Eliminatórias Mundial 2010

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Quinta, 26 de junho de 2008, 11h42 Atualizada às 12h39

Luxemburgo critica Kaká e Ronaldinho - Parte 2

Siga a segunda parte da entrevista:

Wanderley Nogueira - Você não vê ninguém capaz disso?
Vanderlei Luxemburgo - É isso... Mas é um momento de transição. Eu vejo, mas não quero citar nomes. Aí é que está. Quem vai chamar a responsabilidade. Quem vai dizer assim "está difícil aqui, vem aqui". Parece uma coisinha muito fácil de falar, mas é uma geração que acabou e outra que está chegando com pessoas remanescentes que eram coadjuvantes. O Ronaldinho era coadjuvante daquela Seleção, o Kaká também, o Robinho disputou uma Copa do Mundo, mas não é uma... Entendeu? Então, se você pegar as duas Copas do Mundo, aquela que foi campeã do mundo com o Felipão, você tem o Kaká e o Ronaldinho e o Lúcio. São três jogadores. Há o Gilberto Silva. Mas o Gilberto Silva vem há um ano no Arsenal e na Seleção Brasileira com altos e baixos. Você pode falar que dentro da Seleção Brasileira tem três nomes remanescentes que servem de base hoje, que são Ronaldinho, Kaká e Lúcio. Então é complicado isso aí.

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Wanderley Nogueira - Kaká, Ronaldinho e Lúcio. Você diria que esses jogadores seriam seus titulares ou não?
Vanderlei Luxemburgo - Eu não quero entrar no mérito disso, senão vai ficar assim... Eu sou bem prático. Nós estamos fazendo essa entrevista aqui, eu nunca falei sobre isso para ninguém, estou fazendo uma entrevista que eu nunca fiz com ninguém, eu não quero entrar no mérito desse negócio de Seleção Brasileira, como se eu fosse técnico...

Wanderley Nogueira - Você é a bola da vez...
Vanderlei Luxemburgo - Mas eu não quero falar sobre isso. Não sou obrigado a falar.

Wanderley Nogueira - Seriam seus titulares?
Vanderlei Luxemburgo - Eu não sei o que está acontecendo. Há algum problema. Isso todos nós sabemos, mas eu não sei identificar o problema.

Wanderley Nogueira - Seriam os dois jogadores diferenciados? Imagino que sim.
Vanderlei Luxemburgo - Sim, são diferentes.

Wanderley Nogueira - E jogador diferenciado tem que ter tratamento diferente?
Vanderlei Luxemburgo - Não, não é assim.

Wanderley Nogueira - Não?
Vanderlei Luxemburgo - Não é assim que funciona.

Wanderley Nogueira - Não têm alguns privilégios?
Vanderlei Luxemburgo - Não

Wanderley Nogueira - Nenhum?
Vanderlei Luxemburgo - Nenhum. Privilégio é o salário, a conquista, é ganhar 100 milhões. Aí que está o privilégio. Tem que saber se esse jogador quer a Seleção e a Seleção quer o jogador. O que o Ronaldinho fez não merecia a Seleção Brasileira nesta última temporada. Então você tem que falar para o Ronaldinho: "olha aqui, meu garoto, você quer a Seleção Brasileira, mas esquece tudo o que você está fazendo que você vai vir pra cá. Agora você tem que falar que você quer a Seleção Brasileira!". Eu vou te dar a chance aqui. A primeira atitude minha na Seleção Brasileira foi virar para o Roberto Carlos e falar "vem aqui, e o seu relógio?". Fui lá a Madri (Espanha). "Você tinha que falar para a população...". Ele "não foi uma brincadeira...". Mas repercutiu mal. "Você esqueceu o relógio? Você quer ser o Roberto Carlos comigo, eu vou te fazer voltar para Seleção e vou bancar sua situação, mas você tem que esquecer seu relógio".

