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Sexta, 23 de junho de 2006, 08h01  Atualizada às 08h04
Maior bordel da Europa bate recorde durante a Copa
 
Eliane de Carvalho
Direto de Colônia
 
Dirk Gebhardt/Especial para Terra
Cerca de 200 profissionais se dividem nos 11 pavimentos  do edifício
Cerca de 200 profissionais se dividem nos 11 pavimentos do edifício
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Quatro da tarde. Colônia. Dia de semana. O sol, escaldante desce sobre um edifício azul tomado por bandeiras na fachada. Poderia ser só mais um prédio alemão enfeitado para a Copa do Mundo, mas não é. A quantidade de mulheres que chega, uma a uma, dá uma primeira pista.

Veja a reportagem em vídeo
Confira fotos do bordel

Os corpos são malhados, as roupas justas, e elas são louras, morenas, altas e baixas. No mesmo ritmo, homens entram e saem do edifício, quase sempre de táxi, e se movimentam rapidamente. Ninguém para na porta, para um bate-papo ou para conferir o endereço.

Discreto o comportamento de quem chega ao maior bordel da Europa. Durante o período da Copa a casa recebe 1.500 clientes por dia, atendidos por 200 profissionais que se espalham por 11 andares do edifício.

Um passo para dentro e a claridade externa desaparece, dá lugar à escuridão, os olhos demoram a se ajustar. Entro discreta, um pouco intimidada, com minha câmera a tiracolo. Quatro homens altos e vestidos de preto se aproximam e um deles pergunta o que faço ali, num alemão quase inaudível por causa das tantas vozes femininas de sotaques diferentes, que se misturavam atrás dos seguranças.

A entrevista com o gerente geral do Pascha estava marcada e devidamente autorizada. Mas ele se atrasou em quase meia hora, num comportamento que destoa da pontualidade alemã.

Enquanto o anfitrião não chega, a poucos metros de distância muitas mulheres seguem em direção a uma máquina, que mais parece uma registradora de cartão de ponto.

Puxo assunto com algumas delas e logo sou surpreendida pela abertura e pela simpatia na resposta. Cecília, uma norueguesa de 26 anos, loura, com quase um metro e oitenta de altura, dona de um corpo e sorriso perfeitos, diz ter meia hora para conversar comigo, antes de se maquiar e se trocar para o trabalho.

"Sou stripper há sete anos. Gosto da sensualidade do corpo da mulher, do ritmo da música, sempre dancei muito. No começo, eu tirava a roupa de costas para os convidados. Agora, não tenho mais problema com isso. Descobri que agrado aos homens com movimentos legais, deixo a roupa cair de um jeito legal, até meu corpo ficar nu", conta Cecilia, que em agosto venceu um concurso, na Noruega, e se tornou a stripper número um de seu país.

O gerente geral do Pascha, Armin Lobscheid, chega ofegante. Pede desculpas pelo atraso e explica que precisou se desdobrar para garantir atendimento a um grupo grande de portugueses em busca de diversão na cidade, dias antes do jogo entre Portugal e Angola.

Lobscheid ouviu Cecilia me contar sobre o concurso e logo emendou com outra história. Diz que antes do Mundial, a casa organizou um concurso para eleger a prostituta com maior produtividade do Pascha. Venceu Nathalie, de 20 anos, depois de manter relações com sessenta e quatro homens numa só noite. Cecilia interrompe o gerente e informa que o negócio dela é strip-tease e que não faz programas.

A conversa termina ali e Lobscheid me leva para um passeio pelo Pascha. "Traga a câmera, mas não faça imagens dos clientes", adverte o gerente. Ele avisa que posso gravar quantas prostitutas quiser, desde que elas não se incomodem.

Ele segue na frente e eu atrás. Com o "REC" acionado enxergo, através da lente, um corredor sem fim, com paredes salmão, à meia luz, música suave e um batalhão de mulheres seminuas. Cada uma, na porta de um quarto, se insinua para a câmera e para os homens que circulam no mesmo corredor, como se olhassem mercadorias dispostas numa vitrine.

Pergunto para uma delas: "Por que há bancos com toalhas brancas penduradas na frente de alguns quartos?"

"É um aviso de que o quarto está ocupado, doçura", responde uma delas, em tom malicioso.

Lobscheid passa pelos cento e sessenta e cinco quartos do bordel e cumprimenta quase todas as duzentas prostitutas pelo nome. "Eu conheço noventa por cento delas e sei a origem de cada uma", orgulha-se o gerente, que trabalha com mulheres do mundo inteiro e exige a cópia do passaporte e situação legalizada de todas elas, na Alemanha.

Mesmo assim, nem sempre é possível evitar problemas com a polícia, que fiscaliza o Pascha pelo menos uma vez por mês. No ano passado, uma blitz com 300 policiais deteve cinco africanas com passaportes falsos. A busca encontrou armas, munição e cocaína no Pascha.

Seguimos para uma outra ala do bordel. "Essa parte é separada das demais. Aqui, ficam os travestis", explica Lobscheid.

