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Campeã Itália erra ao apostar em "geração de velhinhos"

12 jul 2010
03h56
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Um time que contava com nove jogadores campeões mundiais quatro anos antes, mesclando em seu elenco a experiência de atletas consagrados e a juventude de boas promessas. O técnico também era o mesmo do triunfo anterior, com a bagagem extra de um título de Copa do Mundo. A fórmula tinha tudo para dar certo, mas a campanha da Itália no Mundial da África do Sul pode ser resumida em uma só palavra: vexame.

Depois de empates por 1 a 1 com Paraguai e Nova Zelândia, os ex-detentores do título mundial perderam a terceira partida para a Eslováquia, por 3 a 2, e se tornaram a única seleção campeã a cair na primeira fase da Copa seguinte por duas vezes: vencedora de 1938, a Itália também foi eliminada precocemente em 1950 (não houve competição em 1942 e 1946). Os outros países da "lista de vexames" são o Brasil (campeão em 1962, fiasco em 1966) e a França (título em 1998, queda em 2002).

Para quem acusava o time italiano de "velho", os números mostram que o discurso do técnico Marcello Lippi - que declarava que o elenco era equilibrado no quesito idade - tinha muito fundamento. A Itália tinha nada menos que sete jogadores com 25 anos ou menos, ao passo que o Brasil (este sim o time mais idoso do Mundial) só tinha três: Nilmar, Ramires e Thiago Silva.

O problema para Lippi não foi o envelhecimento dos campeões em si, mas sim a queda de rendimento da maioria deles nos quatro anos que se passaram desde a conquista do título na Copa da Alemanha. E a confiança cega nos veteranos, que formavam a espinha dorsal do time titular, mostrou-se fatal para as pretensões do pentacampeonato em 2010.

Só Pirlo se salva

Dos nove jogadores remanescentes de 2006, só dois chegaram à África do Sul com menos de 30 anos: o volante De Rossi, 26, e o atacante Gilardino, 27. Ainda tidos como promessas na campanha do título mundial, a dupla foi coadjuvante quatro anos atrás - De Rossi ficou mais famoso pela cotovelada que deu no americano McBride, enquanto Gilardino só fez um gol na Copa, exatamente contra os Estados Unidos.

Já em 2010, mais maduros e com as esperanças da Itália sobre os ombros, os dois fracassaram diante da responsabilidade. O volante da Roma sucumbiu à pressão e errou o passe que permitiu que Vittek abrisse o placar para a Eslováquia na partida que decretou a eliminação; o atacante da Fiorentina teve atuações "fantasmagóricas" e passou em branco no Mundial, perdendo até a posição de titular no terceiro jogo.

Se os dois campeões "jovens" tiveram desempenhos péssimos, o que dizer dos mais velhos? Melhor jogador do mundo em 2006, o capitão Cannavaro, aos 36 anos, foi uma sombra do zagueiro espetacular da Copa passada. Porém, sua decadência já vinha ocorrendo há alguns anos; na última temporada pela Juventus, a lentidão vista em gramados africanos já podia ser notada. Não à toa, logo após a Copa, o jogador rumou para o Al-Ahli, dos Emirados Árabes Unidos, para encerrar a carreira.

Motores da equipe sólida e agressiva que levou o título na Alemanha, Gattuso (32 anos), Zambrotta (33) e Camoranesi (33) também viviam má fase em seus clubes. Os dois primeiros nem mesmo eram titulares absolutos do Milan, enquanto o meia nascido na Argentina fez temporada sofrível pela Juventus - que terminou apenas na sétima colocação do Campeonato Italiano, mas mesmo assim teve seis jogadores convocados por Lippi.

Um deles, Iaquinta, recebeu a camisa 9 e teve a missão de apoiar Gilardino no ataque italiano em 2010, caindo mais pelas pontas - uma função que claramente não lhe agradava. Porém, aos 30 anos, a velocidade de 2006 era só uma lembrança distante. Pesado e perdido em campo, tudo o que o atacante conseguiu na Copa foi deixar evidente sua limitação técnica. Gol, só um: de pênalti, contra a Nova Zelândia.

