Em Johannesburgo, dentro do táxi, diálogo em preto e branco

12 de junho de 2009 • 16h24 • atualizado às 16h57
Em frente ao museu do apartheid, em Soweto, repousa a histórica foto do massacre de 16 de junho de 1976 Foto: Allen Chahad/Terra
Em frente ao museu do apartheid, em Soweto, repousa a histórica foto do massacre de 16 de junho de 1976
12 de junho de 2009
Foto: Allen Chahad/Terra

Allen Chahad
Celso Paiva

Direto de Bloemfontein




Depois de quatro dias de garoa em Johannesburgo, entramos no táxi que nos levaria ao aeroporto rumo a Bloemfontein, cidade que fica na região central da África do Sul e famosa por ter sido o berço de J.R.R Tolkien, autor da trilogia O Senhor dos Anéis. O sol começa a se pôr, penumbra às quatro e meia da tarde. O motorista se enfia por entre as ruas do bairro, busca atalhos para escapar do trânsito. Quando cai na estrada, engarrafamento. Velocidade de, no máximo, 30 km/h.

O acelera-e-breca dá tempo para o bate-papo com um personagem anônimo, mas muito representativo da história da África do Sul. Um homem de 42 anos que leva vida ordinária na maior cidade do país, uma das sedes da Copa do Mundo de 2010. Camisa engomada, jaqueta de couro e calça social, o sul-africano é dono de um carro moderno e limpíssimo. "Por favor, não fume", pede respeitosamente a placa colada no pára-brisa.

- O aeroporto fica fora de Johannesburgo?

- Ainda é Johannesburgo, a leste.

- E você mora onde?

- Moro entre o aeroporto e o centro.

- Você nasceu aqui?

- Sou de uma cidade pequena, a 400 km daqui. A maioria de nós vem de fora para tentar uma vida melhor. Em Johannesburgo é onde está o ouro, já ouviu falar?

- Claro...

Quando ele diz ouro, quer dizer mesmo ouro. O metal foi encontrado na região em 1886 e provocou uma corrida, atraindo pessoas principalmente da América do Norte, do Reino Unido e do restante da Europa. Com o local povoado, a cidade de Johannesburgo foi fundada em 1900.

- Desde quando você está aqui?

- Hum... Muito tempo. Desde 1992. E, desde 1997, trabalho como motorista de táxi. Antes eu dirigia caminhões. Mas era uma vida mais complicada. Eu dirigia daqui até Cape Town, mais de 1.264 quilômetros. Saía de casa na sexta-feira e chegava lá na noite de sábado. Esperava quatro dias pelo carregamento. Muitas vezes me mandavam entregar no Zimbábue ou na Zâmbia, por exemplo. Passava aqui em frente de casa, mas nem podia parar.

- Por que?

- Era uma vida perigosa. Tem muita doença por aí. Uma namorada em cada cidade, um mosquito te pega. Você pode acabar com 30 mil doenças. Agora é melhor como taxista. Eu posso trabalhar 24 horas. Se eu te levo para uma casa noturna, tiro um cochilo no carro enquanto espero. E assim vai.

- E você prefere aqui ou sua cidade natal?

- Ah, na sua casa é sempre melhor, né? Você sabe, aqui é onde há dinheiro. E precisamos do dinheiro. Mas quero juntar e voltar o quanto antes para minha cidade.

- O que tem para fazer por lá?

- Fazendas. São muitas fazendas. Ganha-se pouco, é verdade. Num mês você pode tirar 700 ou 800 rands (entre R$ 170 e 200). É pouco, mas por lá não precisa pagar por comida. Aqui em Johannesburgo o custo de vida é muito alto. Tem que pagar por tudo. Lá na minha cidade, se você quiser uma fruta é só colher do pé e comer. O tomate é de graça. Aqui eu pago 2 rands (R$ 0,50). Lá, um saco de batatas custa 5 rands (R$ 1,20). Aqui, 1 quilo custa 20 rands (R$ 5).

- E os donos das fazendas são brancos ou negros?

- Os dois...

Ao resvalarmos no assunto nevrálgico da história da África do Sul, o taxista vira o pescoço. Não chega a olhar direto nos nossos olhos, mas deixa clara a sua curiosidade em relação à pergunta. Talvez desconfiança. Talvez descontentamento. Achamos melhor explicar.

- Sabe por que pergunto? Aqui em Johannesburgo, andando pelas ruas, raramente vemos brancos.

- Eles estão indo embora. Agora nós negros estamos comprando as casas deles e eles não querem ficar perto de nós. Vá para Cape Town ou para outras cidades litorâneas que você os encontrará. Eles vendem suas casas para nós, mas não ficam por perto.

Agora estamos com os dois pés dentro do assunto-tabu: apartheid - palavra que significa "vida separada" e é usada para designar o regime de segregação racial institucionalizado em 1948 no país. A política rígida de separação entre brancos e negros acabou no papel em 1994, quando Nelson Mandela foi eleito democraticamente como novo presidente. Desde Mandela até o presidente atual, Jacob Zuma, já são quatro líderes negros no governo.

