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Outros clubes podem copiar o Inter, diz Fernando Carvalho

5 abr 2009 - 12h20
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Foi por acreditar no sucesso e no poder colorado que Fernando Carvalho topou o desafio de assumir a presidência do Internacional em 2002. E a letra do hino que diz que "correm os anos surge o amanhã, radioso de luz, varonil" inspirou a gestão do dirigente. Em cinco anos no comando, Carvalho transformou o clube na contagem regressiva para o centenário.

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Atualmente dono da maior folha salarial do Brasil, o Inter dá exemplo de gestão responsável, mesmo sem contar com patrocínios milionários como São Paulo, Corinthians e Flamengo. O empenho no programa de associados fez com que se passasse a trabalhar com uma receita fixa, só permitida pelo maior quadro de sócios da América Latina.

Com casa arrumada, cheia, e dinheiro no bolso, Fernando Carvalho ajudou a levar o Internacional para os dois títulos mais expressivos de sua história centenária. Depois de um ano brigando contra o rebaixamento em 2002, o clube não parou de crescer e voltou a ser uma potência no futebol brasileiro, 30 anos após a gloriosa década de 70.

Por isso, falar com Fernando Carvalho significa entender o porquê de o Internacional chegar tão forte aos três dígitos de vida. Nesta entrevista exclusiva ao Terra , o atual vice de futebol explica como foi todo esse processo, mas dá detalhes de como é, desde a infância, sua ligação com as cores do clube. Lista os momentos mais marcantes e ainda indica um ídolo recente como o mais importante atleta em 100 anos de história.

Leia a entrevista na íntegra:

Terra - Conte um pouco sobre sua ligação com o Internacional. Como surgiu a identificação com o clube?
Fernando Carvalho - Minha ligação com o Inter começou cedo e eu tinha de sete a oito anos de idade. Meus pais e tios acompanhavam o clube desde o Rolo Compressor e, a partir de 1961, comecei a acompanhar também. Felizmente, no primeiro ano de torcedor, depois de cinco temporadas de predominância do Grêmio, ganhamos o Gaúcho. Na época, era muito importante.

E apesar do período de abstinência de títulos, sempre estive acompanhando o Inter e o futebol, que é meu assunto. Sempre acompanhei tudo de lá para cá e, em 1982, passei a fazer parte do Conselho Deliberativo. Me tornei advogado do clube e passei por várias gestões até me tornar presidente em 2001, depois de perder uma eleição.

Terra - O que você pensou quando assumiu a presidência do Inter?
Carvalho - Antes de ser presidente, trabalhei em alguns setores do clube, então é preciso contextualizar. Estive no departamento amador, entre 1996 e 97, e fomos campeões da Taça São Paulo. Voltando mais para trás ainda, em 88 fui vice-presidente de futebol, mas foi uma passagem frustrada. Durei quatro meses e não fui bem como dirigente. No futebol, você não pode dar respostas imediatas.

Então eu e mais dois amigos definimos que um de nós seria presidente. Aí começamos a trabalhar para isso. Voltei a ter vários cargos, trabalhei no departamento amador em 96 e 97 e foi um trabalho com dificuldades, mas que deu certo. E então passamos a implantar tudo isso no clube.

Fizemos um grupo político e o clube já era dividido em grupos. O nosso foi o "Inter Grande Cinco Estrelas" e era o grupo que pensava com planejamento estratégico e em uma visão profissional. Perdemos a eleição e passamos a pensar em reestruturar o clube, modernizá-lo e tudo foi fruto disso. Quando assumi, a primeira meta era recuperar a hegemonia regional, voltar a vencer Gre-Nais, o que não fazíamos há três anos e meio. Gradativamente passamos a implantar esse trabalho, que culminou em Libertadores e Mundial.

Terra - A transformação do clube sob seu comando é gritante. Já havia um processo em andamento ou foi tudo em sua gestão?
Carvalho - As gestões anteriores tentaram aperfeiçoar o trabalho, adaptar a uma nova realidade, mas quando assumi o clube só tinha oito mil sócios pagantes, 70 consulados e o Beira-Rio, em termos de estrutura, estava sucateado. Nosso grupo de jogadores era limitado e poucos jogadores eram contratados. A categoria de base, essa sim era boa, pois vinha do nosso trabalho. Mas a estrutura toda precisou ser trabalhada.

Terra - O que teria acontecido com um rebaixamento do Inter em 2002?
Carvalho - É muito difícil falar sob hipóteses. Todos os clubes que são rebaixados passam dificuldades, mudam de patamar e felizmente não aconteceu conosco, saímos em um último momento. Acho que foi uma provação para os colorados, para viver uma época gloriosa que foi fruto de ensinamentos.

Naquele primeiro ano, de 2002, não tínhamos receitas de associados e a de televisão era muito pequena. Então desenvolvemos um trabalho e a estratégia de vender um jogador por ano. Primeiro foi o Diogo Rincón e depois foram Nilmar, Daniel Carvalho e aí por diante. Então cumprimos os compromissos e arrumamos o time.

Terra - O que o Inter faz que serve de exemplo aos outros clubes?
Carvalho - Nós trabalhamos com a mobilização dos colorados, é uma lição que a gente dá. Claro que temos um estádio e os clubes que têm estádio próprio precisam buscar a fidelização dos torcedores. A administração dá exemplo de gestão e hoje o Inter tem ISO 9000 e seus critérios gerenciais fiscalizados. O patrimônio é um exemplo e agora mesmo estamos fazendo um museu nos moldes de Barcelona e Real Madrid, que será um orgulho.