Então, o Ronaldinho não fez por merecer a Seleção Brasileira. Jogou 13 vezes pelo Barcelona e não mostrou nenhum interesse, fisicamente bem, sendo o melhor jogador do mundo, em algumas atitudes dentro da sua equipe. Então, obviamente ele não deveria estar na Seleção Brasileira. Acho também que existe um antagonismo, tanto para lá quanto pra cá. Então tem que chegar e dizer "meu garoto, o que você quer? Quer Seleção Brasileira? Mas deste jeito que você está você não pode querer a Seleção Brasileira. Para Seleção é diferente, porque não tem mais o Ronaldinho, o Fenômeno, não tem mais o Rivaldo. Agora você é a bola da vez. Para ser a bola da vez, do jeito que você está jogando, você não pode ser a bola da vez. Você não vai ser referência da Seleção Brasileira com esse comportamento". Então falta esse tipo de chegar, entendeu?

Wanderley Nogueira - E o Kaká?
Vanderlei Luxemburgo - O Kaká tem demonstrado assim uma atitude. Ele sempre teve uma atitude muito nobre em termos de comportamento. Mas falta a ele ser um pouco mais sisudo, mais líder, mais tipo assim "eu sou o Kaká, melhor jogador do mundo, e eu sou a referência da Seleção Brasileira". Tem coisas que você tem que chamar a responsabilidade. Como o Didi, que pegou a bola depois do gol e falou "Dá aqui, vem cá. Essa bola é minha". Como o Pelé. Por isso eles foram eleitos os melhores do mundo. Para que, no momento oportuno, eles possam chegar botar a bola debaixo do braço e falar "é minha", mas com respeito. Você fala em privilégio, ninguém tem privilégio, nem Kaká, nem Ronaldinho tem privilégio nenhum. Não pode ter. Você pode ter contornar, com jogo de cintura, uma situaçãozinha daqui e outra dali, mas privilégios são os contratos maravilhosos que eles têm para serem eleitos os melhores do mundo. Mas quando você vem para uma Seleção Brasileira, você tem que saber a noção exata do que você representa para o teu país na expectativa do que você vai render para que a população brasileira se dê por satisfeita e feliz com aquilo que você está produzindo. Ele tem que ter esse discernimento.

Wanderley Nogueira - Você está no Estado de São Paulo, trabalhando no futebol paulista e que tem um grupo de técnicos vips. Você dirigindo o Palmeiras, o Mano Menezes, dirigindo o Corinthians, o Muricy dirigindo o São Paulo, o Leão dirigia o Santos até algum tempo, mas ainda é vinculado ao futebol de...
Vanderlei Luxemburgo - (Risos)

Wanderley Nogueira - de Santos... e o Cuca é o técnico do Santos. Então, eu queria saber de você sinceramente. Por isso que eu falei que nessa entrevista, eu acho que você vai abrir o coração e falar o que você pensa, como sempre disse. Qual é a sua relação com os técnicos de São Paulo. Eles torcem os narizes em relação a você? Qual é o grau de proximidade que você tem com um a um? Com Mano Menezes. Eu gostaria que você falasse do Mano.
Vanderlei Luxemburgo - Eu até fiquei surpreso com uma declaração que eu dei na SporTV, em que eu não falei nada demais. Eu fui perguntado por um jornalista, acho que o Cléber Machado, o que eu achava do jogo Botafogo x Corinthians. Eu disse que o Botafogo joga assim, o Corinthians joga assim. O Botafogo pode fazer assim, o outro pode fazer assim. Ainda falei na época que quem levava vantagem era o Corinthians porque tinha melhores jogadores. O Mano saiu me atacando e eu não entendi nada, porque eu não faltei com a ética. Aí também nunca perguntei por que e ele também não veio me falar. Eu só fiquei pasmado e me perguntei "será que eu disse alguma coisa? Ou tudo que eu falo é muito contestado. Será que é porque eu falo a verdade? Porque eu não sou falso de chegar e ficar omitindo as coisas? Eu sou perguntado e tudo aquilo que eu posso fazer que não seja ataque ou uma coisa que vá trazer prejuízo, eu falo, não me omito. Então achei muito... Não entendi. Eu trato o cara tão bem, quando ele ganho de mim eu liguei pra ele falei "olha, estou torcendo por você porque perder para argentino nós não podemos perder. Siga sua vida e parabéns". E de repente uma entrevista que eu dei se voltou...

