Atualizada às 10h35
Rob Hughes
Diego Armando Maradona, o ídolo argentino que quase morreu devido a um abuso de drogas e álcool e à obesidade, um ano e meio atrás, vai se tornar técnico da seleção de futebol de seu país. A idéia é praticamente inacreditável, mas ainda assim certamente faz bater mais forte o coração de qualquer pessoa que um dia o tenha visto em campo.
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O maravilhoso e voluntarioso Maradona, muitas vezes descontrolado dentro e fora do campo, emergiu de uma reunião com o presidente da federação argentina de futebol, a AFA, e declarou em entrevista ao canal Fox Sports que "talvez ainda seja cedo demais para congratulações, mas a idéia me seduz".
Até mesmo com palavras ele encontra um jeito criativo de se expressar. Maradona de certa forma se confirmou como o equivalente masculino de Eva Perón, a atriz que encantou a tal ponto o presidente da Argentina que este decidiu pedi-la em casamento, e permitiu que ela ajudasse a dar forma ao destino do país.
Maradona igualmente faz efeito sobre os presidentes. É amigo, e recebeu muitos elogios públicos, do antigo chefe de Estado argentino Carlos Menem. E quem o ajudou a se livrar dos vícios que o deixaram perto da morte foi o cubano Fidel Castro. Na terça-feira, foi uma reunião com Julio Grondona, 77, que aparentemente permitiu que Maradona saltasse na frente dos demais candidatos e se tornasse o homem encarregado de salvar a seleção nacional.
Grondona é um dos veteranos entre os dirigentes da Fifa, a organização que controla o futebol mundial. Esteve sempre ao lado de João Havelange, o brasileiro que transformou o poder financeiro da entidade no período em este que a dirigiu, até 1998, e depois se tornou um dos principais vice-presidentes da organização na gestão Sepp Blatter, posto que mantém até hoje.
O mais importante é que Grondona já presidia a AFA quando Maradona era menino, e mais tarde quando o jogador capitaneou o time que conquistou a Copa do Mundo de 1986. Grondona também fez parte do comitê de dirigentes da Fifa que se viu forçado a excluir Maradona da equipe argentina que se preparava para a Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos, devido à condenação do jogador por abuso de estimulantes. "Eles me mataram!", acusou o ex-jogador.
Mas até hoje as notas biográficas sobre Grondona no site da Fifa afirmam que seu jogador de futebol favorito em todas as eras foi Diego Maradona. E no dia da entrevista que lhe valeu o cargo, era possível sentir o elo quase paternal que existe entre o antigo jogador e o dirigente. A caminho da reunião, em Buenos Aires, Grondona comentou a jornalistas que "todos" os técnicos da Argentina tinham chance de conquistar o comando da seleção nacional.
"A decisão de Basile foi inesperada", ele afirmou, sobre a súbita renúncia de Alfio Basile, o técnico da equipe nacional até 16 de outubro, quando ele renunciou abruptamente depois de uma surpreendente derrota no Chile. "Nós analisaremos bem a situação e não queremos cometer erros".
Os jornalistas tentaram pressioná-lo, e mencionaram os nomes de três técnicos argentinos respeitados - Carlos Bianchi, Miguel Angel Russo e Sergio Batista. E acrescentaram o nome de um futebolista que tentou por um breve período a carreira como técnico, muito tempo atrás: Maradona. "Todos", disse o presidente. "Todos".
Quando os jornalistas insistiram, Grondona respondeu que "as coisas funcionam como funcionam em nossas casas. O homem diz o que quiser, mas no fim quem decide é a mulher". Ele entrou no edifício da federação para a reunião, enquanto a mídia flertava com as possibilidades - talvez Bianchi como técnico e Maradona como assistente.
Mas Maradona - hoje mais uma personalidade televisiva do que um futebolista - sugeriu à rádio La Red que "àqueles que afirmam que não tenho experiência, respondo que a tática é relativa; o importante é contar com bons jogadores". E isso a Argentina tem. Entre os bons e potencialmente grandes jogadores estão Lionel Messi e Sergio Aguero, dois jovens cujos movimentos rápidos e inspiração lembram ao menos um pouco o estilo de Maradona.
Mas eles e a seleção nacional vêm sofrendo de falta de fé e liderança. A Argentina, talvez o país com mais talento futebolístico no planeta, hoje em dia, registrou uma seqüência de resultados de uma vitória, seis empates e uma derrota, culminando com a saída de Basile. A pressão por Maradona tem mais a ver com instinto do que com a confiança em sua capacidade de motivar. Não há histórico que prove se ele é capaz de motivar jogadores, ainda que seu passado seja uma inspiração.
"Tenho o máximo respeito por Diego", disse Jorge Valdano, que foi seu colega de ataque na seleção argentina. "Mas ele não realizou o trabalho de base que é necessário a um técnico interessado em uma posição elevada. A escolha me parece um risco".
No entanto, o risco foi minorado pela decisão da AFA de trazer Carlos Bilardo, o técnico de Maradona em 1986, para um cargo de supervisão no qual ele serviria como mentor a Maradona. A escolha ainda não foi formalmente ratificada, e só o será em 4 de novembro, quando o comitê executivo da AFA se reunirá para confirmar a indicação.
Mas Maradona, cuja intrigante jornada pessoal começou 48 anos atrás, em 30 de outubro de 1960 na Villa Fiorito, uma "vila miséria" nos subúrbios de Buenos Aires, já fala como técnico. "Meu primeiro trabalho será observar os jogadores e escolher os que estiverem em melhor forma", disse. "Vou tentar conversar pessoalmente com todos, primeiros os daqui e depois os da Europa".
"Tão logo seja confirmado, começo a trabalhar. Posso afirmar que estou muito orgulhoso e que deixarei tudo mais de lado por isso. Minha tarefa é criar um grupo sólido. Tenho certeza de que os rapazes e o futebol argentino se sairão bem".
Enquanto acompanho as notícias, me recordo de uma visita a Fiorito, onde 30 anos atrás uma velha senhora me disse: "Esqueça Maradona. Ele se esqueceu de nós". Nem tanto, senhora. Nem tanto.
Herald Tribune