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Paulo Campos: experiência galática a serviço do Resende

23 jan 2011
08h31
Emanuel Colombari

Já são três décadas de carreira, mas Paulo Campos ainda não é um nome lembrado de forma clara por boa parte dos torcedores no Brasil. Técnico com vasta experiência no exterior, principalmente no Oriente Médio, Campos tem no currículo passagens recentes por clubes como Paraná (2004 a 2005), Paysandu (2005), Fluminense (2006), Náutico (2006) e Criciúma (2008), além de ter trabalhado como assistente técnico da Seleção Sub-20 em 2003.

Este "desconhecido", porém, tem ainda uma passagem em seu currículo que poucos profissionais da área na América do Sul podem se gabar de igualar: foi auxiliar técnico do Real Madrid, durante a passagem de Vanderlei Luxemburgo pela capital espanhola em 2005. Mesmo assim, deixa de lado o "folclore" e prefere mostrar mais entusiasmo em seu mais recente desafio: treinar o Resende no Campeonato Carioca. "Isso aqui para mim é como se fosse uma grande diversão", afirma, adotando uma postura política sobre o Real.

Vindo de uma experiência no Sudão - onde foi campeão com o Al Hilal, mas teve problemas -, Campos atendeu ao Terra para contar sobre a carreira, as passagens por Oriente Médio e África, e a passagem pelo Real Madrid. Otimista, não esconde que sua meta para 2011 é colocar o Resende em uma competição nacional - Série D ou Copa do Brasil. E com uma vitória sobre o Vasco na estreia por 1 a 0 no Estádio de São Januário, pode-se dizer que a missão foi iniciada com o pé direito.

Além disso, Campos também se mostra animado com o confronto entre Resende x Flamengo, pela 7ª rodada do Taça Guanabara, que o colocará frente a frente com o amigo Vanderlei Luxemburgo - o mesmo que o levou ao Estádio Santiago Bernabéu. Animado com o Resende, Paulo Campos garante: "o Campeonato Carioca vai ser muito interessante".

Confira a entrevista:

Terra: Como foi a preparação do Resende para o Campeonato Carioca?
Paulo Campos: A equipe foi montada a partir do mês de novembro. Estávamos esperando apenas alguns atletas terminarem as competições nacionais. No princípio de dezembro, tínhamos 98% dos atletas apresentados e treinando. Praticamente agora, a equipe já está definida - a única coisa que nos prejudica no momento são as chuvas constantes que vem caindo na região, e isso prejudica muito a qualidade do treinamento.

Terra: E quem você apontaria como o destaque do time para 2011?
Paulo Campos: A grande qualidade do Resende vai ser o jogo coletivo, uma garantia de jogar à frente. Tem que ser uma equipe equilibrada, que saiba definir bem. A característica é a boa técnica, voltada ao ataque.

Terra: Seria possível repetir então o Carioca de 2009, quando o Resende foi finalista da Taça Guanabara?
Paulo Campos: É claro que o objetivo primeiro vai ser tentar buscar uma classificação para uma competição nacional. Para isso, temos que passar por 11 clubes do mesmo porte. Na verdade, são dois Campeonatos Cariocas: os quatro grandes brigando pelas finais, e os outros brigando para aproximar dos quatro e por uma vaga nacional. O que aconteceu em 2009 foi uma situação maravilhosa que tivemos a partir do momento que o Vasco da Gama perdeu pontos (seis pontos no TJD-RJ, mediante a escalação irregular de Jéferson). Não é tão fácil repetir, mas vamos tentar buscar.

Terra: O senhor ainda não tem uma grande projeção nacional, mesmo com três décadas de carreira. Acha que falta um trabalho consistente na Série A, por exemplo?
Paulo Campos: A minha carreira foi 90% definida no exterior. A passagem que eu tenho é de quase 25 anos fora do Brasil. Aqui no Brasil, algumas situações aconteceram, como Fluminense, Paraná, Náutico, Paysandu... Clubes de Série A, Série B. Permaneci pouco tempo. Graças a Deus, pude trabalhar em clubes do Brasil, mesmo que por pouco tempo, mas por ter tido a oportunidade de trabalhar em dez países ou mais. Fico muito satisfeito com as oportunidades que aparecem, e temos que saber se podemos lidar com essas oportunidades. Voltei no meio do ano passado e estou muito feliz. Isso aqui para mim é como se fosse uma grande diversão.

Terra: O senhor fez longos trabalhos no Oriente Médio, com bons resultados - foram títulos no Catar, no Kuwait, na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos. Por que sair de lá?
Paulo Campos: Dificilmente digo que quero trabalhar aqui ou lá. As oportunidades aparecem. Enquanto estou aqui, tive duas propostas de fora e não fui. Preferi ficar aqui, mesmo tendo melhores condições financeiras lá fora. É o momento de estar aqui, disputar uma Série A do Carioca contra grandes equipes, com a família ao lado. Foi uma opção e estou feliz por tê-la tomado.

