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Seleções
Segunda, 26 de junho de 2006, 07h28  Atualizada às 02h17
Kaká: "sou íntimo de Deus"
 
Allen Chahad
Antonio Prada
Sergio Loredo
Wanderlei Nogueira
 
Marcelo Monteiro/Terra
Kaká sonha em ser capitão da Seleção Brasileira e levantar uma taça no futuro
Kaká sonha em ser capitão da Seleção Brasileira e levantar uma taça no futuro
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Aos 24 anos, Kaká não é mais apenas um "rostinho bonito", como ele próprio constata. Trocou o sorriso tímido, as frases introspectivas e olhar quase infantil que estampava na Copa da Coréia e do Japão por gestos e palavras firmes, e um fulminante olhar altivo, quase infinito, sem, no entanto, perder a ternura. Desfila nos gramados como se estivesse vestindo um Armani ao mesmo tempo em se doa como um operário sem rosto do futebol, até o último fôlego. "Saio de campo com cãibras para não ter arrependimento", diz o jogador, em entrevista exclusiva ao Terra. Kaká, que nesta terça-feira entra em campo para enfrentar Gana pelas oitavas-de-final da Copa da Alemanha, tem a unanimidade. Que nesse caso não é burra. Unanimidade entre os jogadores da Seleção, o técnico Parreira e os torcedores, mesmo os inimigos. Unanimidade não mais apenas entre as mulheres.

Líder em ascensão no grupo da Seleção Brasileira, Kaká diz que seu mote é arriscar sempre. "Eu driblo, tento fazer o gol de esquerda, tento fazer o gol de cabeça, tento fazer o gol de direita, tento dar o passe, o lançamento. Se não deu certo naquela, vou tentar outra. Uma hora que der certo é ali que vão falar. Não tenho medo de errar", confessa.

Apontado naturalmente como o futuro capitão da Seleção, Kaká já assume o desafio: "Acho que eu posso ser o capitão, mais para frente, na próxima Copa, quem sabe. Seria muito legal e aí o sonho aumenta. Já pensou levantar a Copa do Mundo, como o Cafu fez e pode fazer mais uma vez? Realmente é um sonho". Sonhos que para ele costumam ser realizados porque "Tem sido obediente à palavra de Deus". Com a bíblia na cabeceira, Kaká se nutre diariamente, respeitando as diferenças do grupo. E os olhos se emocionam, quando fala de sua última reflexão: "Li um salmo, acho que o Salmo 24, que fala que o Senhor dá a conhecer a intimidade dele àqueles que o buscam. Para mim, mexeu muito. Imagina você conhecer a intimidade de Deus, deve ser uma coisa tremenda. Você ser íntimo de Deus, ser amigo. Isso foi uma coisa que hoje mexeu comigo".

Confira a seguir a íntegra da entrevista exclusiva do jogador Kaká ao Terra, que contou com a participação de quase 7 mil internautas que enviaram perguntas durante três dias:

Terra - Kaká, você acha que a Argentina foi uma decepção contra o México?
Kaká - Não, não (para) a gente. Eu acho que mais a expectativa que botaram em cima da Argentina. Nós, jogadores, a gente sabe todas as dificuldades que têm em campo, o que todo jogador enfrenta quando vai disputar uma partida de oitavas-de-final da Copa do Mundo. O México que queria ficar na competição, então por tudo isso aquela dificuldade que a Argentina enfrentou.

Terra - Você acha que faltou o que para a Argentina, futebol?
Kaká - Não. Acho que não. Não faltou futebol. É difícil, é duro. Futebol hoje é brigado, é assim. Não é fácil você entrar em campo e falar: "o favorito vai ganhar e fácil". Então é difícil, é duro. A Argentina está jogando bem, tem um bom time. Não é que vai entrar ali e vai passear em campo.