Temos categorias de base que revelam grandes jogadores todos os anos. Vendemos o Alex e já tínhamos as reposições prontas, o Taison e Giuliano. Os clubes podem copiar isso se houver uma observação.

Terra - Você saiu da presidência e acabou retornando no ano passado, junto ao Tite, para ser vice de futebol. Por quê?
Carvalho - A principal razão é que o clube não passava por uma boa situação, tendo problemas internos e políticos. O Tite era o treinador adequado, mas sozinho, se não tivesse o apoio, e pela ligação que faziam dele com o Grêmio, com a vinculação, nossa torcida não iria recepcionar bem.

E o Tite é um dos melhores com quem já trabalhei. Então, em função disso, e com o Píffero, que é meu amigo, voltei para dar um suporte. Acabei ficando até o fim do ano e as coisas deram certo. O elenco passou por uma sensível reestruturação e conseguimos um título inédito (Copa Sul-Americana). Como era o ano do centenário e eu já estava engajado e no departamento de futebol, que é o que eu gosto e me levou para o clube, resolvi ficar nesse período.

Terra - Você pensa em voltar a ser presidente?
Carvalho - Não, é muito desgastante. Pela busca de recursos, pela gestão que tem ser feita, pelas obras no patrimônio. E o futebol é que é a minha vida.

Terra - Você tem uma relação muito forte com os jogadores e um trânsito muito grande no vestiário. A que isso se deve?
Carvalho - Sempre tentei ser um aglutinador. Quando era garoto, levava bola, camiseta, organizava o futebol. Sempre gostei de definir questões. Tenho um grupo que jogava bola há 35 anos e eu que fazia as escalações dos dois times para serem equivalentes e levava a carne para o churrasco. Então sempre gostei desse meio.

Na base, o departamento amador tem oito equipes e você passa a sentir o vestiário. Passa a saber que são meninos que precisam de uma atenção, às vezes de uma bronca, uma chamada. Mas precisam de uma referência de vestiário, que bata e assopre, e sempre me acostumei com isso.

Sempre foi essa a relação: fiscalizar, olhar, trabalhar muito e fazer pouca festa. Não tem brincadeira em vestiário. É seriedade, trabalho, e as coisas acabam dando certo porque tenho uma relação transparente. Critico e elogio publicamente, da mesma maneira.

Terra - Faltou um título mais expressivo ao Inter desde o Mundial?
Carvalho - Realmente, a temporada começou prematuramente no ano passado, com a gente indo para os Emirados Árabes. Anteciparam-se etapas de preparação física e, mais para frente, tivemos mais da metade do nosso grupo com uma hepatite mais ou menos na época dos confrontos com o Sport na Copa do Brasil.

Várias coisas aconteceram no ano passado, como a mudança de grupo e comissão técnica. Tínhamos um planejamento com o Abel, que saiu e causou um distúrbio interno. Ele é um amigo e grande profissional, mas até o Tite pegar o jeito demorou um pouco e já não tínhamos mais chances no Brasileiro.

Em 2007, houve festa em demasia por causa do título e troca de treinador, com o Gallo vindo e o Abel depois retornando. Para este ano, procuramos corrigir os problemas, mantivemos o Tite e a maioria dos jogadores. Por isso, pretendemos buscar a participação exitosa em todas as competições.

Terra - Como você se vê dentro da história de 100 anos do Inter?
Carvalho - Me vejo como um torcedor que virou dirigente e se dedicou ao máximo, trabalhando diuturnamente com um grupo de pessoas que reverteram a história gaúcha. Vivíamos um momento inferior a nossos rivais e hoje tudo se alterou. Hoje querem ser iguais ao Internacional.

Terra - O uso do Beira-Rio e a fidelização dos torcedores é o grande lema de sua administração?
Carvalho - Acho que sim. A participação do torcedor no entorno do clube foi a principal herança que fica desse período. Aí a partir disso veio a arrecadação, depois a organização, e então chegaram as vitórias. Agora é hora de manutenção.

Terra - Qual a maior alegria que você já teve como torcedor do Inter?
Carvalho - São várias. Lembro do título de 1961, do segundo em 69. Dos Brasileiros nos anos 70 e do Gre-Nal dos 5 a 2, em 1997, em que eu estava no clube. Estava como diretor nas últimas goleadas sobre o Grêmio e vencê-lo é sempre uma alegria. Mas a maior, sem dúvida, foi o título mundial.

Terra - E a maior tristeza?
Carvalho - Também não é só uma. Perder campeonatos e Gre-Nais, por exemplo. Mas uma dor imensa foi ter perdido o Gaúcho de 2006, que tínhamos um time melhor e acabamos perdendo. Mas isso nos deu ensinamentos para o título da Libertadores e do Mundial.

Terra - Como é sua relação com o Grêmio?
Carvalho - Uma relação de convivência, tranqüila e pacífica. Há respeito e é o grande adversário que temos.

Terra - Quem é o maior jogador da história do Internacional?
Carvalho - Fernandão.

Terra - Qual o momento mais importante?
Carvalho - O que vivi foi aquela ida para o Mundial e os dois jogos. Aqueles 15 dias no Japão foram os mais importantes.

Fernando Carvalho é um dos responsáveis pela volta do Inter às grandes conquistas
Fernando Carvalho é um dos responsáveis pela volta do Inter às grandes conquistas
Foto: Divulgação
Fonte: Especial para Terra
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