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Erros graves reabrem discussão sobre tecnologia no futebol

12 jul 2010
04h14
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Dassler Marques

O dia 27 de junho, em particular, foi péssimo para a arbitragem da Copa do Mundo. Os homens do apito vinham razoavelmente bem até então, mas dois erros crassos em um domingo derrubaram toda a reputação construída e abriram espaço para uma velha discussão: até quando o futebol dará as costas para a tecnologia?

Pela manhã, o uruguaio Jorge Larrionda não anotou o gol legal do inglês Frank Lampard, permitindo aos alemães se sentirem vingados pela final da Copa de 1966, já que a bola chutada pelo meia ultrapassou a linha fatal por muitos centímetros. Mais tarde, o argentino Carlos Tevez fez gol em impedimento clamoroso, mas o italiano Roberto Rosetti fez vistas grossas e prejudicou o México. Enquanto discutiam com Rosetti, os mexicanos apontavam para o telão que, por descuido, mostrou o lance ilegal.

Chances de mudança

Nos próximos dias 21 e 22, o presidente Joseph Blatter e a cúpula da Fifa se reúnem em Cardiff, no País de Gales, e neste momento será possível saber se há algum avanço na velha discussão sobre tecnologia. A reunião, que ocorre geralmente uma vez por ano e já havia sido feita no primeiro semestre, foi convocada em caráter de urgência para uma nova conversa a respeito da utilização de imagens e outros recursos.

Para Sálvio Spínola, árbitro brasileiro que concorreu à Copa de 2010 e já participou de competições como Mundial Sub-17 e Sub-20, a nova assembleia pode trazer, enfim, mudanças. "Em março, a Fifa disse que não iria discutir mais sobre tecnologia. Mas quem pode mudar é o International Board, um comitê a parte. A Fifa tem direito a quatro votos e eles têm mais quatro", lembra Sálvio, que é favorável a alterações, em entrevista ao Terra .

Acontece que os votos do International Board são de quatro confederações que têm em seu DNA a invenção do futebol: escocesa, galesa, irlandesa (do Norte) e inglesa. Como a Inglaterra foi prejudicada por Larrionda e a Irlanda ficou de fora da Copa por um erro da arbitragem contra a França, Sálvio acredita que pode haver uma motivação extra na votação.

Para haver qualquer mudança na regra são necessários seis dos oito votos. Logo, nem a Fifa e nem o International Board têm autonomia para vencer a eleição sozinhos.

O último avanço da arbitragem

Nos últimos quatro anos, a Fifa submeteu todos os árbitros elegíveis para a Copa de 2010 a um rigoroso controle. Testes físicos deviam ser realizados semanalmente enquanto o juiz era monitorado por uma espécie de relógio de pulso. Já a parte técnica era submetida a questionários frequentes enviados a todos os homens do apito.

Essa monitoria, na opinião de Sálvio Spínola, reduziu ao máximo possível do ponto de vista humano a possibilidade de erros na Copa do Mundo. "Esse grupo passou por um processo realmente exaustivo. A avaliação geral que faço é boa, pela quantidade de decisões tomadas sempre no limite, principalmente com jogadas de impedimento. Se você comparar, houve uma grande evolução em relação ao ano de 2002".

Assim, introduzir a tecnologia seria a última chance de reduzir a possibilidade de marcações erradas em um esporte de jogadas tão subjetivas quanto o futebol.

Questões mais objetivas

Entre os pontos sob os quais se pode cogitar a entrada da tecnologia, há alguns mais conclusivos. O uso de imagens poderia, por exemplo, elucidar dúvidas sobre impedimentos, bolas que ultrapassem a linha fatal e agressões que não tenham sido identificadas pelo trio de arbitragem.

Sálvio é partidário da ideia de que lances dúbios, como faltas, não devem ter a interferência da tecnologia. "Acredito que deve ser usado para matérias exatas. Em lances interpretativos, você precisa manter a decisão com o árbitro", opina. Sobre o conservadorismo, ele acredita que "a Fifa até hoje não implantou pelo caráter econômico".

Esportes como tênis, basquete, futebol americano e beisebol já incorporaram a tecnologia para decidir lances duvidosos. A Fifa, entretanto, não realiza mudanças significativas na regra desde o início da década de 90. Na ocasião, vitórias passaram a valer três pontos, os goleiros não puderam agarrar bolas recuadas e o impedimento ganhou novas regulamentações.

Larrionda foi árbitro responsável pela maior polêmica da Copa
Larrionda foi árbitro responsável pela maior polêmica da Copa
Foto: Getty Images
Terra

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