O Muricy eu tenho uma relação não de amizade. Muita gente diz que ele sempre está falando alguma coisa para mim. Eu não acho isso. O Muricy é daquele jeito. Ele solta uma porção de coisas. Ele fala com as mãos e fala pra caramba na coletiva dele. Solta um trocinho daqui, outro dali e o pessoal fica chateado com ele porque ele solta trocinho pra todo lado. É o jeito dele. Eu morro de rir, estou em casa com a minha mulher e vendo a entrevista dele e morro de rir. Ele estica a boca dele para um lado, para o outro e que não sei o que. Não tenho nada contra o Muricy. E o pessoal falando "está dando resposta". Que dando resposta! No dia que eu tiver que falar: "Muricy, olha aqui. É isso", eu falo direto para ele. O Leão não. O Leão faltou um pouco com respeito comigo e não tenho nenhuma amizade com ele e nem faço questão porque ele faz questão de dizer que não quer uma relação comigo amistosa. Então ele segue a vida dele e eu sigo a minha.

Wanderley Nogueira - Em algum momento você tentou uma reaproximação?
Vanderlei Luxemburgo - Tentei, eu achei que ele se preocupou com uma coisa que não existiu. O Marcelo Teixeira falou pra ele "eu não contratei o Vanderlei na tua saída. Não tinha nada acertado". O Marcelo falou pra ele, mas ele não acredita, ele acha que eu o derrubei. Aí num dia eu falei pra ele "Leão, eu não posso te derrubar. Eu não preciso derrubar ninguém. O prestígio que eu tenho e a capacidade minha não precisa derrubar nenhum técnico. Eu sou contatado por todo mundo para poder dirigir equipes então esquece essa bobagem". Mas aí ele antagonizou e então agora eu também não quero. Então ele segue a vida dele e eu respeitando-o como cidadão e como profissional. Tanto é que eu cito sempre o nome dele respeitosamente. Ele não cita meu nome. Mas eu cito respeitosamente porque ele é um cidadão e um profissional que tem que ser respeitado. Agora amizade inexiste. Não tem que ter amizade. Toda vez que a gente vai jogar as pessoas perguntam "e agora, vai ter aperto de mão". Não tem que apertar mão, nem nada, porque não temos amizade nenhuma, entendeu?

Wanderley Nogueira - Cuca?
Vanderlei Luxemburgo - Cuca queria alugar meu apartamento, mas ele é ¿mão de vaca¿ (risos). Eu gosto muito dele. Acho que é um profissional que vai dar certo. O Cuca me lembra muito Telê Santana. A história do Telê é muito parecida com a do Cuca. Uma conquista de um campeonato importante, em 1971, com o Atlético-MG, e na seqüência só confusão. E tachado de "pé-frio", perdedor. De repente, o timing chegou, pela capacidade dele, e montou cinco anos no São Paulo. Disputou duas Copas do Mundo e não ganhou, mas montou um time maravilhoso e a carreira dele foi maravilhosa. O Cuca tem tudo para acontecer uma carreira muito boa com ele.