Terra ¿ Não vai ser fácil parar a Alemanha, não? O que você pensa?
Kaká - A Alemanha, seleção da casa, toda tradição. E vai querer ganhar, é claro, a Copa no seu país. Agora, tem um jogo muito difícil contra a Argentina. Alemanha e Argentina. Vamos ver o que vai acontecer e a gente encontra eles, felizmente, em uma possível final. E aí a gente vê o que acontece.

Terra - Kaká, você corre o tempo todo. Você tem fôlego para isso?
Kaká - O tempo todo. Eu acho, graças a Deus, isso é uma condição minha física natural. Claro, tem toda a motivação, o que eu quero fazer, a vontade de estar ali, de ser campeão do mundo. Então, por isso, toda essa vontade de fazer gol, de ajudar na defesa. Para que eu não me arrependa depois de ter deixado de fazer um pouquinho mais na defesa, poderia ter chegado um pouquinho mais no ataque. Saio de campo cansado, com cãibras, assim não tem problemas de arrependimento.

Terra - Foi sempre assim ou a partir de um determinado momento você percebeu que deveria agir assim?
Kaká - Não, eu acho que eu fui crescendo e amadurecendo. Fui ganhando experiência e sabendo que isso era uma condição minha e que eu tinha que ir adquirindo, me tornando um jogador mais moderno, me adaptando a muitas coisas e aí cheguei até esse ponto. Mas acho que não é o limite ainda, tenho muito para crescer.

Terra - Sozinho ou viu alguém?
Kaká -Não, sozinho acho muito difícil alguém chegar. Ouvindo outros, olhando, seguindo exemplos e sendo acompanhado por muita gente. Eu recebo conselhos de todas as partes. Aquilo que é bom, eu trabalho para mim, procuro aplicar. E aquilo que não é bom, eu escutei, valeu, mas não vou seguir.

Terra - O que você considera um bom conselho e o que você citaria: "Olha, eu ouvi isso de fulano ou beltrano, que eu entendi que era o melhor caminho"?
Kaká - Em 2002, quando eu estava chegando. Eu ouvi uma conversa entre os jogadores. Eles estavam falando que não tinham medo de arriscar. Na época era Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, que eram os caras da minha posição. Eles falavam: "eu arrisco mesmo, porque se não der certo em uma, vai dar certo na outra. Se eu errar dez, eu vou tentar a 11ª, que uma hora vai dar certo. Se der certo, é aquela jogada que eles vão falar". E eu acho que esse é um conselho que para mim serviu muito, que realmente tem que tentar. Eu acho que para não me arrepender é melhor você tentar. Então eu driblo, tento fazer o gol de esquerda, tento fazer o gol de cabeça, tento fazer o gol de direita, tento dar o passe, o lançamento. Se não deu certo naquela, vou tentar outra. Uma hora que der certo é ali que vão falar. Não tenho medo de errar.

Terra - Certamente, sozinho no quarto, quando você encosta a cabeça no travesseiro, pensa e avalia. Quais as diferenças principais entre o grupo de 2002 e esse de 2006?
Kaká - Eu acho que a maior diferença é que os jogadores que estavam em 2002 estão mais experientes. Cafu, Roberto Carlos, Ronaldo, Ronaldinho, eu, Dida, Rogério (Ceni), Gilberto Silva, entre outros. Em termos de grupo, o ambiente é muito parecido, é muito bom, muito grupo, muita união. Você não vê conflito, você não vê briga, você não vê ninguém reclamando um do outro. Nesses termos é muito parecido com o outro.

Terra - Em determinado momento nessa caminhada aqui na Copa, você disse o seguinte: "todo mundo precisa ajudar, precisa colaborar, precisa marcar, todo mundo precisa carregar o piano junto". Quando todo mundo enaltecia você: "Kaká, você está marcando, cobrindo todo mundo". Pode-se entender que foi um alerta: "vamos colaborar todo mundo"?
Kaká - Eu acho que foi um alerta geral. Isso, no entanto, eu não falo só para a imprensa, mas também quando a gente se reúne. Isso tem que ser feito e eu acho que hoje todo mundo tem consciência disso. Para ganhar a Copa você vê todo mundo voltando, todo mundo passando da linha da bola, todo mundo ajudando. É zagueiro que ataca. A gente viu o último gol do Ronaldo, era o Juan que estava no ataque dando o passe para ele. É isso. Esse senso de grupo que todo mundo faz parte, que todo mundo precisa ajudar, que eu acho que faz diferença.