Terra: Entre 2009 e 2010, o senhor estava no Sudão, com bons resultados - foi campeão do Campeonato Sudanês e da Copa do Sudão. Por que motivo então encerrar uma boa campanha como essa?
Paulo Campos:
Por um processo de falta de pagamento de alguns meses do primeiro anos de contrato (eram dois). O que aconteceu foi que o presidente pelo qual eu tinha ido se candidatou à presidência da federação sudanesa e deixou o clube. As pessoas que assumiram, por um motivo que cabe a eles, resolveram não continuar o meu contrato. Por isso, havia uma condição para que eu entrasse judicialmente contra eles. Busquei o meu direito, mesmo tendo sido campeão de tudo lá. Voltei ao Brasil, estou trabalhando hoje aqui e tenho uma causa na Fifa contra o clube.

Terra: O futebol carioca está em alta, com uma final de Libertadores (Fluminense, 2008) e dois títulos brasileiros em três anos. Isso pesa no retorno?
Paulo Campos: O futebol carioca vem vivendo grandes momentos, não somente pelas conquistas. Acho que já vem acontecendo uma sequência de fatos, dos times cariocas fazerem boas campanhas. Isso é muito mais que um estímulo a todos os clubes cariocas. A gente respeita muito futebol de São Paulo, do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais, mas eu diria que o Rio tem uma ênfase não somente a técnica, que era nosso carro-chefe. Hoje em dia, você vê time com técnica, com força, com agilidade - tanto que os resultados do Brasil estão mostrando isso. O Campeonato Carioca vai ser muito interessante.

Terra: O Rio tem o Duque de Caxias na Série B e o Madureira promovido à Série C. Os menores estão mais fortes?
Paulo Campos: Quando a CBF abriu as quatro séries, A, B, C e D, criou uma expectativa muito grande para todos os clubes. Não ficamos presos aos quatro grandes. Os clubes menores têm chance de almejar uma competição nacional. Isso fez com que todos se preocupassem em se preparar melhor, em revelar jogadores.

Terra: E quem seria o favorito dentre os menores do Rio?
Paulo Campos: Aí já é mais difícil. Mas pode ter certeza de que, como o Resende em 2009, diversos clubes estão sonhando.

Paulo Campos: Bom, é impossível não perguntar sobre a passagem pelo Real Madrid. São muitas as perguntas sobre essa passagem?
Paulo Campos: Acho que foi um momento único da minha carreira. Posso dizer que, graças ao Vanderlei e ao Real Madrid, como técnico brasileiro, tive uma oportunidade que poucos têm no mundo. Sinto-me muito honrado, lisonjeado por ter sido convidado com ele. É uma experiência maravilhosa com grandes jogadores.

Terra: E qual é a lembrança mais marcante daquele período?
Paulo Campos: Acho que todo os dias foram marcantes. Muitas coisas positivas aconteceram. Infelizmente, não chegamos aos títulos da Liga dos Campeões ou ao título nacional, porque simplesmente pegamos o Barcelona em grande fase - como agora também, fortíssimo. Só de jogar contra o Barcelona, representar o Real Madrid, é marcante.

Terra: Fora trabalhar com Zidane, Beckham, Ronaldo, Raúl, Roberto Carlos...
Paulo Campos: Os atletas já eram de alto nível, a comissão técnica já era de alto nível, com uma postura apaixonada. A mídia tinha cobertura 24 horas, é um clube 24 horas. Tem que ter atletas de alto nível. Foi muito positivo. Não tem esse folclore que temos no Brasil. Trabalhar com Zidane, Beckham, Raúl, Figo... Isso aí que é o fato mais marcante. Lidar com craques, jogadores de extrema inteligência.

Terra: No Campeonato Carioca, você vai reencontrar o Vanderlei Luxemburgo, mas como adversário. Como vai ser?
Paulo Campos: Vai ser um momento de muita alegria. Tenho muito carinho por ele. Trabalhamos juntos no Palmeiras em 2002 e fomos depois para o Real Madrid. Não lembro de muitas oportunidades de enfrentá-lo. Mas vai ser muito interessante. Primeiro, por jogar contra o Flamengo, uma equipe que todo mundo admira. O Resende já vai estar motivado de jogar contra o Flamengo. Claro que vou rever um amigo. Mas o futebol é jogado dentro de campo, são os atletas do Resende que vão jogar contra os do Flamengo. Espero que a torcida compareça.










Paulo Campos (à esquerda) e Vanderlei Luxemburgo: companheiros de Real Madrid, rivais de Camp. Carioca
Paulo Campos (à esquerda) e Vanderlei Luxemburgo: companheiros de Real Madrid, rivais de Camp. Carioca
Foto: AFP
Fonte: Terra

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