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Desconhecida, a Coreia do Norte tenta repetir o inesperado

2 jun 2010
14h03
Jere Longman

A seleção de futebol da Coreia do Norte chegou a Johannesburgo na terça-feira para a Copa do Mundo, onde será apoiada por animadores de torcida recrutadas na China, liderada por um atacante nascido no Japão e terá seus torcedores em casa proibidos de receber cobertura de TV gerada pela Coreia do Sul, rival política que também participa da copa.

Há muita intriga em torno da equipe em geral desconhecida da Coreia do Norte. Um dos países mais fechados do mundo se abrirá apenas um pouco para participar do maior evento esportivo do planeta, enquanto sofre acusações da Coreia do Sul por ter atacado e afundado um navio de guerra do país em março, causando a morte de 46 marinheiros.

A Coreia do Norte ocupa a mais baixa posição no ranking da Fifa entre as 32 seleções classificadas para a copa, e enfrenta o difícil desafio de avançar no chamado "grupo da morte", que também inclui o Brasil, cinco vezes campeão mundial; Portugal, que foi às semifinais em 2006; e Costa do Marfim, uma potência do futebol africano liderada por um dos melhores atacantes do mundo, Didier Drogba.

No entanto, nenhuma seleção chega à Copa, que se estende de 11 de junho a 11 de julho, com maior reputação por realizar o inesperado. A última participação da Coreia do Norte em Copa do Mundo - 1966 - resultou em um dos maiores feitos da história do futebol uma surpreendente vitória por um a zero contra a Itália, cujos jogadores humilhados foram recebidos com saraivadas de frutas podres ao chegar em casa.

"Temos um grande desejo de sucesso no torneio", afirmou Kim Jong-hun, o técnico da Coreia do Norte, em breve comunicado divulgado na terça-feira.

Como esperado, ele não se referiu às tensões sérias que existem entre as duas Coreias. Em termos esportivos, Coreia do Norte e Coreia do Sul têm um relacionamento complicado desde muito antes do incidente relativo ao navio afundado. Na semana passada, o capitão da seleção sul-coreana, Park Ji-sung, disse ao jornal "Guardian", de Londres, que "talvez a Copa do Mundo permita que nos aproximemos mais da Coreia do Norte".

Os atletas das duas Coreias desfilaram juntos na cerimônia de abertura da Olimpíada de Sydney, em 2000. Mas a Coreia do Norte nem mesmo tentou se qualificar para a copa de 2002, sediada pela Coreia do Sul e Japão. Também ignorou uma oferta da Fifa, o órgão organizador do futebol mundial, para sediar uma ou duas partidas no torneio.

Na fase de classificação para esta copa, uma partida contra a Coreia do Sul marcada em 2008 para Pyongyang, a capital norte-coreana, foi transferida a Xangai, porque a Coreia do Sul insistiu em levar sua torcida, tocar seu hino e desfraldar sua bandeira no estádio, contra as objeções norte-coreanas.

Depois da derrota por um a zero contra a Coreia do Sul em uma partida das eliminatórias em Seul, no ano passado, os norte-coreanos se queixaram da má arbitragem e de alimentos contaminados, afirmando que o jogo "se transformou em um teatro de tramas e trapaças".

A recusa da Coreia do Sul de transmitir gratuitamente as partidas da Copa do Mundo para o outro lado da zona desmilitarizada, ao contrário do que fez como gesto humanitário em 2006, talvez não tenha impacto dramático.

Kim Jong-il, o líder norte-coreano, provavelmente não permitiria a transmissão ao vivo de quaisquer partidas, considerando que o time poderia ser humilhado ou alguém na torcida poderia exibir um cartaz de protesto contra o regime, disse Brian Myers, professor de estudos internacionais e especialista em propaganda norte-coreana na Universidade Dongseo, em Pusan, Coreia do Sul.

Caso a Coreia do Norte consiga de alguma maneira empatar com ou derrotar o poderoso Brasil, trechos cuidadosamente editados da partida ¿ obtidos da China, possivelmente, ou pirateados - seriam exibidos um ou dois dias mais tarde, disse Myers. As derrotas poderiam passar sem menção na mídia noticiosa controlada pelo Estado.

"Não consigo lembrar de nenhuma situação em que uma derrota da Coreia do Norte tenha sido noticiada", disse Myers em entrevista por telefone. "Ocasionalmente, eles mostram um ou dois minutos de partidas de futebol em outros países. Podem mostrar cenas de derrotas de um país que vejam como inimigo, por exemplo Japão ou Estados Unidos".