Terra - Nesta reunião de grupo você pode falar isso e aquilo ou é aquela chamada resenha. Algo informal ou formal?
Kaká - A gente conversa com o Parreira quando ele passa as coisas para gente e aí com ele mesmo a gente comenta algumas coisas, dá sugestão, opinião. A gente fala: "Olha professor, no jogo a gente está tendo dificuldade assim, assim. Como que a gente poderia melhorar, o que a gente poderia fazer para ajudar, melhorar". São nesses tipos de conversa que o Parreira dá liberdade para que a gente exponha nossas opiniões, para que melhore.

Terra - O Parreira é um bom ouvido?
Kaká - Ele é um bom ouvido. Costuma perguntar para os jogadores a opinião e procura ajudar sempre.

Terra - Chama à parte e conversa individualmente, põe a mão no ombro e conversa sobre tática ou sobre comportamento. Isso acontece?
Kaká - Acontece e muitas vezes não só sobre futebol, sobre outros assuntos também. Ele chega, conversa, pergunta como é que está isso, como é que está indo. Ele é uma excelente pessoa.

Terra - Você sente solidão?
Kaká - Não, de forma alguma.

Terra - Por causa da companhia que você tem com os companheiros ou por que você resolve os problemas pelo telefone. Você fica falando com a Carol (mulher de Kaká), com a família, com Seu Bosco (pai de Kaká), com a sua mãe?
Kaká - Por causa da companhia dos outros, claro, e também eu não sinto solidão, não. Não me sinto sozinho em nenhum momento. Quando eu quero ficar quieto, eu vou para o meu quarto, faço minhas coisas ali. A hora que eu quero dormir, eu durmo. Isso é uma coisa que é muito boa, você ficar no quarto sozinho. Acho que isso é fundamental. Eu durmo a hora que eu quero, acordo a hora que eu quero. A hora que eu quero ver gente desço ali, sempre tem gente, eu bato papo. A hora que eu quero paz e tranqüilidade, vou para o meu quarto.

Terra - Você pegou as duas fases da concentração de um jogador de futebol: dividindo um quarto com os companheiros e agora, nessa última fase, quarto individual. Muita gente achava que era absolutamente fundamental ter um companheiro a bordo. Mas parece que está muito claro para todo mundo que esse momento de solidão, para reflexão, é importante.
Kaká - Eu acho. E no primeiro momento eu achava que seria ruim: "Ficar sozinho no quarto vai ser triste. Chegar no meu quarto, não ter ninguém para brincar e para conversar". Mas depois eu vi que é muito melhor. Você acorda a hora que quer, você desliga a televisão, você coloca a temperatura do quarto do jeito que você quer. São coisas que fazem à diferença.

Terra - É a privacidade necessária, não é?
Kaká - A privacidade é necessária em um longo tempo. Ficar 52 dias, chega uma hora que eu não agüento o cara acordar às 8h. O cara acorda, abre a janela. Claro, vou suportar, não vou brigar. Mas começa a ter esses detalhes que depois começam a encher.

Terra - Você tem lido alguma coisa?
Kaká - A Bíblia, sempre.

Terra - É o seu livro de cabeceira?
Kaká - É o meu livro de cabeceira.

Terra - Qual foi o último texto que você pode pinçar que você tenha lido nas últimas horas? Vem alguma coisa à cabeça?
Kaká - Eu li Salmos, hoje. Li Romanos 7. O capítulo inteiro e eu estou sempre lendo a Bíblia.

Terra - O que diz?
Kaká - Romanos 7 fala sobre casamento; fala sobre Jesus Cristo; sobre a justificação; sobre a diferença entre a lei. O Velho Testamento e a graça do Novo Testamento. Essa passagem falava sobre isso.

