Eliminatórias Mundial 2010

Eliminatórias Mundial 2010

Quinta, 26 de junho de 2008, 11h33 Atualizada às 15h00

Luxemburgo critica Kaká e Ronaldinho - Parte 1

Vanderlei Luxemburgo, técnico mais vencedor em atividade no futebol brasileiro, concedeu uma entrevista exclusiva ao Terra. Na conversa com o jornalista Wanderley Nogueira, no programa Esportes Show, o técnico do Palmeiras fez críticas à convocação de Ronaldinho e ao papel de Kaká na Seleção. O treinador ainda comentou a situação da Seleção Brasileira nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010 e o desempenho do técnico Dunga, vaiado após o empate por 0 a 0 com a Argentina, na semana passada. "O Dunga está lá, técnico da Seleção Brasileira. Ele está adquirindo experiência na Seleção Brasileira. É diferente. Ele entrou como técnico da Seleção Brasileira quando ele nunca havia dirigido um clube de futebol e o colocaram lá. É um risco muito grande e essas experiências, se você pegar, no futebol europeu, tendem a dar certo, como têm dado certo", afirma.

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Sobre Ronaldinho, Luxemburgo acredita que o jogador não merece uma vaga na Seleção pela última temporada e recomenda um "puxão de orelhas" no meia, que está de saída do Barcelona. O mesmo vale para Kaká. Para o treinador, o melhor jogador do mundo deveria assumir o papel de líder e tornar-se referência da equipe brasileira. "Quando você vem para uma Seleção Brasileira, você tem que saber a noção exata do que você representa para o teu País", ressaltou. Para o técnico, os dois meio-campistas foram, com Lúcio, a base ideal para o momento de transição que o time atravessa.

Perguntado sobre um possível convite da CBF para dirigir a Seleção, Luxemburgo foi taxativo e afirmou não ter recebido qualquer sondagem sobre o assunto. No entanto, mostrou preocupação com a classificação da equipe para a Copa do Mundo de 2010. "O Brasil tem que tomar cuidado. (...) Acho que é o momento de repensar algumas situações", afirmou.

O comandante palmeirense aproveitou a entrevista para abrir o coração sobre alguns temas do passado. Lembrou a CPI que levou à saída da Seleção, no ano 2000, e mandou um recado para os parlamentares que estiveram à frente da investigação naquela época. "Espero que o Álvaro Dias consiga sair desse problema em que ele entrou aí impune", provocou. Falou do seu relacionamento com outros treinadores, como Mano Menezes e Muricy Ramalho. Negou atritos com o técnico do São Paulo e esclareceu as rusgas com Émerson Leão, com o qual diz não ter qualquer tipo de amizade. Luxemburgo foi enfático ao falar das propostas do Lyon, da França, e da seleção mexicana e criticou a postura dos colegas que, segundo ele, não defendem a profissão. Aproveitou também a oportunidade para lembrar uma pendência judicial com o Corinthians. "O Passarella recebeu o que ele tinha (...). E eu tenho uma pendência na Justiça (...) que até hoje não foi recebida por mim, que sou brasileiro e vivo aqui", reclamou.

Confira a entrevista na íntegra:

Wanderley Nogueira - Vanderlei, a primeira pergunta é inevitável. (...) O próximo adversário será o selecionado chileno, no dia 07 de setembro, em Santiago, no Chile. Chile que está neste instante à frente da Seleção Brasileira. Na última vez, nas Eliminatórias, dirigindo a Seleção Brasileira, você o treinador, o Brasil foi derrotado naquela noite fria em Santiago. No próximo jogo contra o Chile você será o treinador da Seleção Brasileira?
Vanderlei Luxemburgo - Bom, um abraço, é um prazer estar com você. Essa pergunta é boa para esclarecer até algumas situações que hoje aconteceram. Hoje o Fabinho (assessor de imprensa) trouxe para mim, com relação a uma pergunta ou afirmações do Muricy (Ramalho) um tempo atrás, e uma resposta minha e outra afirmação do Muricy. Tudo sem citar nome de ninguém e ficou meio estranho. Eu preciso falar para o Muricy é o seguinte. Estou falando pela primeira vez, nem em coletiva eu falei sobre isso aí. Quando eu tiver que falar alguma coisa para alguma pessoa, eu falo diretamente. Quem me conhece sabe que eu sempre uso o nome das pessoas e falo diretamente.