Wanderley Nogueira - Você está abrindo o coração e vou falar tudo o que eu ouço. Por exemplo, o Vanderlei tem sempre bons contratos, que é o caso, pela sua competência e por aquilo que você oferece, mas tem "fogo no rabo". Está no Palmeiras e fomenta convites: Lyon, Fenerbahce, Portugal, México. Esses convites existem ou alguém joga no ar? Balão de ensaio.
Vanderlei Luxemburgo - Com a experiência que você tem, é o momento também questionar as pessoas da imprensa. Eu não tenho necessidade disso. Todos os convites vieram do México para cá, da França pra cá, do outro para cá e chega aqui. Aí o filho da "p..." do camarada que é da imprensa, que não gosta de mim, ou que quer fazer alguma coisa e é um péssimo jornalista, diz que o Luxemburgo está fomentando, pergunta para o Luxemburgo aquilo ali, mas eu não falei nada. Isso mostra a minha capacidade profissional que as pessoas vêm buscar. Eu não preciso ficar buscando alternativa profissional, eles vêm me buscar aqui. Aí o pessoal acha que... Você acha que eu vou ficar me valorizando se eu já sou hiper-valorizado e ganho um salário fantástico no Brasil. Então isso aí é uma falta de preparo de parte da imprensa (não vamos generalizar) que querem fazer disso aí como se fosse o Luxemburgo que está armando uma situação. Aí, xará, é o que eu falo sobre ocupação de espaço. Eu falo umas coisas que o pessoal não gosta, mas eu falo porque sou preparado para isso. Eu participei de movimento estudantil, você também deve ter participado, para quebrar a ditadura, que muitos moleques não sabem o que foi isso aí, correr atrás de um quilo de feijão, ou participar de um movimento estudantil, e não sabem que, para quebrar os paradigmas você tem que dar a cara para apanhar. Então quando me vem uma solicitação do Lyon, do México, eu não deixo de discutir profissionalmente aquilo lá, porque nós não somos subservientes do futebol. Técnico é uma profissão que não tem associação, não tem sindicato, que não é protegido por nada, só pela sua capacidade. E eu não sou subserviente e não gostaria que os técnicos fossem subservientes. Que valorizem a profissão! Que negociem a sua profissão. Que discutam o seu contrato como você pode discutir com a Jovem Pan, indo para a Bandeirantes amanhã. Ou indo para a Record ou para qualquer outro lugar. Você não pode perder este direito. Quando eu pego essa oportunidade e vou para a imprensa discutir para que possamos ocupar o espaço, meus colegas ficam zangados e a imprensa não permite, ou parte da imprensa, que você discuta isso. Posso, devo e vou discutir, porque eu não posso ter um contrato com o Palmeiras, que eu ganho muito bem hoje e me vem amanhã uma proposta como veio para o Felipão, de 8 milhões de euros e eu vou dizer não porque o pessoal diz que eu sou "fogo no rabo" ou mercenário. Eu sou profissional de futebol e o profissional de futebol não pode estar amanhã... e você, xará, e o Milton Neves, que fazem isso, com carinho. Cadê o fulano de tal? Onde é que anda fulano de tal? O cara está numa casinha de fundo de quinta, que não sei o que, todo arrebentado, porque não foi profissional. Deixou oportunidades na sua vida profissional, para cumprir um compromisso e uma oportunidade passou pela vida dele. Eu sou profissional preparado para a profissão. Se chegar amanhã uma proposta de 6 milhões de euros para eu ir trabalhar, sabe o que vai acontecer? Eu vou discutir para saber se eu devo ou não ir com a minha família. É isso que o pessoal não gosta. Eles querem que a gente viva ainda no tempo passado.

