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Único a vetar, Mário Sérgio assume erro: "bateria até escanteio"

27 mar 2011
18h05
atualizado às 19h57

Em 29 de setembro de 1998, Mário Sérgio assumiu um São Paulo em crise, já distante da faixa de classificação para as quartas de final do Campeonato Brasileiro, e implantou uma série de mudanças, como a obrigação das caneleiras dos treinos e o fim das definições de esquemas táticos. Na época, a maior polêmica era Zé Carlos, lateral direito que esteve na Copa do Mundo menos de três meses antes, na reserva. O técnico, porém, entrou na história por outro motivo: proibiu Rogério Ceni de bater faltas.

Rogério Ceni faz centésimo gol e aumenta vantagem

O goleiro reproduz em seu livro "Maioridade Penal" a conversa que teve com o treinador: "'Rogério, a partir de hoje você não bate mais falta. Você é o meu goleiro, mas não vai cobrar faltas. Combinado?' O que eu poderia dizer? (...) Ele mandava, eu obedecia. Chateado pra caramba (...) Só dos treinos, das dezenas de cobranças diárias, é que não abri mão."

"Quero que o Rogério se destaque pelas defesas. Ele é um dos melhores do Brasil e certamente irá se firmar na Seleção Brasileira pelas defesas, e não pelos gols. Temos excelentes cobradores e ele é mais útil no gol. Conversei com o Rogério e ele é um rapaz inteligente. Por isso, entendeu perfeitamente a minha colocação", explicou Mário Sérgio, na época, apostando mais nas cobranças de Dodô, que tinha acabado de perder pênaltis contra Sport e Vasco e se recuperava de um soco dado por um torcedor que invadiu o vestiário e lhe custou três pontos na boca.

O argumento era de que Rogério se cansava muito tendo que voltar correndo à meta depois de bater faltas. E até treinar as cobranças poderia ser uma rebeldia, já que a ordem era se aperfeiçoar como goleiro. "Quem manda é o nosso treinador. Entretanto, não vejo qualquer problema ao me deslocar até o ataque para cobrar faltas. Não há um grande desgaste no meu retorno ao gol e isso jamais me prejudicou", avisou Ceni, na primeira vez que comentou o assunto, em 1998.

Mais de 12 anos depois, o goleiro que tinha seis gols quando Mário Sérgio o vetou voltou a se aventurar no ataque já em 1999, sob o comando de Paulo César Carpegiani, contra o rival Corinthians, chegou a 100. E o treinador admite não só que errou, mas que "não percebeu um superdotado" que passou pela sua mão.

O chefe defende que, ao menos, percebeu a liderança do jogador e, mesmo dando a tarja de capitão ao zagueiro Márcio Santos, deixava Rogério Ceni, então com 25 anos, organizar o posicionamento defensivo em um quadro negro.

Mário Sérgio obteve uma má campanha no Morumbi: três vitórias, um empate e seis derrotas em dez jogos e o time correu risco de rebaixamento no Brasileiro. A diretoria até aceitou pagar multa de R$ 350 mil para romper o contrato assinado até o fim de 1999 para demiti-lo em dezembro de 1998. Mas a maior marca do técnico no Morumbi fica clara no capítulo "Sem licença para bater falta", que Rogério Ceni dedica a ele em seu livro. "Dois meses foi o maior tempo que fiquei sem bater falta. Dois meses (dez jogos) foi o tempo de permanência do Mário Sérgio no São Paulo."

Como você, que chegou a proibir o Rogério Ceni de bater faltas, o vê chegando ao centésimo gol?
Mário Sérgio:
Fico muito à vontade para falar disso. Eu achava que o que ele se desgastava para treinar faltas poderia usar para treinar no dia a dia os fundamentos da posição. Ele poderia prejudicar até a sua atuação por se desgastar indo ao ataque para bater e voltando correndo para o gol. Mas ele começou a fazer gol, gol, gol e provou que a minha tese estava errada. Ele é uma raridade no contexto mundial, um dos superdotados que passou na minha mão e não notei.

Por que você tomou aquela decisão?
Mário Sérgio: Quando cheguei ao São Paulo, ele tinha poucos gols. E eram poucos os goleiros que batiam faltas e pênaltis. Tinha o Chilavert, mas ele não tinha o perfil do Rogério. Arriscava tudo e não estava nem aí. Já o Rogério é responsável, profissional. É o único que fez isso por algo consciente, não para aparecer. Ele sabia que tinha competência para bater falta maior do que um atacante.