E quando eu falei que haviam citado algo sobre lobby, o Muricy também estava falando sobre lobby. Só que eu estava me referindo a um "pessoal" da imprensa (uns três ou quatro que me perseguem há muito tempo) que, todas as vezes que se fala em Seleção Brasileira, os caras (sic) vêm falando: "olha, o Luxemburgo começou com lobby". E eu dei uma pancada direcionada para estas pessoas. Aí foram perguntar ao Muricy que eu tinha dado uma resposta para ele. Aquela coisa que não se fala nome aí vem o gênio da imprensa e diz "olha, o Luxemburgo falou isso de você". Mas eu não usei o nome dele, não falei nada. Só me dirigi ao mesmo pessoal que sempre me perseguem e que falam... Então, só para esclarecer essa coisa com o Muricy, no dia em que eu tiver que dizer alguma coisa direcionada para ele eu vou dizer "Muricy, olha, você pára com isso que isso não está muito legal...".

Em relação à Seleção Brasileira, essa coisa... O Dunga está passando um momento difícil como eu já passei. O Brasil vai se classificar para a Copa do Mundo e tem tudo... É uma situação, vamos dizer assim, mais delicada do que das outras vezes. Porque o futebol sul-americano cresceu muito. Quando você vê uma Venezuela bem posicionada, é porque você sabe que eles avançaram bastante, então não é surpresa o que está acontecendo com a Venezuela. Jogadores atuando fora do seu país, na Europa, e se amadurecendo, se aperfeiçoando. Então a Venezuela hoje é competitiva, diferente de algum tempo atrás em que ela era saco de pancadas de todo mundo. Então o Brasil precisa ter muito cuidado, direcionar muito bem a tabela, definições, uma série de coisas que, aí sim, pode levar o Brasil a ter problemas já de ir para a Copa do Mundo, como foi na última que classificou no último jogo. Então acho que é o momento de repensar algumas situações. Mas com respeito de eu estar lá, espero que não. Eu espero que o Dunga continue e que ele consiga o resultado dele, que o Brasil possa acomodar as coisas. Após um jogo sempre há uma tempestade muito grande. Quando perde então a tempestade vira assim um maremoto uma confusão para mais de metro (sic). E depois passa e as coisas vão se acomodando e as pessoas, com mais calma, vão discutindo com mais coerência esta situação. Então eu acho que vou estar com expectador em casa assistindo e torcendo pelo Brasil.

Wanderley Nogueira - Você tem algum impedimento legal, contratual, que impede você, se o telefone tocar agora, de assumir a Seleção Brasileira?
Vanderlei Luxemburgo - Nada. Nenhum impedimento para lugar nenhum. Nem para Seleção Brasileira, nem para clube. Eu tenho cláusulas de contrato que, a partir do momento em que ela é cumprida, não tem impedimento.

Wanderley Nogueira - O seu compromisso com o Palmeiras permite que você treine a Seleção Brasileira e treine o Palmeiras simultaneamente ou você precisaria optar?
Vanderlei Luxemburgo - Meu compromisso com o Palmeiras tem umas cláusulas que permitem você romper o contrato ou não. E o pessoal acha que romper um contrato em cima de uma cláusula você não está cumprindo o contrato. Muito pelo contrário, você cumpre o contrato, mas cumpre o contrato para qualquer coisa ou situação. Ou seja, Seleção Brasileira, ou time de fora, como eu já discuti isso. Existe uma multa e, a partir do momento em que o Palmeiras pague para me dispensar ou eu pago a multa para sair, está sendo cumprido o contrato, entendeu?

Wanderley Nogueira - Mas você acha possível trabalhar nas duas pontas, como eu disse? Neste momento, se você assumisse a Seleção Brasileira...
Vanderlei Luxemburgo - Isso é uma coisa que a gente não tem que discutir, é uma coisa que só pode ser discutida no momento em que surgir uma negociação...