Wanderley Nogueira - Você não pensava assim...
Vanderlei Luxemburgo - Não pensava, mas o mercado mudou, xará. Eu nunca pensei assim. Eu queria que o contrato com o técnico fosse respeitado, que a solidez na profissão existisse, só que eu estou lutando por um sindicato e uma associação nacional, e eu nunca vi ninguém vir do meu lado. Só falam assim "estamos juntos", mas ninguém vem do meu lado sentar na hora em que surge um problema sério, discutir a profissão. Quando chega um (Daniel) Passarella aqui, o que eu achei equivocado, assumir o Corinthians, e recebeu o dinheiro dele já e eu tenho meu compromisso com o Corinthians até hoje que eu não recebi. O Passarella recebeu o que ele tinha com o Corinthians. E eu tenho uma pendência na Justiça com o Corinthians que até hoje não foi recebida por mim, que sou brasileiro e vivo aqui. O (Lothar) Matthäus chegou aqui para dirigir o Atlético-PR e ninguém falou nada. Quando eu fui para a Espanha, eu tive que deixar três por cento do meu contrato com o sindicato espanhol, a associação de técnicos espanhóis para poder dirigir o Real Madrid. Essa é a briga que eu tenho aí de ocupação de espaço que eu quero fazer. Eu pensava diferente, mas chega um momento que você muda em função das coisas que estão acontecendo. O mercado do futebol virou profissional, de negócios. Não tem mais aquela coisa que um jogador vai ficar 10 anos no clube ou o treinador que fica 10 anos no clube, porque o mercado está efervescente. Toda hora aparece uma situação ou outra. O cara que beija o escudo agora, com um mês está indo embora, xará. Então eu acho que essa coisa está mudando e eu quero dar uma demonstração que você tem que ser profissional. Regras de contrato estabelecidas, você cumpre o que está estabelecido no contrato.

Wanderley Nogueira - Você disse recentemente que, se o Palmeiras não pagasse os compromissos atrasados até uma data estipulada pela diretoria, obviamente, que teria briga. Todo mundo entendeu que a briga que você quis dizer era uma confusão, discussão ou cobrança. E aí, numa última declaração, o Toninho Cecílio, que é o homem que dirige o futebol, diretor remunerado, disse mais ou menos o seguinte: "o Palmeiras está se esforçando, é verdade, para pagar os atrasados. Novos atrasados poderão surgir eventualmente no futuro. Isso pode acontecer. Mas, eu quero deixar bem claro: os incomodados que se mudem". Mais ou menos isso. Sobre esse episódio, eu queria que você falasse um pouco, por favor.
Vanderlei Luxemburgo - Eu nunca trabalhei, não gosto de trabalhar, talvez por isso não tenha aceitado alguns convites do Rio de Janeiro. Foi problema com o Flamengo, o clube que eu mais gosto, que eu adoro, penso até em ser presidente do Flamengo um dia, foi quando o Márcio Braga falou pra mim que, para trabalhar no Flamengo, tinha que trabalhar no vermelho para chegar no verde. Eu falei que não fazia contrato de risco. Então ele falou, mas eu tenho US$ 200 mil. Ele disse "então você me empresta". Então eu não aceito esse tipo de coisa e acho que, da maneira como eu trabalho, e acho que essa maneira é a que deve ser feita, é você cobrar profissionalismo do atleta. Você não tem que pedir "por favor". Você não tem que falar para o atleta "ah, não sei se amanhã vai sair, quebra um galho aqui". Quem quebra galho é macaco gordo. Jogador de futebol tem que jogar e tem que ser cobrado 100%. Eu não posso chegar para o Valdívia e dizer: "se você tomar cartão amarelo eu vou te multar, porque você não pode tomar cartão de graça. Está prejudicando a equipe, você não pode ter esse tipo de comportamento". A partir do momento em que você tem uma brecha que ele diga "mas não estão cumprindo comigo o que tem que cumprir", acabou. Estou morto. Então profissionalismo na acepção da palavra.