- O regime do apartheid acabou só no papel?

- É isso. Na minha cidade existem donos de fazendas que são negros e outros que são brancos, mas cada grupo fica no seu canto, separado. Hoje, meus filhos vão para a escola com os filhos deles e eles convivem bem. Mas entre você e eu, que somos adultos, não é a mesma coisa. O apartheid acabou e agora eu sou livre, mas em algum lugar lá no fundo da minha mente ainda tem alguma coisa que nos separa.

- Para o branco, é a mesma coisa: tem algum um exemplo do homem branco?

- Por exemplo, agora, se vocês quiserem me assassinar, são dois contra um. Eu não terei como me defender.

- Mas por que nós faríamos isso?

- Se houver uma discussão entre dois brancos e um negro, os brancos darão um jeito de culpar o negro. Se houver discussão entre dois negros e um branco, os negros vão acabar com a razão. Mas na escola, se tiver um problema entre as crianças, um branco pode defender um negro ou vice-versa.

- Então, segundo esse raciocínio, daqui a alguns anos, quando essas novas gerações crescerem, as coisas podem ser diferentes. A convivência pode ser melhor?

- Se você me convidar para comer, vou dizer que estou sem apetite. Porque não podemos nos sentar à mesma mesa. Lugar de branco é lugar de branco e lugar de negro é lugar de negro. Vou te contar uma história de cinco meses atrás. Fui levar um cliente branco para viajar. Paramos em um hotel e dormimos no mesmo quarto. No dia seguinte, quando fui tomar café-da-manhã sozinho, passei o número do quarto. Quando olharam no computador, disseram que meu nome não estava lá. E, por isso, eu não poderia tomar o café. Eu insisti que estava, sim, hospedado lá. O cliente chegou lá embaixo e perguntou o que estava acontecendo. Quando ele ouviu, foi uma briga grande.

- Então ele te defendeu. É o que eu dizia. Nós, por exemplo, que somos estrangeiros, podemos conviver com os negros, é assim?

- Claro. Você pode ir para uma boate de negros comigo se quiser. Eu falo que você é brasileiro, que é meu amigo e será seguro. Mas se eu for numa boate de brancos com você, vão me mandar embora. Vão dizer "vai se f...". Por que os brancos sul-africanos não querem entrar em Soweto? Eles se sentem ameaçados.

Quando ele fala de Soweto lembro que tínhamos estado lá no dia anterior e que a experiência foi estranha. Soweto (SOuth WEts TOwnship), que já foi uma cidade, é hoje um bairro a sudoeste de Johannesburgo. Historicamente, Soweto é conhecida como o principal foco de resistência de negros durante o regime do apartheid. Foi lá que, em 1976, aconteceu o histórico massacre que culminou com a morte de 566 pessoas durante um protesto estudantil contra o apartheid. As imagens da violenta repressão e da polícia abrindo fogo contra 10.000 estudantes chocaram o mundo. Hoje, a data é considerada um marco na história do país, já que aumentou a pressão internacional para os problemas do regime racista sul-africano que no próximo dia 16 de junho completará 33 anos. Agora, é feriado nacional.

- Nós andamos em Soweto e foi desconfortável no começo porque todos nos olhavam. Mas quando dizíamos quer éramos brasileiros, a desconfiança parecia ir embora.

- O sul-africano branco fica com medo quando entra lá porque sabe que fez coisas ruins no passado ali. No fundo da cabeça dele, pensa: "eu já matei aqui dentro, agora vão querer me matar". Mas não queremos vingança. Por exemplo, em 1994, quando Mandela assumiu o governo, poderia ter mandado os dois presidentes brancos anteriores para a cadeia. Mas não o fez. Ele passou 28 anos na cadeia e já saiu um homem velho. Mas não fez o mesmo com os outros.

- Foi um grande exemplo.

- Um enorme exemplo.

A imagem do que representou Nelson Mandela para o país está por todos os lados. Mandela tem hoje tem 91 anos e ainda vive como o maior símbolo do movimento "antiapartheid". Durante sua luta pela igualdade de direitos, acabou preso, acusado de ser terrorista, e foi condenado à prisão perpétua. Absurdo, mas poderia ter sido pior se pensarmos que o líder, ao ficar com a perpétua, escapou do enforcamento. Preso, virou símbolo de uma comoção nacional e mundial em nome da igualdade. Foi libertado em 1990, depois de 27 anos, e, em 1993, recebeu o Prêmio Nobel da paz ao lado de Frederik de Klerk - último presidente branco da África do Sul.

Chegamos ao aeroporto e o taxista se despede.

- Se vocês voltarem a Johannesburgo e quiserem ir a uma boate de negros, eu os apresento como meus amigos brasileiros.

Terra
 
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