desempenho na Suíça?

"Nunca tirei isso a limpo, mas os jogadores que já morreram, e até os que ainda estão vivos, não merecem que eu fale sobre as coisas que eles faziam. Então, melhor deixar para lá", desconversou o gaúcho, que agora mede as palavras.

"Acontecia muita coisa, tinha gente que fugia da concentração, tomava um porre, quebrava o nariz e aí diziam para a imprensa que ele não podia jogar porque tinha caído no banheiro. Era impressionante, uma bagunça", acrescentou.

Porém, o que mais lhe marcou naquela temporada em que ficou ao lado dos jogadores foi outro momento: uma conversa ao pé do ouvido com Zizinho durante a apresentação do uniforme criado por Schlee. Estavam presentes também os jogadores Ademir de Menezes, Rubens, Pinheiro e Nilton Santos.

"É verdade que eu era um guri e ninguém podia me levar muito a sério, não seria para mim que eles iriam contar confidências, mas eu tenho uma passagem muito importante que me ensinou muito sobre futebol", recordou o gaúcho, antes de contar o ocorrido.

"Estes jogadores se perfilaram para os fotógrafos diante de mim e eu tremia que era uma loucura. Estava completamente intimidado, acho que até bati queixo de tão nervoso vendo aqueles caras que, embora não fossem do meu time de coração, eram ídolos. Lembro que me davam o calção e a camiseta para entregar a cada um dos jogadores e, na vez do Zizinho, ele me disse assim: 'não esquenta, isso tudo é uma m...'. Isso foi muito importante, uma grande lição que tirei do futebol", afirmou ele, lembrando que, por divergências com a CBD, o meio-campista acabou não sendo convocado para aquele Mundial.

Didi marca na goleada por 5 a 0 sobre o México, em partida da primeira fase da Copa de 1954, disputada na Suíça
Didi marca na goleada por 5 a 0 sobre o México, em partida da primeira fase da Copa de 1954, disputada na Suíça
Foto: Getty Images
Fonte: Especial para Terra
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