Terra - E isso te ajuda muito?
Kaká - Muito. A Bíblia para mim é fundamental. Tem dia que eu acordo e leio um versículo que para mim é importante, tudo, mas que não fala o que outro dia eu leio o mesmo versículo e falo: "Poxa".

Terra - Você tem um exemplo para dar?
Kaká - São vários exemplos, tem muita coisa. Agora para dar um exemplo de um versículo que falou para mim de um dia e de outro, não tenho não. É de dia. Hoje eu li um salmo, acho que o Salmo 24, que fala que o Senhor dá a conhecer a intimidade dele àqueles que o buscam. Para mim, mexeu muito. Imagina você conhecer a intimidade de Deus, deve ser uma coisa tremenda. Você ser íntimo de Deus, ser amigo. Isso foi uma coisa que hoje mexeu comigo.

Terra - E quem não abraça a Bíblia? Há jogadores dentro da Seleção que fazem a mesma coisa, outros não. Como é que é a relação? Respeitosa, as pessoas se compreendem, você entende que alguns não seguem essa linha, eles entendem que você é um obstinado, que gosta de paz, reflexão. Como é?
Kaká - Respeito total, todo mundo se respeita. Não tem essa separação dos evangélicos e a turma do pagode. A gente, os evangélicos, quando vai para o jogo no ônibus, quando eu puder mostrar minha fita, das minhas gravações que eu faço (Kaká está registrando os bastidores da Seleção com uma pequena câmera de vídeo), vou mostrar para vocês que eu, Lúcio, Zé Roberto, fica todo mundo ali, batucando e cantando, fazendo algum gesto ali. Quem não sabe cantar, batuca, de alguma forma ajuda, bate palma. Não tem essa distinção. A gente respeita, faz as coisas, aquilo que a gente acha que a gente possa fazer, que é legal, a gente faz. Claro, a gente preserva sempre os valores, mas não tem problema nenhum. Eles também estão abertos. Quando fazemos as reuniões, convidamos todo mundo para ir lá participar, ouvir, orar junto. Não tem problema nenhum. É uma relação super-respeitosa.

Terra - E quando você recebe um telefonema ou você liga para Seu Bosco, para sua mãe e para sua mulher agora, você fala o que? Sobre futebol? A sua mãe, por exemplo, que é apaixonada por você diz: "filho, você foi ótimo ontem". Teu pai "olha você podia ter chutado aquela bola". A Carol deve falar só que está com saudade de você, não deve falar de futebol.
Kaká - É exatamente isso, cada um é um assunto diferente. A minha esposa é mais assunto geral, família, o que é que está acontecendo. Com a minha mãe é mais assunto de mãe, de coração: "Você está bem? Como é que está? Está dormindo bem, como é que é o lugar?". Com meu pai também são todos os assuntos, tudo que eu tenho dúvida, eu ligo pro meu pai, eu falo. É tudo mesmo, eu vi uma notícia na internet, não sobre futebol, sobre várias outras coisas, eu ligo para ele: "Pai, me explica isso. Como é isso? Por que é que está acontecendo?". Ele fala, conversa. Eu ligo pro meu pai sempre. Todo dia eu falo com ele.

Terra - Você bateu o martelo e vai ficar até 2011 no Milan. Por que o Milan?
Kaká - Eu me identifiquei muito com o clube, quando eu cheguei, tudo que foi acontecendo na minha vida, com o Milan, cada dia me coloca mais perto do clube. Claro, que eu converso com todos os jogadores e vejo como é que são os outros clubes. Como funciona e como não funciona e vejo que o Milan é realmente um clube diferenciado. Eu estou no Milan, essa é minha quarta temporada e esse é meu quarto contrato. Claro, para o Milan também é interessante. Mas eles poderiam esperar chegar mais perto do contrato para propor uma renovação. Mas não, todo ano, eles chamam a gente lá e propõem uma renovação, que seria interessante, que gostariam que eu ficasse lá. Por isso, esse carinho especial que eu tenho pelo Milan.