Então pesou o fato de ser uma novidade?
Mário Sérgio: Sim. As pessoas pegam no meu pé por isso até hoje e nem ligo. Quem é racional sabe os meus motivos. Tinha o Dodô, o França, jogadores extremamente habilidosos para bater faltas. Como ele tinha poucos gols, achei que seria muito mais útil se evitasse os gols e não os fizesse. E eu poderia treinar faltas e pênaltis com outros jogadores.

Ele te contestou quando você comunicou o veto?
Mário Sérgio:
Nunca houve briga entre nós. Foi uma conversa de dois homens, não foi nem de chefe para empregado. Ele, inteligente, mostrou o profissional que é e entendeu sem resistência. Ele poderia até ter um ressentimento, mas jamais teve isso. Gosto muito dele como homem. Tenho por ele uma admiração profunda.

Quando você deixou o São Paulo, ele comentou sobre a proibição?
Mário Sérgio: O Rogério sempre me tratou com carinho e respeito. Ele até me deu uma camisa autografada com uma dedicatória linda quando saí do clube. Tenho isso guardado até hoje porque é um motivo de muito orgulho. Ele mostrou o seu caráter como homem. Viu que o que coloquei não foi para o mal dele, mas uma visão minha coletiva. Eu não estava vendo o individual. Como técnico, minha obrigação é ver o melhor para o grupo e ele entendeu isso.

O Rogério conta que você dava liberdade para ele ajudar na organização do sistema defensivo.
Mário Sérgio: Ele é um cara que está atrás da defesa e tinha um nível precoce de inteligência, porque ele era e ainda é muito novo para isso. A grande maioria dos jogadores no Brasil não está nem aí para a parte tática, mas o Rogério é uma exceção, é um estudioso do jogo taticamente. Como último homem, ele tem como ajeitar uma precipitação no posicionamento, trazer uma informação que não estou vendo, discutir comigo algo que não coloquei. Não explorar isso é uma burrice, porque é uma continuidade da função do técnico. Algo que eu esperaria o fim do primeiro tempo para corrigir ele poderia corrigir já dentro do primeiro tempo.

O que você acha que aconteceu para todos os seus sucessores permitirem que ele voltasse a bater faltas?
Mário Sérgio: Ele decidiu bater faltas porque vislumbrou ajudar o coletivo em função do dom que ele sabia que tinha. Quando cheguei, esse negócio de ele bater faltas ainda estava se iniciando e me achei no direito de proibir. Posteriormente, ele convenceu os outros de que é bom batedor de faltas no dia a dia nos treinos. Não tem técnico que seja burro ou vaidoso em função dessa minha tese abrir mão de quem bate falta e faz gol em todos os jogos.

Quando vocês se encontram, ele comenta sobre o seu veto?
Mário Sérgio: Nunca tocou no assunto. Mas não há revolta ou aborrecimento de nenhuma parte. Não me furto de forma alguma em comentar sobre o assunto. Na época, errei. Hoje, se ele fosse meu jogador, bateria falta, pênalti, lateral, escanteio...

Hoje, ele participa até mais do jogo porque o São Paulo recua muitas bolas...
Mário Sérgio: Além de ser um grande goleiro, ele deixa o time se dar ao luxo de os zagueiros, se forem apertados, botarem no pé dele porque ele bota a bola onde quiser, em um jogador sem marcação que já pode dominá-la e sair no ataque. Não se pode abrir mão deste ganho, tem que ser usado exaustivamente. Quando eu estava no Figueirense, em um jogo no Morumbi (1 a 1, pela Copa Sul-Americana de 2007), fizemos um lançamento errado, ele se antecipou e meteu a bola na cabeça do Aloísio, que ajeitou para o Borges fazer o gol no fim do jogo e classificar o São Paulo. É um goleiro com uma virtude que outro não tem: o passe perfeito.

Em outros clubes, você encontrou outros goleiros que queriam bater faltas e pênaltis?
Mário Sérgio: Nunca nenhum nem fez essa proposta. Se fizesse, eu não deixaria. Você não pode usar uma exceção para começar a obrigar o goleiro a bater faltas. E jamais outro terá um índice de acerto tão grande quanto o do Rogério.

Para você, um ex-técnico que marcou a carreira dele como único que o vetou, o que significam estes 100 gols?
Mário Sérgio: Ninguém merece isso mais do que ele. Não é só a constatação do bom profissional que ele é, mas de um cara com uma liderança extremamente positiva, que treinou assiduamente 40, 50 vezes por dia, provando até nesta parte que não tem limites. Depois que parar, vai buscar objetivos importantes, quem sabe como presidente do clube, com o mesmo destaque que tem em campo.

Gazeta Esportiva Gazeta Esportiva

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