Buffon, um dos poucos que, aos 32, mantinha a boa forma de quatro anos atrás, lesionou as costas no jogo de estreia e não entrou mais em campo. O único dos remanescentes que se salvou foi o armador Pirlo, ainda exibindo um futebol de alto nível no Milan. Porém, ele contundiu a panturrilha antes do Mundial e só entrou em campo no segundo tempo do fatídico jogo contra a Eslováquia, sem estar no melhor de suas condições físicas.

Nos poucos minutos em que esteve em campo, Pirlo mostrou que poderia ter dado à Itália aquilo de que ela mais precisou: criatividade e toque de bola. Em 2006, ele dividia com Francesco Totti, craque da Roma, a tarefa de "pensar" o jogo. Em 2010, sem Pirlo, lesionado, e sem Totti, que deixou a seleção, o time de Lippi se desmantelou.

Os jovens que não foram

Lippi foi "leal" aos jogadores que foram campeões com ele na Alemanha, mesmo com vários deles em claro declínio técnico e físico há pelo menos dois anos. Porém, é justo dizer que o treinador tentou também fazer com que atletas jovens conquistassem espaço dentro da seleção. O exemplo mais bem sucedido foi o do zagueiro Chiellini, 25 anos, que teve atuações seguras sob seu comando.

Outro jovem da Juventus que ganhou muita confiança do treinador foi o meia Marchisio, 24 anos. Este, porém, não correspondeu às expectativas - incumbido da responsabilidade de ser o meio-campista mais ofensivo do time, como foi Totti em 2006, ele se escondeu e deixou a equipe carente de qualidade. O talento que Marchisio não foi capaz de fornecer poderia ter vindo de três atletas que ficaram de fora: Cassano, Balotelli e Giuseppe Rossi.

Cassano, aos 27 anos, nem é mais tão jovem assim. Porém, para um atacante tão talentoso, é muito pouco ter somente 15 jogos pela seleção e nunca ter participado de um Mundial. O problema do jogador com Lippi nunca foi segredo: sua indisciplina e seu temperamento explosivo não agradam ao técnico. Porém, mesmo depois de duas temporadas excelentes na Sampdoria, quando pareceu demonstrar mais maturidade, o atleta foi ignorado para a Copa de 2010. Lippi resistiu à pressão por sua convocação - assim como Felipão fez com Romário em 2002 - e preferiu levar seu parceiro de ataque Pazzini, um bom centroavante, mas que pouco fez nos gramados sul-africanos.

Já Balotelli, 19 anos, é um dos poucos italianos no elenco da Inter de Milão, que foi campeã de tudo na última temporada. Filho de pais ganenses, o jovem enfrenta os mesmos problemas que Cassano enfrentou quando surgiu: a habilidade com a bola nos pés é "compensada" pelo grande desequilíbrio emocional. Porém, para uma Itália tão carente de improvisação no ataque, o garoto poderia ter sido uma ótima opção.

E Rossi, 23 anos, um atacante canhoto, veloz e habilidoso que defende o Villarreal (ESP), ficou de fora da lista final de Lippi por opção do técnico, que preferiu apostar em Di Natale, 32 anos. O veterano foi artilheiro do Campeonato Italiano pela Udinese e recebeu a camisa 10 para a Copa do Mundo. Porém, sua atuação em campo - assim como as de quase todos os seus companheiros - foi o retrato da Itália de 2010: decepcionante, arrastada e sem imaginação.

Confira os convocados de Marcello Lippi para a Copa de 2010

Os remanescentes de 2006...
Cannavaro, 36 anos
Camoranesi, 33 anos
Zambrotta, 33 anos
Buffon, 32 anos
Gattuso, 32 anos
Pirlo, 31 anos
Iaquinta, 30 anos
Gilardino, 27 anos
De Rossi, 26 anos

...e os novos jogadores
De Sanctis, 33 anos
Di Natale, 32 anos
Maggio, 28 anos
Palombo, 28 anos
Marchetti, 27 anos
Quagliarella, 27 anos
Pepe, 26 anos
Chiellini, 25 anos
Pazzini, 25 anos
Montolivo, 25 anos
Marchisio, 24 anos
Bocchetti, 23 anos
Criscito, 23 anos
Bonucci, 23 anos






















Quagliarella, caído, lamenta a eliminação precoce da Itália no Mundial da África do Sul
Quagliarella, caído, lamenta a eliminação precoce da Itália no Mundial da África do Sul
Foto: AP
Terra

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