Terra - Nesta terça, O Brasil tem Gana pela frente. É ficar ou voltar. Como você vê essa partida?/
Kaká - É um jogo muito perigoso. Se eu não me engano é a primeira vez que o Brasil enfrenta uma seleção africana nessa fase decisiva. Então é uma seleção muito perigosa, muito rápida, com jogadores experientes, a maioria joga na Europa. E agora entra toda essa ansiedade de não poder perder, de saber que se perder vai embora. A Copa do Mundo pode acabar na terça-feira. Então tudo isso influencia quando você entra em campo.

Terra - Você pensa nisso - que tudo pode acabar?
Kaká - Não, mas eu penso, como eu falei, de forma geral. Se tiver que acontecer, são coisas que acontecem. Eu perdi uma final de Copa dos Campeões em 45 minutos. A paixão do futebol é essa, você não sabe o que vai acontecer. Mas que a gente vai lutar bastante, isso vai acontecer.

Terra - Essa é sua linha - voltando à sua resposta anterior - "eu quero sair de campo crente que fiz. Sair com cãibras"?
Kaká - Exatamente. "O que eu podia fazer eu fiz, o máximo. Eu batalhei, entrei, arrisquei, não deu certo, deu certo." Vai ser assim.

Terra - Quase 7.000 internautas do Terra enviaram perguntas para você.
Kaká - Obrigado a todos que escreveram, vamos tentar responder a algumas

Terra - A internauta Carla pergunta: "Com toda essa pressão por parte da torcida e por parte da imprensa em somente existir vitória, vocês chegam a falar sobre derrota? E qual seria a reação de vocês caso aconteça, estão preparados?"
Kaká - A gente vive num grupo otimista. Até por tudo que se cria ao redor da Seleção, a gente vive nesse grupo. A gente realmente pensa na vitória, acho que isso também é um fator positivo, porque todo mundo sabe que é possível, que a gente pode ganhar. Agora, acho que todo mundo também está acostumado. Acostumado não, mas sabe lidar com a derrota. Se acontecer uma provável derrota, aí a gente vai ver como se comporta, mas, como eu falei, e repito mais uma vez, não existe arrependimento.

Terra - A internauta Manuela pergunta: "O que é mais difícil na concentração da Seleção: a saudade da família, o convívio com os outros jogadores, o medo de ficar fora, ou mesmo o Brasil perder?"
Kaká - A maior dificuldade é você ficar muito tempo concentrado. E também tem o medo, claro, de vez em quando bate. Você pensa muita coisa durante a Copa. Pensa o que pode acontecer, como vai ser esse jogo, como não vai ser. Então tem também aquilo de quando você pensa que pode ir embora dá aquele friozinho na barriga, pensa: "poxa, pode estar acabando aqui essa Copa". Então tem sempre esse friozinho na barriga. Eu divido por tempos. Esse é um tempo de Copa do Mundo, penso na Copa do Mundo. Claro, tem minha família, tem outras coisas ali, mas esse é um tempo de pensar aqui.

Terra - Pergunta do internauta Gustavo: "Na hora de partir para o ataque, com o time do Brasil lento do jeito que está" - opinião dele -"você não se sente só, sem a aproximação dos companheiros? Você faz tudo!".
Kaká - Não, não é dessa forma. Claro, na hora de puxar um contra-ataque, essa é uma característica minha, eu gosto de puxar o contra-ataque, de dar uma arrancada. Agora, muitas vezes eu tenho que adaptar a jogada. Se o outro time volta muito rápido, ou se os atacantes fizeram o movimento e eu perdi o tempo de dar a bola... Então acontecem muitas coisas depois que você dá um passe, ou cria a construção de uma jogada.