Wanderley Nogueira - Mas nada impede. É isso? Vanderlei Luxemburgo - Não tem nada. Meu contrato não tem nada que impeça nada. Meu contrato está bem esclarecido, muito bem estabelecido, muito bem discutido pelas duas partes, o advogado do Palmeiras, meu advogado, está muito bem redigido para ser cumprido e, no momento certo em que qualquer decisão for tomada, em qualquer momento, o contrato está lá para estabelecer.

Wanderley Nogueira - Nós estamos falando sobre hipóteses, eu compreendo. Mas é possível, na sua cabeça, um treinador, no Brasil dirigir um clube e também a Seleção Brasileira?
Vanderlei Luxemburgo - Eu tenho certeza que você me fez esta pergunta há um tempo. É que a gente está ficando velho e meio que esquece, não é?... (risos)

Wanderley Nogueira - Mas é que a audiência é rotativa e aqueles que estão nos assistindo talvez não tenham ouvido...
Vanderlei Luxemburgo - Essa da audiência rotativa é experiência, não é? Nessa você foi muito bem (risos). Não tinham as mesmas pessoas. A resposta que eu dei um tempo atrás não... São outras pessoas, não é? Está bem... Não vejo nenhum problema de você poder estar na Seleção ou num clube. Tudo vai depender do momento, da discussão momentânea, de interesse ou não. Tudo, para ser resolvido, tem que ser aquela coisa que você decide no momento, entendeu? Discutir isso aí é uma coisa meio oportunista. Eu acho que não é uma situação... Ela só tem que ser a partir do momento que tem um convite. Aí eu vou discutir toda esta parte. Enquanto não, é aquilo que eu falei. Espero estar na minha casa, com a minha neta no meu colo, comendo pipoca e assistindo o Brasil dando uma pancada no Chile e subir na tabela.

Wanderley Nogueira - Não teve o convite, Vanderlei?
Vanderlei Luxemburgo - Nada. Zero, zero, zero. Zerão (sic)... Zero.

Wanderley Nogueira - Nem neste momento em que a situação...
Vanderlei Luxemburgo - Zero, zero, zero, zero, zero. Nenhum convite de ninguém.

Wanderley Nogueira - Quem manda prender e manda soltar é o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que está no comando da CBF há tantos anos. Todo mundo sabe que ele é que tem o poder de decisão, de contratar ou de demitir. Embora ouça muitas pessoas e ele decide no final pela direita ou pela esquerda. A sua relação hoje com Ricardo Teixeira qual é?
Vanderlei Luxemburgo - Boa. Nunca tive problemas com Ricardo Teixeira. Eu saí da Seleção porque foi uma avalanche de críticas e de situações... e que nada foi explicado até hoje. Tudo aquilo que aconteceu você acompanhou bem todas as situações, e eu continuo parado nas duas situações que eu tenho quatro ou cinco inimigos meus que continuam achando que eu tenho problema e eu continuo achando que não tive problema, que eram a idade e do Fisco. Fora isso aí, nada. E o pessoal, toda aquela confusão todinha, não tinha jeito, eu tinha que sair. Não tinha ambiente. Eu acho que houve um erro de estratégia. Eu até já comentei com o Ricardo Teixeira. Eu acho que naquele momento, pelo trabalho que eu vinha desenvolvendo, que era bom, você se recorda disso, era o momento de uma licença e não de uma quebra de contrato. Porque o jogo contra a Venezuela seria muitos meses depois. Seis ou sete meses depois. Então, se o Ricardo na conversa dissesse: "olha, não tem ambiente, não tem situação agora (e realmente não tinha)...". Mas depois de sete meses não haveria problema, porque todo mundo teria visto que aquelas acusações não procediam. Tudo se transformaria, como se transformou, em balelas e hoje até com o pessoal a gente começa a dar risada. "Poxa, como foi acontecer aquilo ali". Mas eu continuo com o Ricardo Teixeira em alguns eventos, conversamos, tomamos um vinho... não houve nenhum desgaste na minha relação com ele, nem com ninguém naquele processo lá. Muito pelo contrário, o desgaste foi mais externo, fora da Seleção Brasileira, do que na Seleção Brasileira.

