7 eventos ao vivo

Ignorado por Itália e Brasil, Amauri diz: "Dunga nunca me ligou"

18 mai 2010
11h29
atualizado às 11h31

Henrique Moretti

Natural de Carapicuíba, na região metropolitana de São Paulo, Amauri Carvalho de Oliveira, ou simplesmente "Amáuri" na Itália, é cidadão italiano desde 12 de abril de 2010. Com o documento em mãos, o atacante da Juventus vislumbrava uma convocação para a Copa do Mundo, que não se concretizou. Apesar da decepção, ele nega guardar mágoas do técnico Marcello Lippi, conforme contou em entrevista exclusiva concedida por telefone ao Terra.

Ignorado pelo país para onde foi em 2000 como um "desconhecido", o jogador, revelado pelo Santa Catarina Clube, poderia ter atuado na Seleção Brasileira. Em fevereiro de 2009, chegou a ser chamado para um amistoso justamente contra a Itália, mas acabou de fora, impedido de entrar em campo pela Juventus - sua convocação veio em cima da hora e fora do prazo estabelecido pela Fifa, já que ele substituiria o lesionado Luís Fabiano.

Embora tenha sido lembrado daquela vez, Amauri avalia que nunca foi levado realmente em consideração por Dunga, o qual nunca lhe telefonou, nem quando vivia uma boa fase por Juventus e Palermo. Mais valorizado na Itália, o atacante decidiu optar pela nação europeia e não se arrepende da decisão mesmo depois das más notícias dadas por Lippi.

Atualmente em um mau momento com a Juventus, que encerrou o Campeonato Italiano em sétimo lugar e igualou seu recorde negativo de derrotas na história da competição (foram 15, como em 1961/62), esse são-paulino fanático confia em dar a volta por cima na próxima temporada, para a qual jura que não deixará Turim, onde esperar calar os críticos.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Terra - Você não foi convocado por Marcello Lippi para disputar a Copa do Mundo. Como recebeu a notícia?
Amauri - Triste. Com o Lippi tenho uma relação muito aberta, sincera, então ele me explicou tudo, disse os motivos, que o passaporte chegou muito tarde - era para ter chegado antes do ultimo amistoso (contra Camarões, em março). A decisão dele já estava no ar, tinha o grupo fechado. Não é fácil mesmo (conseguir a vaga) depois de uma temporada um pouco particular (da Juventus). Mas o fator dos campeonatos não influenciou tanto e sim o do passaporte: não tive nem a oportunidade de fazer um amistoso, ficou mais difícil.

Terra - Você então não acha que foi prejudicado pela má fase da Juventus, que não perdia 15 vezes em uma edição do Campeonato Italiano desde a temporada 1961/62?
Amauri - Infelizmente este ano como eu falei foi muito particular. Pensamos que pudesse ser o ano certo de ganhar o titulo, infelizmente não foi assim.

Terra - Apesar da crise da Juventus, Lippi tem vários atletas da equipe entre os 28 pré-convocados para a Copa: seis, incluindo o atacante Vincenzo Iaquinta, que voltou recentemente de lesão. Como avaliar isso?
Amauri - O campeonato não influenciou muito, tanto é que são muitos jogadores da Juventus convocados. Você citou Iaquinta, logicamente um cara importante. O treinador só esperava que ele voltasse a jogar. Ele voltou bem (da lesão) e já estava garantido, fazia parte do grupo.

Terra - Você considera que a sua demora por optar pela Itália pode ter atrapalhado? Jogadores como Gianpaolo Pazzini, Gennaro Gattuso e Luca Toni o criticaram, ainda que Mauro Camoranesi tenha nascido na Argentina e esteja na pré-lista para a África do Sul.
Amauri - Não conhecia muito bem o Gattuso e o Toni. São jogadores que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente, falei com eles, que ficaram sabendo muito bem qual era meu pensamento, o que estava acontecendo realmente. Tenho uma admiração pelos jogadores italianos assim como eles por mim. Se acontecer de eu ser chamado uma próxima vez, vão me receber bem.