Terra - O internauta Edu pergunta: "você concorda que está havendo pouca movimentação e aproximação entre os jogadores do quadrado mágico? E você concorda que a entrada de Juninho no lugar de um dos dois atacantes daria mais força ao Brasil?"
Kaká - Acho que eu vou evitar falar sobre movimentação, porque no primeiro jogo quando eu falei sobre movimentação, deu uma confusão. Continuam colocando aí até hoje o que falei. Hoje, até outra situação, falando da possível entrada do Robinho e voltaram ao discurso que eu falei no primeiro jogo, de movimentação. Então vamos evitar falar sobre movimentação.

Terra - Você não quis citar ninguém?
Kaká - Eu não quis. Falei de forma geral, da movimentação do time de forma geral. Acabaram pinçando nomes. Infelizmente isso acontece. Mas eu concordo que faltava movimentação. Agora acho que melhorou bastante. Contra Austrália e Japão a gente se movimentou muito melhor.

Terra - Contra o Japão o time foi melhor, foi mais solto, mas enfrentamos uma equipe limpa. O fair play, 15 faltas, só, no jogo, seis do Brasil e nove no Japão. Um jogo praticamente sem faltas. Agora nós vamos enfrentar Gana, que é a equipe mais faltosa da Copa - fez 76 faltas até agora e tomou 12 cartões amarelos. Teoricamente será uma marcação mais dura do que foi contra o Japão. O que você pensa sobre isso?
Kaká - Teoricamente, sim. Agora, a gente pode usar o fator falta a nosso favor. Uma falta na entrada da área - com nós temos bons cobradores -, acho que é perigosa para eles. E também o fator cartão amarelo e vermelho, uma expulsão numa oitava-de-final, com certeza não é bom para o time. A gente pode usar isso a nosso favor.

Terra - Em entrevista ao Terra Carlos Alberto Parreira - ele é seu fã, você sabe disso -, disse que você tem todas as características em 2010 ser o capitão da Seleção Brasileira. Por sua elegância, por seu perfil, por tudo. E aqui chega uma pergunta do internauta Renato: "quero parabenizá-lo pela ótima atuação que vem tendo na Seleção, em especial nos últimos jogos. Você vem desempenhando seu papel dentro da Seleção, além de ser um craque fora de série. Tem se mostrado um grande guerreiro. Você já pensou na possibilidade de ser o futuro capitão da Seleção Brasileira?" Parece que ele estava na cabeça do Parreira quando fez esse comentário.
Kaká - Eu acho que isso é um caminho meio que natural, o cara se tornar o capitão de um time, ou mesmo da Seleção. As coisas vão acontecendo e o time tem que ter credibilidade nesse jogador e as coisas têm que ir acontecendo dessa forma. Eu acho que eu posso ser o capitão, mais para frente, na próxima Copa, quem sabe. Conforme as coisas vão acontecendo, acho que isso pode acontecer na minha vida. Seria muito legal e aí o sonho aumenta. Já pensou levantar a Copa do Mundo, como o Cafu fez e pode fazer mais uma vez? Realmente é um sonho.

Terra - Normalmente os sonhos se concretizam na sua vida?
Kaká - Normalmente. As coisas têm acontecido.

Terra - Pergunta do internauta José Almeida: "Kaká, você saiu da categoria de base do São Paulo e em tão pouco tempo é conhecido mundialmente. Grande salário - você merece, diga-se de passagem -, jogando muito bem e o Brasil todo gosta de você. Eu gostaria de saber se você é mesmo um garoto tranqüilo, ou alguma coisa internamente acontece que às vezes você perde o ponto?"
Kaká - Não, eu sou um garoto tranqüilo mesmo. Vocês podem falar. Normalmente, independente da situação que estou vivendo eu procuro separar também: a situação que o clube está vivendo, ou eu estou vivendo na minha carreira. Eu não deixo interferir no meu modo de ser, no meu modo de viver, eu procuro ser sempre a mesma pessoa, em frente às câmeras, atrás das câmeras...

Terra - Qual o jogador de futebol que você admira?
Kaká - Jogador que eu admiro é o Ronaldo. Admiro muito o Ronaldo.