Uma coisa que eu gosto sempre de falar e que o pessoal que não gosta de mim diz que "o Luxemburgo diz que não teve problema". Xará, uma das coisas que mais me deixaram assim com respeito a toda aquela situação, foi com respeito a levar grana com convocação, com negócio de empresário. Caramba! Eu estou neste negócio, com 56 anos, desde 1983 sozinho como técnico. Neste meio em que nós vivemos, se eu tivesse levado um centavo de um empresário, será que não teriam noticiado com tantas afirmações. Então aquilo me deixou muito assim, que passou-se a ter uma desconfiança muito grande do profissional, da forma como eu trabalho, em função de acusações improcedentes. E eu fico com essa coisa até hoje me remoendo (sic). "Pô, eu continuo contratando jogador, dispensando jogador, fazendo contato com jogador, dizendo quanto tem que pagar, fazendo tudo o que eu fazia da mesma forma, porque eu sou íntegro, mas aquilo ali foi uma das coisas que mais mexeu comigo". Porque você usar a Seleção Brasileira para convocar jogador e, mesmo no clube, você tirar proveito disso é uma coisa muito injusta e a maior carteira de idoneidade foi me passada através da CPI.

Wanderley Nogueira - É exatamente isso que a gente ouve, que o Ricardo Teixeira considera você um treinador extraordinário, tem boa relação com você, confirmando o que você acaba de dizer, mas algumas pessoas próximas a ele, dizem que ele gostaria muito de levá-lo à Seleção novamente. Mas, levá-lo à Seleção seria trazer de novo aquela conversa de CPI, trazer problemas sobre a mesa. Como você tem estado com o Ricardo Teixeira em muitos eventos e muitas mesas conversando, dele você já ouviu o que sobre isso?
Vanderlei Luxemburgo - Nunca falamos sobre isso, até porque nunca teve um convite. Mas é importante para gente falar algumas coisas...

Wanderley Nogueira - Claramente você sabe o que ele pensa?
Vanderlei Luxemburgo - Não, mas nós nunca conversamos sobre isso. Nunca foi colocado em questionamento isso aí, até porque nunca houve um convite. Essa coisa sempre vem das pessoas falando. É uma oportunidade boa de falar da CPI. A CPI foi muito boa para mim, porque ela me deu uma carteira de idoneidade muito grande porque tudo aquilo que falaram não foi provado e não vai ser provado. E das pessoas que falaram, só há duas que continuam falando por aí, que são o senador Álvaro Dias (PSDB/PR) e o (deputado) Sílvio Torres (PSDB/SP). Espero que o Álvaro Dias consiga sair desse problema em que ele entrou aí impune. Impune, sem problema nenhum. E o Silvio Torres que também já andou balançando também para lá e para cá, está certo? Então a gente vai por essa situação aí. E que, dentro do futebol, isso ficou uma marca muito grande para mim, porque as pessoas simplesmente acreditaram naquelas bobagens todinhas e não foi provado nada. Só que no seu programa, xará, você entrevistou a Renata (Alves) 500 vezes, outros programas também. Como se ela fosse a grande descoberta do futebol brasileiro, das sacanagens do futebol brasileiro. Estou falando com você mas também com muitas outras pessoas que entrevistaram a Renata como se ela tivesse assim: descobriram o pilantra do futebol brasileiro e vamos moralizar o futebol. E onde está a Renata? Onde ela existe hoje? E eu continuo aqui. Botei minha cara para apanhar, investigaram minha vida de fora a fora, de ponta a rabo, me viraram de ponta-cabeça e ficaram as duas coisas que eu sempre falei: a troca de idade, que já resolveu, e o problema com o Fisco, que eu tenho até hoje, discutindo até hoje que eu não podia perder esse direito. Essa coisa toda que aconteceu, ficou uma marca muito grande que, não o Ricardo, mas as pessoas colocam como se fosse realmente uma dúvida do Ricardo.