Eu conheço essa diretoria do Palmeiras, que eu trabalhei com eles bastante tempo. E o Palmeiras veio acumulando problemas em cima de problemas. Ano passado foram seis, sete vezes que atrasou o salário. Então, neste ano, foi a primeira vez. Não quero, não gostaria que fosse. Mas eles falaram "não, vamos conversar com os jogadores, dar um prazo até terça-feira". Quando eu falei para a imprensa que era para terça-feira, eu falei com o Toninho (Cecílio) aqui na minha sala, e ele falou com os jogadores. Então ele foi lá e deu uma declaração tentando esclarecer e já falei com ele de novo. "A porta da casa é serventia da rua", eu não sabia que ele havia dito isso aí. Aí eu o chamei e disse "preste bem atenção". E ele é jovem, ele está começando essa atividade recentemente. Então estas turbulências podem de repente desencadear... Uma coisa que pode ser resolvida, desencadeia uma crise muito grande em declarações. E as declarações vão para a imprensa e não voltam mais. Todo mundo vai discutir aquilo. E hoje, pelo amadurecimento que tenho, você me conhece há 500 anos, eu intempestivamente já dei tantas declarações, trabalhei em cima de declarações, briguei com Telê Santana, em cima de declaração. Então você tem que ter muito cuidado com declarações porque você fica "esnocado" (sic) em cima da própria declaração. Depois não há como voltar atrás. Eu expliquei para o Toninho que ele diga que, se não pagar na terça-feira é porque aconteceu algum imprevisto que ele possa pedir mais um prazozinho. Ele quis passar isso, mas passou de uma maneira que houve confronto. Dá a entender que há um confronto comigo ou com o elenco quando não tem confronto nenhum. Isso será resolvido naturalmente, com inteligência para que não se faça de um atraso em que há todo o interesse do clube em resolver, numa crise que possa gerar desconforto para todo mundo. Todo mundo tem que aprender. Eu já aprendi muito. O Toninho vai aprender que, num momento de crise, você tem que ter um pouco mais de calma na hora de dar uma declaração porque isso é tudo esperto. Tudo vivo (sic). Ficam jogando pimenta e docinho pra você cair numa casca de banana toda hora, entendeu?

Wanderley Nogueira - Cinqüenta e nove dias. É a janela. De 31/06 a 31/08 e, neste período, muita gente vai embora ou não. Eu, pessoalmente, imaginava que logo que abrisse a janela, seria uma revoada. Mas, é estranho o que está acontecendo ou é normal? Porque até agora ninguém foi embora, com uma ou outra exceção.
Vanderlei Luxemburgo - É normal. Xará, se você pegar as janelas passadas também foi assim. O europeu não chega aqui e fala "vou contratar". Só as exceções: os jogadores fora de série. E alguns casos já estão fechados, só não podem ainda ser colocadas. Não é o caso do Palmeiras.Wanderley Nogueira - Mas quando pode?
Vanderlei Luxemburgo - Na hora que tiver acertado toda a documentação, pagamento.

Wanderley Nogueira - Então você crê que muita gente vai embora?
Vanderlei Luxemburgo - Muita gente vai embora, não tenha dúvida.

Wanderley Nogueira - De todos os clubes?
Vanderlei Luxemburgo - Vai. E outra coisa, o mercado é sempre assim. O mercado começa, ele abre, mas ninguém vai. O europeu vai negociando. Aí vem a história da mudança de comportamento meu. É um negócio. Negócio você esgota até o final para tirar o melhor proveito do negócio. Então eu não vou fechar aqui com o jogador porque eu quero por 30 milhões. Eu posso deixar para última janela, de repente, quem está com a corda no pescoço pode vender mais barato. Cai o preço. É a mesma coisa se você for à minha loja de automóveis que eu tinha e falar: "Luxa, eu quero vender meu carro". Eu falo: "só vale dez contos". Aí eu falo: "xará, você quer comprar o carro", entendeu? É diferente você me oferecer ou eu te oferecer o negócio. Então esse é o mercado do futebol, que hoje existe negócio de muito dinheiro circulando. É preciso muita calma para se fazer o melhor negócio.

Wanderley Nogueira - Quer dizer que você acha que muitos negócios já estão fechados. Só ainda não foram divulgados, porque no momento oportuno serão?
Vanderlei Luxemburgo - Isso mesmo. Muitos ainda não foram divulgados e muita gente do Brasil vai sair.

