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Entre herói e celebridade, Ronaldo arrasa sua imagem pública

1 mar 2009 - 10h35
(atualizado às 15h55)
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O argentino Alfredo Di Stéfano, jogador que fez história no Real Madrid entre 1953 e 1964, disse uma vez que não queria ser idolatrado, queria apenas jogar bola. Se vivesse hoje, em tempos de Big Brother e quando o jogador de futebol virou celebridade, Di Stéfano talvez não suportasse o assédio.

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Ronaldo, que também não vem suportando bem a fama, parece representar, hoje, o avesso de Di Stéfano. Sem jogar, mas amplamente idolatrado, continua sendo notícia por suas aventuras fora de campo. Na mais recente, foi flagrado em uma boate em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, até cinco horas da manhã, perdendo o horário da reapresentação e o treino da manhã seguinte. O jogador parece passear pelo universo do herói e da celebridade sem se fixar em nenhum deles, e absorvendo o lado mais nocivo de cada um.

"A categoria herói vem carregada de uma mitificação que não aprecio", diz Flavio de Campos, historiador professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo e que pesquisa sobre o futebol desde a Idade Média. "Ronaldo é uma celebridade, sim. É super famoso, foi um dos melhores durante um período. É muito rico e tem poder econômico".

Mas, com problemas recentes, Ronaldo acrescentou mais um episódio fora de campo em sua biografia. E acaba por arranhar a imagem pública do herói, ou do ídolo, criada a partir das conquistas como jogador. Ronaldo, cada vez mais, atrai para si o rótulo de jogador boêmio, diferente do que carregava no início da carreira, quando era apenas um atleta fisicamente muito promissor, tecnicamente exemplar, além de ser um sujeito pacato e de origem humilde.

Na opinião de Flavio de Campos, Ronaldo vive o dilema de ter o corpo e a vida disciplinados, além da tensão permanente desde o início da carreira. Um processo que, de certa forma, tem desaguado nos últimos episódios que o envolvem fora de campo e em sua reputação perante a sociedade.

Histórico crescente

Mas o que faz Ronaldo, esse cara simples e talentoso, espanar? "No Brasil a divisão entre o ídolo e a celebridade é uma coisa complicada", diz João Paulo Streapco, historiador que desenvolve pesquisa sobre o futebol na Universidade de São Paulo. "A Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, foi, para o Brasil, uma desorganização tremenda. A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) é responsável pelo circo, mas não responde nessas horas. Aí, a culpa é do Ronaldo, do Adriano, do Roberto Carlos. Isso alimenta o discurso ufanista, que é perigoso", lembra Flavio.

Para ele, o ufanismo desse discurso fala da alma sacra da Seleção. "A Seleção é sagrada, não pode macular, pipocar. E esse peso cai nas costas do maior ídolo. Depois, do episódio dos travestis (no último ano, Ronaldo foi parar na delegacia, acusado por um travesti de não querer pagar por um programa) se recuperam elementos que vão sempre voltar para puni-lo. Ele pode jogar, fazer um monte de gols, levar ao título paulista, ser um sucesso, mas, na primeira falha, esses elementos serão reativados" diz.

Na opinião de Streapco, a situação que envolve Ronaldo e as grandes estrelas do futebol colabora para a invasão à vida pessoal do atacante. "Esse comportamento de celebridade é instigado, pois são mimados por dirigentes, empresários e assessores. A torcida em geral cobra uma postura que eles não são obrigados a ter. E aí, a celebridade vai para a balada e se cria o conflito", avalia.

Em pouco mais de dois meses de seu retorno ao futebol brasileiro, Ronaldo já acumula pelo menos três episódios em que foi visto fora de campo por casas noturnas. Ao contrário de jogadores como Romário, Edmundo, Vampeta e Renato Gaúcho, que algumas vezes caminharam com habilidade na hora de curtir a noite, o atacante corintiano causa turbulências por onde passa.

Não precisamos voltar muito no tempo para encontrar outros casos. "O Sócrates é um cara que também tinha seus privilégios, o Gérson, o Renato Gaúcho, o Edmundo", diz Flavio.

Mas a sociedade mudou, o jogo mudou, o contexto mudou e Ronaldo é um craque à moda antiga querendo se dar bem em um universo mais bisbilhoteiro, mais cruel e muito mais invasivo do que há 20 ou 30 anos. "O Ronaldo está jogando errado para a platéia. Ele não avalia bem o clube em que se encontra, o momento de retorno da segunda divisão, além do processo político. A nervura está exposta. Falta habilidade em perceber quão perigoso é o quadro", diz Flavio.

Mais um rapaz comum

E qual o papel da imprensa, cada vez mais sedenta por escorregadas de celebridades, nisso? "A mídia espera dois comportamentos. Um é que ele fracasse, o que é terrível. É meio invejosa, negativa, acha que ele merece uma punição pela vida afetiva tumultuada. A outra parcela espera que ele dê certo, mas de um jeito meio errado. Quer que o amansem, que ele se dedique só ao Corinthians e pense na carreira como o mais importante", diz Flavio.

De fato, se dermos alguns passos para trás, poderemos fazer outra leitura dessa história toda envolvendo Ronaldo. Como faz Flavio. "Para a opinião pública, o importante é vida afetiva, o equilíbrio emocional e psicológico, a vida familiar, as relações de amizades e a capacidade de se reconstruir. Tudo isso é mais importante para a pessoa que a carreira profissional. A torcida que torce a favor de Ronaldo quer que surja nele um soldadinho disciplinado. Não gosto nem um pouco essa coisa militarizada do esporte, da eficiência, vitória por todo custo".

No final, uma certeza apenas: a de que a biografia de Ronaldo é uma das mais humanas da história do esporte, como resume Flavio:

"Na Copa de 98, ele era um garoto com uma responsabilidade absurda. O episódio (a convulsão dele às vésperas da derrota na final para a França) não está dissociado da pressão pública e da incompetência revelada ao deixarem que ele jogasse depois de ter uma convulsão. Depois, houve uma contusão gravíssima, e ele, praticamente descartado para o futebol, retornou. Sendo, inclusive, fundamental na conquista do Mundial. Era a retomada. Mas nem tanto. Porque veio mais uma lesão, também gravíssima, e ninguém mais acredita que ele consiga voltar. Mas ele volta, e vai para um clube com histórico de desorganização. É uma saga para poucos".

Entre façanhas e fraquezas, Ronaldo tem uma biografia das mais humanas
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Foto: Daniel Augusto Jr/Foto Arena / Gazeta Press
Fonte: Especial para Terra
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