Wanderley Nogueira - Ele não tem dúvida então?
Vanderlei Luxemburgo - Nunca falamos sobre isso.

Wanderley Nogueira - Mas, pelo que você sente...
Vanderlei Luxemburgo - Isso vai ser discutido por você, lá na (Rádio) Jovem Pan, pelo outro na Rádio Bandeirantes, pelo outro na Rádio Globo, pela TV Globo. Isso vai ser discutido de novo. Será que ele deve voltar porque ele passou por isso, por aquilo? Mas ninguém vai falar que eu passei pela CPI impune e só tive aqueles dois problemas que eu falei, na época, que eu tive. Vão pegar a Renata Alves e vão colocá-la em cena. Eu acredito que até você também entreviste ela de novo para saber se o Luxemburgo deveria ou não voltar à Seleção, porque é assim que funciona o Brasil.

Wanderley Nogueira - Mas a preocupação é saber o que pensa o seu amigo Ricardo Teixeira. Porque se ele entende que tudo isso que você falou... Essa é a versão. Não importa o que dizem...
Vanderlei Luxemburgo - Essa coisa para mim não tem interesse. Vou te falar por que. Eu não estou preocupado se o Ricardo Teixeira pense ou não pense. Nós nunca abordamos esse assunto, porque nunca me foi feito um convite para dirigir a Seleção Brasileira. Eu só vou poder saber isso no dia que tiver um convite.

Wanderley Nogueira - Isso todo mundo sabe, mas o que eu queria saber é o seguinte: porque, que você é um técnico competente, nenhuma dúvida. Que muita gente o considera o melhor do Brasil, nenhuma dúvida. Que, em qualquer pesquisa que surja aí, seu nome aparece em primeiro lugar para assumir a Seleção Brasileira. Então, condição profissional e técnica não estão em discussão aqui. A única coisa ou o único obstáculo que poderia impedir é o presidente estar preocupado: "vou trazer confusão". Eu estou perguntando isso porque você, por ter relações com ele, se você já ouviu isso: "Vanderlei, eles falam isso, mas eu sei que trazê-lo de volta não é trazer confusão"...
Vanderlei Luxemburgo - Nunca. Nunca tivemos esse tipo de conversa.

Wanderley Nogueira - Você nunca se preocupou em saber: "presidente, o que o senhor pensa disso"?
Vanderlei Luxemburgo - Não. Nada a ver. Eu sempre tive uma amizade com o Ricardo de tomar vinho junto e sentar, bater papo, rir, brincar. Nunca foi abordado assim, o que se passou na Seleção Brasileira o que não se passou. Uma possibilidade futura... nada. Estive agora no casamento do filho do "jotinha" (J. Hawilla, presidente da Traffic) e sentamos à mesa juntos e não teve nada disso. A conversa era totalmente diferente era eu, com a minha esposa, ele com a dele, conversando, tomando vinho e brincando. Nunca houve assim nada da esfera profissional.

Wanderley Nogueira - O fato de você ser amigo do Ricardo, no caso do J. Hawilla, que é um empresário de sucesso, diga-se de passagem. Isso ajuda ou prejudica?
Vanderlei Luxemburgo - Nada a ver. Eu sou seu amigo e nem por isso você deixa de me elogiar ou criticar em cima das atitudes que eu tomo. Uma coisa é a amizade, o meio que você tem do futebol. Os meus amigos são do meio do futebol. O "jotinha" em conheci no futebol. Então a amizade que eu tenho fora do futebol. Não só no futebol. Eu sou amigo da família. Com o Ricardo eu fiz amizade no futebol , quando fui convocado para a Seleção Brasileira, e mantemos até hoje a amizade. Então, meus amigos são do futebol, eu sou um homem do futebol. Isso não pode trazer nenhum benefício ou prejuízo. Então as pessoas querem fazer esse tipo de conotação. Nada a ver. Eu não sou amigo de médico, eu não sou médico, não trabalho em hospital. Não sou mecânico para ter amizade com mecânicos. Eu sou técnico de futebol, meus amigos são jogadores, técnicos, pessoal da imprensa (uns mais próximos, outros menos), mas é assim que é a relação. Não tem nenhum problema. Não pode nem ajudar nem prejudicar em nada.

