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Badalada, Inglaterra repete antigos erros e cai precocemente

12 jul 2010
03h54
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A participação da Inglaterra na Copa do Mundo de 2010 foi só um "filme repetido" para os fanáticos torcedores do país. A equipe chegou com pinta de favorita, contando com alguns dos melhores jogadores do mundo; encontrou dificuldades na fase de grupos, mas conseguiu se classificar para o mata-mata; e foi eliminada pelo primeiro rival de peso que cruzou seu caminho, sem jamais ter apresentado um futebol convincente.

O roteiro acima descreve a passagem inglesa pela África do Sul, que acabou com a goleada sofrida para a Alemanha, nas oitavas de final, por 4 a 1. Porém, com pequenos ajustes, também poderia se referir às campanhas de 2006 (quando o time caiu nas quartas diante de Portugal), 2002 (derrota para o Brasil, também nas quartas) e até 1998 (queda nos pênaltis contra a Argentina, nas oitavas).

O futebol pobre apresentado pela Inglaterra manteve a sina recente da equipe: render abaixo do que pode em Copas. Porém, a seleção vinha em boa fase sob o comando do italiano Fabio Capello - que sucedeu Steve McClaren, demitido após não conseguir classificar os ingleses para a Euro 2008 - e fez ótima campanha nas Eliminatórias, com nove vitórias e apenas uma derrota (1 a 0 para a Ucrânia, em Kiev). O que, então, aconteceu na África do Sul?

Problemas dentro de campo...

Apesar de ter indivíduos de inegável qualidade na equipe - só para citar alguns, Terry, Lampard, Gerrard e Rooney - a Inglaterra jogou muito mal no Mundial. O time que Capello preparou em dois anos de trabalho simplesmente não conseguiu produzir um bom futebol, e muito disso tem a ver com o esquema tático do técnico italiano e a contusão do meio-campista Gareth Barry.

A geração atual de jogadores ingleses enfrenta um problema sério: não joga bem com todas as estrelas em campo. Gerrard e Lampard, dois excelentes meio-campistas, rendem mais atuando na mesma faixa de campo, com liberdade para entrar na área. Já Rooney, que fez temporada espetacular pelo Manchester United e saiu da Copa sem fazer um único gol, gosta de atuar sozinho no ataque. No 4-4-2 básico de Capello, nenhuma destas possibilidades era viável: Gerrard jogava "torto" na esquerda, Lampard atuava mais recuado e Rooney dividia espaço com Heskey ou Defoe na frente.

O equilíbrio do meio de campo era fornecido por Barry. O jogador do Manchester City não é um "volante" nos padrões brasileiros, mas é um meio-campista mais reservado, que compensa as tendências ofensivas de Gerrard e Lampard. A lesão no tornozelo do atleta pouco antes da convocação o tirou do primeiro jogo, um insosso empate por 1 a 1 com os Estados Unidos, e o fez atuar sem as melhores condições nos jogos seguintes - especialmente no massacre alemão das oitavas, quando não conseguiu acompanhar a velocidade do meia Özil.

Por fim, um fantasma que assombra os ingleses desde a aposentadoria de Peter Shilton apareceu de novo: a falta de um goleiro confiável. Depois do frango histórico de Robert Green contra os americanos na estreia, a titularidade ficou com o veterano David James, 39 anos, o jogador mais velho do Mundial - e não à toa apelidado de "Calamity James" ("James Calamidade").

As limitações do esquema de jogo inglês foram camufladas pelos adversários frágeis que foram superados nas Eliminatórias europeias. Na Copa, diante de defesas bem armadas e times taticamente ousados, como a Alemanha, os defeitos do time de Capello ficaram evidentes. Porém, é certo que o que aconteceu dentro das quatro linhas não foi o único fator decisivo para a passagem sem brilho da seleção pela África do Sul...

...e fora também

Se houve algo que a Inglaterra apresentou menos que um futebol envolvente na Copa, foi harmonia no vestiário. Muito antes de a Copa começar, em fevereiro, o primeiro golpe no "espírito coletivo" da equipe foi dado: a imprensa inglesa noticiou que Vanessa Perroncel, ex-namorada do lateral esquerdo Wayne Bridge, do Manchester City, havia tido um caso com o zagueiro John Terry - ninguém menos que o capitão da seleção.

Após muita polêmica, Capello decidiu tirar de Terry a braçadeira de capitão. Porém, o mal já estava feito: Bridge, ex-companheiro do zagueiro no Chelsea e reserva de Ashley Cole na seleção, anunciou que não defenderia mais a Inglaterra. Terry foi mantido no grupo, mas já sem a liderança que sempre havia sido sua característica.

No Mundial, depois do segundo empate seguido - 0 a 0 com a Argélia, um jogo que teve até invasão de um torcedor ao vestiário inglês depois do apito final - Terry novamente causou instabilidade nos bastidores da equipe. O zagueiro concedeu entrevista reclamando das decisões de Capello, questionando o modo como o italiano escalava o time e dizendo que o técnico mantinha os jogadores "presos" na concentração.

Ao seu estilo, Capello disse no dia seguinte que Terry havia cometido "um grande erro" ao desafiar sua autoridade. As reclamações do atleta foram desconsideradas e a Inglaterra entrou em campo diante da Eslovênia, precisando vencer. Em mais uma exibição precária, um gol de Defoe garantiu o placar de 1 a 0 e a classificação, mas não o primeiro lugar do Grupo C.

Nas oitavas, o time foi completamente dominado pela Alemanha - apesar do gol não validado de Lampard, que ultrapassou a linha do gol em 33 cm e empataria o jogo em 2 a 2, a diferença entre o futebol apresentado pelas duas seleções foi tão grande que seria difícil imaginar algo diferente de uma eliminação no fim da partida. De novo, a Inglaterra chegou badalada, não jogou bola e caiu precocemente; de novo, os talentos individuais não compensaram a falta de coesão - dentro e fora de campo - da equipe como um todo.

Goleiro Green leva um frango logo no jogo de estreia da Inglaterra na Copa de 2010
Goleiro Green leva um frango logo no jogo de estreia da Inglaterra na Copa de 2010
Foto: AP
Terra

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