Wanderley Nogueira - E esse negócio que a gente ouve de dirigentes, de uma forma geral, uns dizem mais explicitamente, outros não. "Nem pensar! Ou paga a multa rescisória integral, ou não leva o jogador". E a gente sabe que alguns valores são absolutamente irreais. Quer dizer, isso não existe. É uma discussão, vai reduzir, vai ter desconto e, se não vender, perde o jogador que o corpo poderá estar aqui, mas a alma estará longe.
Vanderlei Luxemburgo - Xará, essa discussão é de negócio. É que o nosso negócio, o futebol, ele é transparente, ele vai para a mídia. Mas o outro do banco, de uma compra de imóvel, é tudo negócio. Você vai discutir o negócio para fazer o melhor. Então esse negócio de dizer eu não vendo meu jogador, o cara está doido para vender o jogador, mas eu não vendo. Porque ele não vai falar que vende o jogador. Se eu falar, eram 10 milhões, cai para cinco. Agora se eu falar, "não vendo", o cara lá vai ter que perceber: "será que esse cara não está blefando? Será que ele não vende mesmo ou está dizendo para pagar o preço que é mesmo?". Então eles esperam até a última semana que vai fechar a janela para saber se é verdade ou mentira que ele não vende mesmo, ou se vai vender. Tem muito empresário que joga o negócio na mídia para poder valorizar. É o que dizem que eu faço. Que o Luxemburgo está indo embora para o Lyon para me valorizar. Muita gente fala mesmo "olha, estou jogando essa coisa aí para ver o que vai acontecer". É o mercado do futebol.

Wanderley Nogueira - E o jogador de futebol que sabe que vai ser negociado. Aquele que já foi está tranqüilo, sabe que vai. Mas aquele que pode ir embora, tem potencial para ir e resolver a situação econômica dele e da família para o resto da vida. Como fica a cabeça desse jogador e como se administra isso? Porque eu imagino, eu lembro sempre do Luizão, você sabe bem da história. Ele iria para o futebol alemão, foi jogar...
Vanderlei Luxemburgo - E eu falei para não jogar porque estava vendido.

Wanderley Nogueira - Estourou o joelho e perdeu US$ 15 milhões. Como fica isso?
Vanderlei Luxemburgo - Eu vi o documento na minha frente. Eu falei assim: "não joga".

Wanderley Nogueira - Você falou?
Vanderlei Luxemburgo - Falei. "Não joga". Pergunte para o Luizão. Mas o clube quis que jogasse. Eu falei: "não joga que você está vendido". Aí aquele da HMTF, era um inglês lá, que diz que havia o fax, mas não está confirmado. Acho que era o Borussia Dortmund. Então jogou e perdeu a grana todinha, o clube também. Aí é uma coisa que não dá para você... eu falei isso na coletiva outro dia... Não dá mais para você ser taxativo como antigamente. Eu falei em cima do Marcos, da declaração do Marcos. Ele aprendeu. Eu falei "vem cá, meu filho, vamos aprender um pouquinho agora, você está ficando quase um treinador mesmo". Você deu uma declaração que há algum tempo cabia, porque eu também já fiz isso. Hoje não cabe mais. É um negócio o futebol. Você não vai vender na hora que você quer. Não vai renovar o contrato da maneira que você quer. Hoje é tudo mais difícil. Há um intermediário, você tem o cara que analisa, vêm para cá quatro, cinco pessoas para analisar o comportamento do jogador. Aí um diz que sim, outro que não então há uma série de complicações até chegar na venda. Então não tem um prazo determinado para isso aqui. A outra é o seguinte. Eu acho que vai ter negócio de jogador de futebol, mas acho que será mais reduzido. Por que? Porque o futebol voltou a oferecer aos atletas brasileiros a possibilidade de ficar aqui bem remunerado, porque nossa moeda fortaleceu. O Brasil cresceu 5%, isso já está respingando no futebol. Os parceiros estão chegando e os clubes estão se fortalecendo e com isso você consegue manter os jogadores aqui. Então essa coisa para o próximo ano, para 2009, vamos ter um Brasil muito mais forte para manter jogador no Brasil. Porque nossa moeda está forte, com o crescimento do Brasil, e os parceiros que chegaram agora e descobriram o futebol como um grande negócio dentro da Lei Pelé. Então você vê a Traffic chegando. Ótimo! Você vê um Sondas chegando. Ótimo. Esses parceiros são todos bem-vindos ao futebol brasileiro. O clube é uma empresa. Acabou essa história de renda. A televisão está pagando muito dinheiro. Há muito dinheiro dentro do mercado, então descobriram que essa matéria-prima do futebol brasileiro é a melhor do mundo. Então, ao invés de investir na bolsa, os grupos investem no mercado do futebol como negócio. Dinheiro limpo que eu aplico no futebol e que eu vou aferir lucros em não é nada ilegal. Dinheiro bom do mercado que quer investir no futebol brasileiro.

