Brasileiros e espanhóis têm comportamentos distintos |
Antonio Prada
Direto de Johannesburgo
Brasil e Espanha, como se previa, entram na segunda fase da Copa das Confederações como as duas principais forças do torneio que funciona como um ensaio da Copa de 2010. O valor do favoritismo numa competição a um ano do principal torneio do futebol mundial sempre tem valor relativo. Tão relativo que nenhuma seleção que venceu o torneio foi campeã do mundo até agora. Isso sem falar que neste caso em particular ainda precisam passar por África do Sul e EUA para então sim se encontrarem na final.
Não há como negar, no entanto, que a Espanha, depois da conquista da Eurocopa, viva talvez o seu melhor momento na história, e o Brasil, sempre um eterno favorito, esbanja pulmões e cérebros novos que, a despeito de desconfianças, tem mostrado consistência e um formato de jogo que há muito não se via.
Na fotografia das duas seleções neste cenário africano o mais curioso não é o que se vê dentro do campo, mas fora dele. No roteiro genérico do futebol mundial os brasileiros sempre foram extrovertidos e descompromissados. Rebeldes. Polêmicos. Geniais. E até inconsequentes, muitas vezes. Já os espanhóis sempre foram calados, obedientes, soldados. Submissos, muitas vezes.
O Brasil de Dunga fala pouco. E tem discurso uniforme. E cauteloso. Não canta a vitória e muito menos supervaloriza a vitória. Calejados com os tratos e destratos da mídia esportiva, que nada tem a dever aos paparazzi de Hollywood, se expõem menos. O controle da agenda é rígido, bem como as regras de convivência no grupo.
A Espanha de Vicente Del Bosque fala muito. E até demais. Tem discurso progressista. Canta vitórias e anuncia recordes. Sente-se uma estrela. Tem uma agenda liberal.
O Brasil de Dunga na África do Sul vai a Safári, tira fotografias com leõezinhos e girafas, e faz compras no shopping.
A Espanha de Vicente Del Bosque na África do Sul prefere as baladas (algumas longas) noturnas, antes e depois dos jogos, sem qualquer pudor. Consegue inclusive que parte da mídia do país compartilhe as noitadas. E pelo respeito à privacidade, ignore solenemente o que vê. Não que não devesse ignorar, mas é a mesma mídia que outrora satanizou pelos quatro cantos, como aliás toda a mídia mundial, inclusive a brasileira, o comportamento noturno de alguns atletas brasileiros.
As pátrias de chuteiras de Nelson Rodrigues e Pedro Almodovar no fundo são exatamente iguais. Há sempre um resultado no meio do caminho. E nada melhor do que um resultado depois do outro para saborear os ventos e as contradições que constroem e desconstroem os roteiros do futebol.
Terra