Terra - Dunga também convocou alguns jogadores independentemente do momento por que passam em seus times, como Felipe Melo e Júlio Baptista. No ataque, Adriano ficou de fora e Grafite, que só disputou um jogo pela Seleção com o técnico, foi chamado. Chegou a pensar que poderia estar na lista do Brasil?
Amauri - São hipóteses, nunca pensei que poderia ter chegado aonde cheguei e olha o que fiz. Estou feliz e contente pela decisão que tomei. Se ele (Dunga) tivesse me levado em consideração... Mas logicamente não é fácil para o professor Dunga, que já está no cargo há três anos, criou um grupo muito forte, jogando junto há dois anos. Não sei, só Deus ia saber realmente o que poderia ter acontecido.

Terra - Em 2009, você chegou a ser convocado pelo Brasil justamente para enfrentar a Itália, em um amistoso em fevereiro de 2009. Oficialmente a versão é que a Juventus não o liberou, visto que já havia passado o prazo para a convocação. Foi isso mesmo ou naquele momento você já tinha escolhido a seleção italiana? Falou com Dunga desde então?
Amauri - O Dunga nunca me ligou. Naquela época eu não tinha o passaporte (italiano) ainda, aquela chamada chegou depois do prazo (veio em cima da hora devido ao corte de Luís Fabiano). A Juventus alegou que era um momento particular, porque tinha perdido um jogo, não vinha em grande fase. Aí decidiu não liberar. Infelizmente depois eu não fui mais chamado, acho que dali em diante a seleção (italiana) ficou mais fácil.
Esperei muito minha convocação contra Portugal (amistoso realizado em Brasília em novembro de 2008). Aquele era um dos melhores momentos da minha carreira. A Juventus tinha me comprado (do Palermo em negócio que foi avaliado em 22,8 milhões de euros e envolveu a cessão do volante Antonio Nocerino) e cheguei fazendo gols, no Brasil deu uma boa repercussão. Aquela vez falei: "acho que é desta vez". Não foi. Depois em outras convocações eu não fui chamado e dali em diante aqui na Itália estavam me considerando muito, esperando mais de mim. Aí vimos que "poxa, vou fazer 30 anos, faz 10 anos que estou na Itália". Analisei muitas coisas, aquilo que consegui, meus objetivos, e tinha essa oportunidade.

Terra - O que você achou em geral da convocação de Lippi? A imprensa italiana o cobrou muito por apostar demais na experiência do grupo campeão de 2006 e ignorar o talento de Antonio Cassano e Fabrizio Miccoli, destaques do Campeonato Italiano. Muita gente também esperava a volta de Francesco Totti.
Amauri - A convocação do Totti estava no ar. O Miccoli realmente fez um campeonato extraordinário, o Cassano também. Mas o professor Lippi já está com a seleção faz dois anos e meio. Ele fez um grupo e está levando muitos jogadores campeões em 2006 (nove desses estão na pré-lista de 28 nomes para o Mundial de 2010). Ele aposta muito neles.
Ele gosta muito do grupo, de a seleção estar unida, com a cabeça sempre ali como ele fez em 2006. Acho que a Itália tem um elenco bom e vontade de ganhar de novo. É uma das candidatas.

Terra - Também houve muita polêmica entre os chamados por Dunga. Muita gente diz que falta um reserva no meio-campo para Kaká. Qual a sua opinião?
Amauri - Eu vi a molecada do Santos (Paulo Henrique e Neymar) fazendo um campeonato realmente bom. Eles têm futuro, mas é que nem eu falei: o Dunga acredita muito no grupo e nos jogadores com quem começou, principalmente no último período da Copa das Confederações, quando já tinha em mente (os atletas da Copa). Havia algumas esperanças de haver uma surpresa - no final foi o Grafite.