Wanderley Nogueira - Hoje, o Brasil...
Vanderlei Luxemburgo - Eu acho que técnico da Seleção Brasileira é cargo de competência. Vou dizer de coração, para mim, o primeiro técnico do Brasil para disputar uma Copa do Mundo, é o atual campeão. Pesquisa é o Felipão. Você não tenha dúvida. Bote a pesquisa! É o Felipão. Porque é o último campeão. Essa é uma grande realidade. Se o Felipão estivesse trabalhando no Brasil e tivesse essa confusão, esquece o Luxemburgo. Felipão seria a bola da vez, que é o campeão, que mostrou um trabalho, que tem um trabalho realizado. Então eu tenho os pezinhos no chão. Sei de tudo o que acontece, sei dos questionamentos que as pessoas fazem: "Ah, o Luxemburgo tem muito problema. Que vai levar para Seleção. Que o Ricardo fala isso". Isso é tudo extra. Na parte do "se", mas na realidade, são tantas coisas diferentes, que a gente sabe como funciona. Eu, com a experiência que eu tenho... Há um tempo eu era fio desencapado. Hoje eu estou ficando mais velho, mas experiente, mais sossegado. Então a gente diz "isso aqui não, deixa quieto, não vou discutir isso aqui". Outras coisas não "essa aqui nós vamos discutir porque pode trazer algum tipo de problema".

Wanderley Nogueira - Você acabou de dizer que, para ser técnico da Seleção Brasileira, precisa ser competente. O Dunga é?
Vanderlei Luxemburgo - O Dunga está lá, técnico da Seleção Brasileira. Ele está adquirindo experiência na Seleção Brasileira. É diferente. Ele entrou como técnico da Seleção Brasileira quando ele nunca havia dirigido um clube de futebol e o colocaram lá. É um risco muito grande e essas experiências, se você pegar, no futebol europeu, tendem a dar certo, como tem dado certo. O (Franz) Beckenbauer nunca foi técnico. Colocaram a figura do Beckenbauer lá e ele ficou, mas é um a cultura diferente da nossa. Aqui ele vai ter que cavoucar minhoca em barro duro para poder conseguir os seus resultados. Está vendo aí como a coisa funciona. E se você pegar numa competição, faltando um mês para uma competição, a coisa tende a caminhar, mas quando se tem projetos, de começo, meio e fim, a coisa já começa... Tem que saber como é que elabora... E ele está tendo problema justamente nesta situação aí. Na competição ele não tem problema e não terá problema nenhum.
Wanderley Nogueira - Hoje o Brasil está em quinto lugar nas Eliminatórias. Se parasse hoje, claro que é hipotético e vai para Copa do Mundo, todo mundo sabe que vai. Mas hoje o Brasil está em quinto lugar, teria que brigar na repescagem para ir à Copa do Mundo. Até o dia 7 de setembro, toda vez que se abrir na tela do computador, a classificação das Eliminatórias, vai mostrar o Brasil lá em quinto lugar. Isso é óbvio que incomoda. Como um técnico administra isso?
Vanderlei Luxemburgo - Você faz projeção de tabela. Com certeza o Dunga deve ter sentado com a comissão técnica e falado assim. "Vamos jogar contra o Paraguai e contra a Argentina. Aqui nós temos tantos pontos para somar. Se não somar, vamos ter que recuperar numa outra situação que você não encontraria para buscar pontos. Com certeza essa projeção foi feita. O problema é que nesta projeção houve uma mudança e você falou "o Brasil vai estar numa Copa do Mundo". Eu também acredito, mas tem que ter muito cuidado, porque na anterior nós já passamos ali no último jogo. O problema é que os dois próximos adversários serão confronto direto. Que são o Chile, que se ganhar sobe e, mesmo que ganhe aqui, você não iguala, tendo que tirar a diferença numa outra situação, e a Venezuela que vem ali próximo na tabela. Então acho que aí o Brasil vai brigar pela classificação e tem que projetar até o final da competição quais são os jogos decisivos e, com certeza, o Dunga já fez esta projeção com a comissão técnica.

