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2006: Brasil fracassa, Zidane rouba a cena e Itália é tetra

9 jun 2010
23h16
atualizado às 23h39
Emanuel Colombari

A Copa do Mundo de 2006, realizada na Alemanha, ainda está fresca na cabeça de boa parte da torcida e dos jogadores do Brasil. Cercada da expectativa, a Seleção desafinou em gramados alemães e foi eliminada pela França de Zinedine Zidane nas quartas de final. No fim, depois de muita polêmica envolvendo a equipe comandada por Carlos Alberto Parreira, vimos pela TV o tetracampeonato da Itália.

Passados quatro anos da eliminação, ainda não é fácil admitir que o Brasil não vinha bem, mesmo nos jogos que venceu naquele Mundial. Na primeira fase, as vitórias sobre Croácia (1 a 0, gol de Kaká), Austrália (2 a 0, gols de Adriano e Fred) e Japão (4 a 1, com dois gols de Ronaldo, um de Juninho Pernambucano e um de Gilberto) não conseguiam empolgar a torcida como em 2002.

"Eu não estava muito otimista. Estava sentindo um clima de confusão, de estrelismo, cada um querendo aparecer, ser uma estrela solitária. Não tinha realmente muita confiança. E deu no que deu", conta o jornalista Fernando Vannucci, apresentador da RedeTV! , em entrevista ao Terra .

O Brasil vivia um ótimo momento no futebol mundial. Além de conquistar o título da Copa 2002 e de garantir o primeiro lugar nas Eliminatórias Sul-Americanas para 2006, o time ainda tinha um "problema" para Carlos Alberto Parreira: o excesso de craques. À época, ficou famoso o Quadrado Mágico, com Kaká, Ronaldinho, Ronaldo e Adriano no setor ofensivo. Com quatro dos melhores jogadores do mundo fechando a escalação, Parreira podia ter tranquilidade no ataque, deixando nomes como Robinho e Fred (então no Lyon) no banco de reservas.

As críticas começaram durante a preparação do Brasil na cidade suíça de Weggis. A Thermoplan Arena, estádio onde os jogadores treinavam, era palco de invasão de tietes. Os treinos eram acompanhados por milhares de torcedores, que compravam ingressos para as arquibancadas. E como se não bastasse a pouca privacidade, parte dos convocados se apresentou fora de forma - Ronaldo, o caso mais sintomático, ainda protagonizou uma troca de farpas por vídeo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"O time era bom, só não tinha o Ronaldo em grandes condições. Não era o Ronaldo de 2002. Talvez faltasse um pouco mais de união aos jogadores", opina Vannucci, que não acredita nos mesmos excessos por parte dos jogadores em 2010. "Hoje você não tem esse estrelismo. Temos o Kaká, por exemplo, eleito o melhor do mundo (em 2007), mas nem ele aparece como uma estrela que pensa em brilhar sozinho", acrescenta.

Antes do Mundial, quando parecia que nenhuma seleção poderia tirar seu título na Alemanha, o Brasil ainda fez dois amistosos, que pouco teriam a acrescentar tecnicamente na época: contra a seleção de Lucerna (8 a 0) e contra a Nova Zelândia (4 a 0). A torcida não gostou dos adversários e fez piada, mas teoricamente as vitórias serviriam para dar ao Brasil ritmo de jogo. Nas três partidas seguintes, já válidas pela Copa do Mundo, três novas vitórias deram ao Brasil o primeiro lugar do Grupo F, à frente da zebra Austrália.

Nas oitavas de final, em Dortmund, a seleção de Parreira talvez tenha feito sua partida mais convincente no Mundial, vencendo Gana por 3 a 0. Ronaldo, Adriano e Zé Roberto marcaram, em jogo que consagrou o camisa 9 como o maior artilheiro da história dos Mundiais - era o 15° gol do então atacante do Real Madrid, que superava os 14 do alemão Gerd Müller. Assim, o Brasil chegava ao menos com um aproveitamento otimista para enfrentar a França por uma vaga nas semifinais.