Terra - Com tanto sentimento por Brasil e Itália, para quem você vai torcer na Copa?
Amauri - É como quando me perguntaram aqui na Itália naquele amistoso. Eu disse que ia torcer pelo melhor futebol (risos). Logicamente Brasil e Itália são dois dos favoritos.

Terra - Como está a sua situação na Juventus? Você tem contrato até 2012, mas só marcou sete gols em 40 partidas disputadas em 2009/10 e a imprensa já especulou que você pode sair. Alguns boatos o ligam a uma volta ao Palermo e também ao Milan.
Amauri - O Palermo tem muito carinho por mim, estará para sempre no meu coração, mas não acredito (na contratação). Não é o momento certo de voltar, não foi fácil chegar à Juventus. Logicamente vou me focar aqui, quero demonstrar meu valor, como fiz no começo (foram 14 gols nos 44 jogos da temporada de 2008/09). Só quero esquecer esse campeonato. No próximo quero arrebentar, provar meu valor para mostrar àqueles que me criticaram e que querem que vou embora. Os jornais escrevem sem saber muito o que está acontecendo realmente - não há declarações do clube, não chegou nada para mim. Muitas coisas vão mudar na Juventus (o novo técnico, Luigi Del Neri, confirmou o acerto nesta terça-feira), mas o Amauri não vai embora, é uma certeza de 99%.

Terra - Como é o seu relacionamento com Luigi Del Neri? Após não ter sucesso em Porto e Roma, ele é o homem certo para a equipe de Turim?
Amauri - Com ele tenho uma ótima relação, trabalhamos juntos em 2003 e 2004 (no Chievo). Pelo que vi, ele conta comigo, então é uma razão a mais para me motivar. Ele já está há três anos sendo consagrado, com um ótimo trabalho na Atalanta e agora com a Sampdoria, conseguindo a classificação à Liga dos Campeões. Vai ter um desafio na carreira - é como se fosse um jogador chegando a um grande clube. Mas com certeza os meios (atletas) nós temos, só falta organização de jogo, e é isso que ele vai nos dar.

Terra - Em meio a essa reformulação, na última temporada Felipe Melo e Diego foram os mais criticados depois de terem custado cerca de 25 milhões de euros (R$ 55,5 milhões) cada aos cofres da Juventus. Você acredita que os brasileiros ficarão?
Amauri - Acho que foi um tempo difícil para todos. Fala-se muito deles porque custaram mais, mas com certeza ficamos em sétimo não por culpa deles. O erro foi de todos: desde daqueles que custaram 25 milhões e também de quem está na seleção (italiana) e de quem já ganhou tudo pela Juventus. Perdeu todo o grupo, eu também não fui muito bem, não estou satisfeito. Com certeza agora que acabou vamos voltar com tudo para renascermos, como estão dizendo os jornais.

Terra - Você completa 30 anos em 3 de junho. Pensa em jogar a próxima Copa do Mundo, no Brasil?
Amauri - Vou fazer de tudo (para jogar). Ali será com certeza a última oportunidade. Mas se eu não for para essa Copa não posso reclamar - eu saí do Brasil totalmente desconhecido. Conseguir chegar aonde cheguei não é para todo mundo. Logicamente só depende mim, se eu estiver bem físico e psicologicamente.

Terra - Você é torcedor do São Paulo. Imagina encerrando a carreira atuando pelo clube?
Amauri - Não seria mau, mesmo porque no Brasil só joguei por quatro meses a Série B de Santa Catarina. Jogar em um time como o São Paulo seria ótimo. Ainda quero disputar um Campeonato Brasileiro.

Terra - A palavra "tricolor" faz parte até do seu e-mail pessoal...
Amauri - É que eu nem sou são-paulino, tá ligado!? (risos).



Fora da Copa, Amauri pensa em 2014 e fala em "renascer" com a Juventus, agora comandada por Del Neri
Fora da Copa, Amauri pensa em 2014 e fala em "renascer" com a Juventus, agora comandada por Del Neri
Foto: AFP
Fonte: Especial para Terra
publicidade