Terra - Ronaldo Fenômeno?
Kaká - Ronaldo Fenômeno.

Terra - Por tudo?
Kaká - Por tudo.

Terra - Bons momentos, maus momentos, os pepinos que ele enfrenta...
Kaká - Por tudo. Em 1998 eu era juvenil do São Paulo e torcia pelo Ronaldo e hoje poder estar jogando com ele é um grande privilégio. Então eu admiro o Ronaldo.

Terra - Ele segura uma barra, não?
Kaká - Segura. Não é fácil, tudo o que ele enfrenta, tudo o que ele superou, tudo o que conquistou, a história dele...

Terra - Tudo é notícia, não é?
Kaká - Tudo é notícia.

Terra - Bolha no pé dele. "Parem as máquinas: tem bolha no pé do Ronaldo". É assim?
Kaká - É assim.


Kaká - Ele segura. Ele é um cara muito bacana, que eu procuro estar conversando sempre. É um amigo.

Terra - A internauta Nenete Queiroz faz uma pergunta exatamente do Ronaldo: "Kaká, eu sempre soube que você gosta muito do Ronaldo Fenômeno. Você cortaria o cabelo como o dele?"
Kaká - Aí não. Gostar tudo bem, tenho ele como amigo, mas cortar o cabelo eu não cortaria.

Terra - Até porque tem gente que não permitiria.
Kaká - Se eu chego em casa com o cabelo raspado, minha esposa tem um treco, ou então me mata (rindo).

Terra - Se você pudesse afirmar agora que o Brasil vai chegar à final, quem seria o adversário?
Kaká - Do lado de lá tem Argentina, Alemanha e a outra chave que a Itália, Suíça, que podem ser um... Mas eu diria que a Alemanha, pelo que tem feito, pela forma como tem jogado, por estar jogando em casa, ser a dona da casa. Se não houvesse surpresas, eu diria que a Alemanha.

Terra - Como você acha que o público brasileiro te vê?
Kaká - Eu acho que mudou um pouco a forma que eles me viam e como me vêem. Antes eu achava que era muito do lado feminino, da fã, "o Kaká bonitinho", essas coisas. Mas aos poucos foi rompendo umas barreiras. agora é mais do torcedor, que gosta do Kaká jogador e fora do campo. Eu como pessoa e eu como jogador. Acho que se romperam algumas barreiras. Eu estou alcançando mais fãs pelo Brasil.

Terra - Na Europa é a mesma coisa?
Kaká - Na Europa é a mesma coisa. Na Europa já foi assim desde o começo. Não teve a parte das "kakazetes". Quando eu cheguei lá, criança, adulto, idoso, homem, mulher, de forma geral, todo mundo... No Brasil ainda tinha um pouco de receio do cara, de vir tirar fotos comigo. Falava assim: "é para minha filha, para a minha amiga". Agora não, o cara chega e fala: "Kaká, parabéns, você é um cara que joga muito, deixa eu tirar uma foto com você". Romperam-se algumas barreiras.

Terra - O que você diria para o torcedor que está ansioso aguardando esse próximo e decisivo jogo?
Kaká - Eu diria que continuem torcendo, se esforcem para torcer o jogo inteiro. Sei que algumas vezes é difícil, o torcedor perde a paciência, mas que torçam realmente o tempo inteiro, porque nós jogadores vamos fazer o possível para dar alegria para vocês e para a gente também. Sendo campeão, acho que todo mundo fica feliz.

Terra - Pense no seu livro de cabeceira - a Bíblia - alguma coisinha para fechar a nossa conversa. O que vem em sua cabeça no momento em que peço isso para você?
Kaká - Têm muitos versículos que vêm à minha cabeça, vou falar aquele que você acabou de falar, que Deus realiza, que meus sonhos são sempre realizados. A Bíblia é isso, que Deus realiza todos os desejos de nossos corações. Eu vejo dessa forma, bem realizado, porque tenho sido obediente à palavra de Deus e às ordens dele, e ele tem realizado meus sonhos.
 

Redação Terra