Ao contrário das antigas Alemanha Oriental e União Soviética, que viam as realizações atléticas como um sinal de superioridade comunista, o esporte na Coreia do Norte serve para estimular o nacionalismo e reforçar o culto à personalidade de Kim Jong-il, disse Michael Breen, jornalista britânico que vive em Seul e escreveu uma biografia do líder.

Isso parecia evidente quando o goleiro Ri Myong-guk anunciou que seu trabalho era "defender os portais da pátria", e o atacante Jong Tae-se, o astro do time, declarou que "se Kim Jong-il ficar satisfeito, para mim será uma honra".

Jong é um dos dois integrantes da seleção norte-coreana que nasceram no Japão. Ele é um dos atacantes mais respeitados na liga profissional de futebol do Japão, e é conhecido como "o Rooney da Coreia", por ser corpulento e certeiro nos arremates, de um modo que lembra a torcida do atacante inglês Wayne Rooney.

Há controvérsias quanto às informações sobre os ascendentes de Jong. Algumas reportagens dizem que seus pais são sul-coreanos, e que ele renunciou à cidadania da Coreia do Sul. Mas Jong disse a repórteres recentemente que sua mãe é norte-coreana e seu pai nasceu no Japão; quando menino, ele estudou em escolas patrocinadas pelo governo de Pyongyang, em Tóquio.

Depois de chegar de seu clube japonês para o início dos preparativos para a Copa do Mundo, Jong informou a jornalistas em Tóquio que seus colegas de equipe norte-coreanos estavam curiosos quanto ao seu celular, e que o aparelho foi passado de mão em mão. Ele também prometeu marcar gols em todas as partidas, acrescentando que "desejamos produzir resultados que espantem o planeta".

Sven-Goran Eriksson, técnico da Costa do Marfim, acautelou que os adversários devem se preparar para os incansáveis norte-coreanos e sua força defensiva, afirmando que "fisicamente, eles estão em melhor condição do que qualquer outra seleção, porque estão concentrados há seis meses. Estão organizados, e correm o tempo todo".

Porque muito poucos norte-coreanos têm permissão para deixar o país ou o dinheiro necessário a uma viagem para assistir à Copa do Mundo, o comitê esportivo do país recrutou cerca de mil torcedores chineses que servirão como animadores de torcida para a seleção, entre os quais atores e músicos, de acordo com a Xinhua, a agência estatal de notícias chinesas.

Caso a Coreia do Norte venha a surpreender o mundo, não será a primeira vez. Na Copa do Mundo de 1966, sua seleção, formada por soldados do exército, surpreendeu a Itália com um gol de Pak Do-ik, que ganhou o apelido de "o dentista" por conta da dor que infligiu aos italianos, francos favoritos.

A Coreia do Norte desperdiçou uma vantagem de três gols e foi derrotada por cinco a três diante de Portugal, nas quartas de final. Corriam boatos de que os norte-coreanos haviam passado a noite na farra em Middlesbrough, Inglaterra, onde a partida contra a Itália foi realizada, e que por isso foram posteriormente fuzilados ou enviados a campos de reeducação devido ao seu comportamento decadente.

Mas um documentarista britânico chamado Daniel Gordon constatou que a verdade era outra em um documentário realizado em 2002 sobre a seleção norte-coreana de 1966. Intitulado "The Game of Their Lives" o jogo de suas vidas, o filme revela que os jogadores receberam apartamentos decentes e rações melhores de mantimentos depois de sua vitória surpreendente, disse Gordon em entrevista por telefone.

"É possível que alguns jogadores conhecidos tenham terminado vítimas de expurgos de facções, mas não estou convencido de que isso tivesse alguma coisa a ver com a Copa de 1966", disse Gordon, que visitou a Coreia do Norte mais de 20 vezes. "E quanto a eles terem virado noites nos bares e com as mulheres locais, bem, não existem muitas pessoas meio coreanas na casa dos 40 anos correndo por Middlesbrough hoje em dia. Os boatos não procedem".

Com tradução de Paulo Migliacci

A Coreia do Norte já está na África do Sul se preparando para enfrentar o Brasil na estreia
A Coreia do Norte já está na África do Sul se preparando para enfrentar o Brasil na estreia
Foto: Reuters
The New York Times
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