Wanderley Nogueira - O país questiona o fato de a Seleção ser formada por jogadores que estão no exterior e muitos são reservas nos clubes onde estão. O que você pensa?
Vanderlei Luxemburgo - Não tem como ser diferente. O êxodo de jogadores é muito grande. Eu tenho certeza que em 2014 vamos ter muito mais brasileiros naturalizados jogando contra o Brasil aqui na Copa do Brasil, com muitos mais jogadores do que só um ou dois. Serão muito mais porque estão saindo 17 anos. Dezessete mais seis, são 23 anos, 24 anos, estarão jogando aqui no Brasil, como já está acontecendo em alguns países aí que você pergunta "quem é esse cara?". É brasileiro. É que nem o africano que vai para lá e está acontecendo muito isso aí. Não existe uma identidade do povo brasileiro com o atleta brasileiro. Não existe, porque os jogadores jogam fora do Brasil. E você só consegue envolver a Seleção Brasileira. Essas vaias contundentes que nós estamos vendo por aí é porque você não está aqui todos os dias jogando. Mesmo assim, antigamente, eu lembro que antes da Copa de 1970, o Paulo Cesar Caju foi vaiado aqui no Morumbi, porque a rivalidade era muito grande. Você imagina a Seleção de 70 que a maioria dos jogadores atuava no Brasil. Então você só consegue fazer com que a população brasileira se identifique e que faça uma sintonia com a Seleção em competição. Na Copa do Mundo ou na Copa América. Fora isso, você não consegue envolver.

Wanderley Nogueira - Mas a questão não é essa... são reservas...
Vanderlei Luxemburgo - Jogadores que atuam no Brasil como titular jogam fora e ficam na reserva de algumas equipes. Mas não é a primeira vez que isso acontece. O problema não é jogar ou não jogar como titular. O problema está na perda da referência e você não ter referência. Você tinha uma referência que era o Ronaldo... ou algumas referências, que eram o Ronaldo, o Cafu, o Roberto Carlos, o Dida, o Marcos, o Zé Roberto, o Rivaldo. E quando esses jogadores iam atuar, eles chamavam a responsabilidade daquilo que o treinador fazia para dentro do campo e o adversário dizia "olha aqui. Nós vamos jogar hoje contra o Cafu, contra o Roberto Carlos, contra o Ronaldo, contra o Zé Roberto, contra o outro, o outro. Opa!". Ficava diferente. É um momento de transição na Seleção Brasileira, inclusive com essas referências. Para que o adversário se sinta intimidado.

Wanderley Nogueira - Perdeu o respeito...
Vanderlei Luxemburgo - O que aconteceu contra a Argentina e contra o Paraguai é que, se a Argentina fosse um pouco mais ousada, teria conseguido o resultado. Porque o Paraguai simplesmente... eu perdi o jogo para o Paraguai lá, mas eles tiveram que sofrer para ganhar, porque eu tinha os jogadores... Rivaldo. Todo mundo estava lá.

Wanderley Nogueira - Cafu foi expulso com 20 minutos de jogo.
Vanderlei Luxemburgo - Cafu foi expulso com 20 minutos de jogo e nós sofremos muito lá. Mas tinha isso aqui. E acontece o seguinte: neste jogo, eles (os paraguaios) falaram que iriam ganhar, que iriam passar por cima e passaram por cima. Porque não tinha quem falasse assim, na preleção... O jogador (isso é coisa de boleiro). O jogador falar "c...! Eu tenho que marcar o Ronaldo. Eu vou e tu sobra (sic). Eu vou dois e sobra mais um. Mas se eu marcar o Ronaldo.... Quem vai pegar o Roberto Carlos? Quem vai pegar o fulano?". Aí você sabe que está próximo. Aí é que essa transição está muito preocupante. É a transição e se firmar como referência mesmo. Chegar dentro do jogo e dizer "eu sou a bola da vez. Dá essa p... dessa bola para mim que eu vou fazer o negócio funcionar".

» Veja a parte 2 da entrevista

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