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1962: sem Pelé, Brasil conquista a "Copa de Garrincha"

18 abr 2010
10h18

Emanuel Colombari

Se o Brasil conquistou o bicampeonato mundial na Copa do Mundo de 1962, deve grande parte deste feito a Mané Garrincha. Ascendente em 1954, quando nem mesmo foi ao Mundial, e genial em 1958, o astro botafoguense viveu seu auge com a camisa da Seleção Brasileira no torneio realizado no Chile, no qual marcou quatro gols. Mas Manuel Francisco dos Santos viveu uma fase de astro também fora dos gramados ao lado de Elza Soares, que estava em plena ascensão de sua trajetória nos palcos.

"Minha carreira estava ótima, começando uma fase ardente, com grandes sucessos e morando bem. Estava no início de uma carreira muito boa, ganhando dinheiro e trabalhando bem", contou Elza Soares ao Terra. "Estava mais do que bem. Eu estava em todas as paradas de sucesso. Quem não estava bem era o Mané", completa a cantora, então em fase de aproximação do craque.

Elza vinha de sucessos como "Se Acaso Você Chegasse", "Cadeira Vazia" e "Boato". Em 1961, com a gravação de seu segundo disco, "A Bossa Negra", ganhou também a simpatia da então Confederação Brasileira de Desportos, que a escolheu para acompanhar a delegação que iria à Copa do Mundo do Chile no ano seguinte.

"Fui convidada para ser madrinha da Copa. Mas não fui pelo Mané, fui pela Seleção. Um grande empresário que morava no Uruguai, chamado Edmundo Klinger, foi quem me convidou. Pensei que seria para batizar (a Copa) mesmo, não tinha noção", conta Elza, que se divertiu com a experiência. "Achei maravilhoso ser madrinha de uma Copa. Sou flamenguista, e todo flamenguista é meio dodói. A gente ama demais. Brasileira como sou, e sendo convidada, é porque estava no auge, né?"

Com a Seleção, mas não ainda com Mané Garrincha, Elza Soares acompanhou boa parte das emoções reservadas ao Mundial. Fora de campo, viu um país reconstruído após sofrer o maior terremoto já registrado na história - em maio de 1960, os chilenos foram sacudidos por um tremor de terra de 9.5 graus na escala de magnitude de momento. Em campo, viu a Seleção perder Pelé logo em seu segundo jogo no torneio, contundindo-se no empate por 0 a 0 contra a Checoslováquia em Viña del Mar.

A opção do técnico Aymoré Moreira para as partidas seguintes foi escalar Amarildo, esperando repetir o sucesso da dupla no Botafogo. Logo em sua estreia, diante da Espanha, Amarildo marcou dois gols e ajudou o Brasil a vencer os espanhois por 2 a 1. Daí em diante, os dois se tornaram protagonistas dos gramados chilenos. Nas quartas de final, 3 a 1 sobre a Inglaterra, com dois de Garrincha. Nas semifinais, 4 a 2 sobre os chilenos, com dois de Garrincha e dois do palmeirense Vavá.

Contra os chilenos, porém, um problema dos grandes: Garrincha foi expulso já no final da partida. O Brasil já estava na final, mas a expectativa era imensa. Seria possível vencer a decisão sem Pelé e sem Garrincha? O bicampeonato, que o camisa 7 havia prometido a Elza Soares já no Chile, seria possível?

Mas Garrincha foi absolvido, e a notícia foi dada ao Brasil em plantão televisivo. Na final, com grande apoio dos donos da casa, a Seleção reencontrou a Checoslováquia, e nem precisou dos gols de Garrincha, que se contentou "apenas" em fazer sua marcação de gato e sapato. Desta vez, os brasileiros venceram os checoslovacos de virada por 3 a 1, graças aos gols de Amarildo, Zito e Vavá. E o Brasil mostrava que o título conquistado quatro anos antes na Suécia não havia sido uma zebra.

Ao fim da Copa, já na volta ao Brasil, Elza Soares e Garrincha deram um maior impulso ao romance, que se tornaria um casamento mais tarde. "Tinha um concurso entre ele e um outro jogador - acho que o Bellini. O Nilton Santos foi à minha casa com o Sandro Moreyra (então jornalista do Jornal do Brasil). O que eu fiz? Comprei todas as rifas. Fiquei com todas rifas no nome do Mané", conta a cantora, sem explicar o prêmio da rifa que comprou apenas para prestigiar o amado.

Passados 48 anos da conquista do bicampeonato e 27 da morte de Garrincha, Elza ainda lamenta os rumos trágicos da vida do ponta direita da Seleção de 62. "O que mais me doeu no Mané foi o seguinte: ele era o ídolo, mas não deram nenhuma estrutura para esse ídolo. Ninguém sabia nem quanto ele ganhava. Quem fez o RG do Mané fui eu, para você ver como eram as coisas", conta.

Hoje, em tempos bem diferentes, Elza mostra paixão pela música, pelo futebol e pela Seleção Brasileira. E não esconde o otimismo com a possibilidade de mais uma conquista em 2010. "A gente é sempre animado. Acredito muito nessa rapaziada, como dizia o Gonzaguinha", garante, cantando os primeiros versos de "E Vamos à Luta". "Todo mundo que vai para lá não quer fazer feio. Depois que acaba é que você vê. Mas como todo brasileiro, rezo, faço minhas orações. Tudo pela Seleção."

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Foto: AFP
Fonte: Especial para Terra

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