Wanderley Nogueira - Última pergunta sobre Seleção Brasileira...
Vanderlei Luxemburgo - De novo!

Wanderley Nogueira - De novo. Por que só joga na Seleção Brasileira quem joga no exterior?
Vanderlei Luxemburgo - Eu acho que é porque o êxodo de jogadores é muito rápida e muito precoce e lá fora se destacam. Eu vou te falar porque, xará. Nos últimos quatro anos, quais foram os melhores jogadores do Brasil? Tevez, duas vezes Rogério Ceni e o Valdívia. Então você vê que nossos jogadores não estão aqui. Não surgiu nenhum grande jogador. Então você vai ver que estamos carentes de jogadores aqui no Brasil. E os que se destacam aqui, em seguida estão indo embora. Por isso que eu acho que a chegada destes empreendedores, destes investidores e o crescimento da moeda vai fazer com que o Brasil possa manter seus jogadores por mais tempo aqui. De repente, nós vamos ter jogadores convocados aqui, jogando no Brasil. Acho que vamos chegar nesta situação de oferecer. O que é oferecer? A situação do Hernanes, por exemplo. Vamos dizer que o Hernanes tem uma proposta de 20 milhões...
Wanderley Nogueira - Você o considera um grande jogador?
Vanderlei Luxemburgo - Um grande jogador. Um dos melhores que tem no Brasil. O melhor jogador que tem no Brasil. Um jogador fantástico. Gosto da maneira como ele se movimenta, como toca na bola com a direita, com a esquerda, é um excelente jogador. Vamos supor que seja 10 milhões de euros. O São Paulo não tem parceiros. Vamos botar ele no Palmeiras, parceiro. Vou ficar com o jogador no Brasil. O parceiro pode chegar e proporcionar a permanência do jogador no Brasil. Ou seja, ele oferecer 20% de grana para o jogador. Dois milhões de euros. Ele faz um contrato próximo da Europa, com prazo mais largo. E fica em casa. O parceiro passou a ficar com 20% de uma negociação futura, que pode ser 10, 15 ou 20, ele vai aferir lucros. Então o parceiro te proporciona essa possibilidade de o jogador ficar mais tempo jogando no Brasil. Eu acho que aí começa a ter o jogador. E a outra está na mudança da lei. Quando você faz o primeiro contrato de 16 a 21 anos. Você não consegue mais ter jogador no Brasil. Quando o jogador faz 19 anos, já está o empresário dizendo "não renova mais não. Vou te levar para fora". Agora se você fizer com 16 até 23 anos, eu vou ter uma capacidade de aferição melhor. Aquele que eu posso fazer de um ano se ele vai se destacar ou não. Se aparecer um Robinho ou um Pato, eu faço até 23 anos e pago a multa. A multa é a que foi do Pato: 20 ou 25 milhões. A do Robinho: 30 milhões. Aí tem que vender.

Wanderley Nogueira - Obrigado pela entrevista, Vanderlei
Vanderlei Luxemburgo - Obrigado, foi uma entrevista muito boa, deu para esclarecer muitas coisas que o tempo é bom e o perguntador é bom, né? Mais ou menos, já foi melhor também (risos).

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