Mas eis que, assim como em 98, os franceses foram carrascos novamente. Assim como aconteceu oito anos atrás, Zinedine Zidane foi praticamente um espetáculo à parte naquele 1° de julho. Driblou Cafu, Gilberto Silva, Zé Roberto, Ronaldinho e - heresia - até deu um chapéu em Ronaldo. No fim, os franceses venceram mais uma vez, desta vez por 1 a 0 - gol do desmarcado Thierry Henry após falta cruzada para a área pela esquerda, em lance marcado pela arrumada de Roberto Carlos em suas meias.

"A França estava melhor. O desenrolar da Copa nos mostrou que o Brasil não tinha condições de ser campeão. Acho que a gente vai sofrer agora igual em 2006, mas agora o time é unido, fechado. Em 2006, não era", analisa Vannucci, já fazendo uma projeção para a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul - que, curiosamente, era o palco esperado para sediar exatamente o Mundial de 2006.

Nas semifinais, parte da torcida brasileira passou para o lado da seleção de Portugal, comandada por Luiz Felipe Scolari. Mas os portugueses também caíram diante da França com uma derrota por 1 a 0, graças a um gol do próprio Zinedine Zidane. Na decisão, os franceses enfrentariam a Itália, que vinham de vitória na prorrogação justamente sobre a anfitriã Alemanha, que era tida como a favorita à conquista do título.

Na final, o camisa 10 da França teve que dividir os holofotes com um italiano: Marco Materazzi. Zidane abriu o placar aos 7min do primeiro tempo, cobrando pênalti com absoluta frieza, mas o zagueiro empatou o placar para os italianos aos 19min, cabeceando o escanteio cobrado por Andrea Pirlo. Com 1 a 1 no marcador do Estádio Olímpico de Berlim, os dois times levaram o jogo para a prorrogação, na qual Zidane se transformou em vilão: ao cair na provocação de Materazzi, o capitão francês acertou uma cabeçada no peito do rival, o que acarretou a ele o cartão vermelho.

Nos pênaltis, a Itália venceu por 5 a 3 e conquistou seu quarto título mundial. Naquele domingo, Fernando Vannucci teve problemas para apresentar seu programa na TV - por conta de uma medicação tomada horas antes, o apresentador aparecia confuso e com a fala enrolada no vídeo. As imagens fazem sucesso até hoje na internet, mesmo a contragosto do jornalista. "Não fico preocupado com a repercussão, fiquei é com a minha saúde. Já fiz cirurgias de coração. É a minha saúde que me preocupa", resume.

A Copa da Alemanha, se não deu o sexto título ao Brasil, serviu para uma reformulação na Seleção Brasileira. Saiu Carlos Alberto Parreira, entrou Dunga. Cafu, que buscava sua quarta final seguida em Mundiais, nunca mais foi chamado. Nomes como Juninho Pernambucano e Zé Roberto, ainda que tenham saído prestigiados da Alemanha, anunciaram não terem mais a intenção de vestir a camisa amarela. Roberto Carlos ainda pensava em voltar, mas jamais ganhou nova chance. E Ronaldo, ainda fora de forma, também tem as portas praticamente fechadas com Dunga.

Ainda assim, as mudanças foram aprovadas por Fernando Vannucci, que vê um conjunto mais otimista para 2010. "Vou te falar: o grupo que eu levaria talvez nem fosse este. Mas é o grupo do Dunga. Ele conseguiu formar esse grupo, no qual ele confia e tem ascensão. Dá a impressão de que o Brasil pode até ganhar a Copa, mas vai ser sofrido. Não vai ser fácil", analisa o apresentador.

Carrasco em 1998, Zinedine Zidane passeou sobre o Brasil, mas foi expulso justamente na final da Copa
Carrasco em 1998, Zinedine Zidane passeou sobre o Brasil, mas foi expulso justamente na final da Copa
Foto: Getty Images
Fonte: Terra

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