Por instantes, o gerente sai de cena e diz que a negociação para fazer as imagens e entrevistas passa a ser por minha conta. Logo, um travesti gordo, de quase dois metros de altura, rosto maquiado, responsável pelas bebidas do bar pergunta: "O que você quer aqui? Onde vão aparecer essas imagens? Você vai nos entrevistar? O que vai perguntar?"

Entendi que apesar do porte físico assustador e o tom de voz intimidador, o ambiente estava livre para o meu trabalho. Dois travestis orientais se aproximam, vestidos só com roupas íntimas, e começam a fazer caras e bocas para a câmera.

Um deles se aproxima. Conta que se chama Omahyra e que veio da Tailândia. Pergunto se ele recebe clientes brasileiros. "Tenho clientes diferentes de todos os lugares do mundo, brasileiros também. Mas não posso falar mais do que isso, esse é o meu segredo com eles".

O gerente retorna e explica que a prostituição foi legalizada na Alemanha, em 2001. As prostitutas contam com sindicato e pagam impostos. "Não posso cobrar comissão sobre os programas. É ilegal", conta Lobscheid.

Segundo ele, a casa funciona como um hotel. Cada prostituta aluga um quarto e paga uma diária de 170 euros por dia, com taxas e impostos incluídos. Elas também consomem no restaurante, usam o salão de beleza da casa e pagam pelos serviços. Os clientes desembolsam a partir de 30 euros pelo programa standard, pagam adiantado e consomem na casa.

"Não costumo ter problemas com os clientes. Na Alemanha, uma lei determina que eles devem pagar adiantado e, diretamente, para as prostitutas. Mas quando elas têm problema, apertam um botão de alarme no quarto, um segurança sobe e resolve a situação", explica o gerente. "As prostitutas do Pascha faturam cerca de 75 mil euros líquidos por ano".

Desde maio, quarenta mil prostitutas vieram do leste europeu para aproveitar os negócios em torno da Copa. Muitas delas disputam um lugar no Pascha, que tem movimento garantido.

Uma prostituta se aproxima para conversar com o gerente, percebe que sou brasileira e puxa assunto. Ela conta que nasceu em Minas Gerais e trabalha há sete anos no Pascha. Pergunto se faz sucesso com os alemães. "Os alemães gostam muito de carinho e a gente dá". Mas logo emenda: "Há momentos bons, mas pra ganhar dinheiro tendo que fazer isso é difícil".

Esconder o trabalho da minha família é um problema. "Eu tenho filhos. Já pensou se eles soubessem o que eu faço pra ganhar dinheiro?". O sonho é voltar para o Brasil e trabalhar com pedras preciosas. Por enquanto, economiza o que ganha, e diz para a família que trabalha num restaurante.

O bom faturamento do Pascha justifica a permanência longa das pessoas na casa, mas quase todas têm problemas para assumir a profissão. Armin Lobscheid é economista e trabalha como gerente-geral do Pascha há cinco anos. "Quando decidi trabalhar aqui precisei conversar com minha mulher e meus dois filhos. Eles aceitaram minha decisão, mas muitos amigos se afastaram", lamenta. Segundo Lobscheid, o movimento da casa aumentou 75% desde o começo da Copa. Mais dinheiro, mas também mais trabalho. "Passo dezesseis horas do dia aqui. É mais que um emprego, é minha vida".

Depois de quatro horas no Pascha, já pensando em encerrar o trabalho, o gerente disse que havia preparado uma surpresa. Fui ver as estrelas strippers em ação. Lobscheid pediu aos músicos que iniciassem o show. Os clientes se aproximaram e o locutor chamou a primeira dançarina daquela noite.

Cecilia subiu ao palco e provou o "título" de melhor profissional da Noruega. A cada dez minutos, o locutor anunciava, com voz aveludada, o próximo show, e as apresentações esquentavam com o passar do tempo.

Maria subiu ao palco de saia, biquíni e fez o strip-tease mais longo daquela quinta-feira. Rebolou em um movimento frenético, causando até uma ilusão de ótica para a platéia masculina. A essa altura, o público já estava aos gritos.

A próxima stripper, depois de despida, se enroscou numa barra e demonstrou toda sua flexibilidade. Em seguida, o locutor convocou todas as dançarinas da casa para subirem ao palco de uma só vez. Enfim, a surpresa: elas apareceram com biquínis minúsculos que estampavam as cores das 32 seleções que participam da Copa.

No rebolar de tantos corpos moldados por ginástica e silicone, ficou difícil escolher o melhor ângulo para as imagens. Elas se movimentavam por todo o palco. Outra stripper, com fogos de artifícios nas mãos, deslizava de patins em frente às mesas dos clientes. Minutos depois e estavam todas nuas. Uma profusão de seios balançava no ritmo da música. Ficaram assim, se exibindo por um período que pareciam uma eternidade, até que eu gravasse cenas de cada uma delas.

Era o ponto final de um dia no Pascha. Meu trabalho terminava ali. Estava autorizada a ficar até às dez da noite, na casa, para evitar constrangimentos: o maior bordel da Europa não pode parar.
 

Redação Terra