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A dificuldade para ver o jogo é grande. Quase ao nível do gramado, o torcedor se esforça para driblar as placas de publicidade, os bancos de reservas e enxergar as pernas e pés dos jogadores lutando pela bola no estádio mais tradicional do País. É esta a rotina dos torcedores mais característicos do Maracanã.
Ex-craques já falam com saudades da geral
Órfãos, clubes buscam alternativas para jogos
Chamados de Geraldinos, uma oposição aos Arquibaldos que assistiam às partidas de cima, da arquibancada, os torcedores da geral do Maracanã deixarão de existir no próximo final de semana, quando terminar a segunda partida da final do Estadual do Rio, entre Fluminense e Volta Redonda.
O setor, responsável pelas figuras mais divertidas dos grandes jogos do Rio de Janeiro, será extinto com uma reforma bancada pelo Governo do Estado para adequar o estádio às normas internacionais.
De olho na realização do Pan-Americano de 2007 e na possível realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, serão instaladas no local 20 mil cadeiras descobertas e outras 78 mil cobertas. Como, pelas regras da Fifa, nenhum torcedor pode acompanhar a partida sem que tenha uma cadeira para se sentar, serão elas as sucessoras das até 25 mil pessoas que acompanham hoje o jogo em pé e correm atrás da bola, mesmo que fora do campo.
O estádio já havia ficado sem o setor durante o Mundial de Clubes, realizado no ano 2000, vencido pelo Corinthians, que bateu o Vasco na final.
A substituição irá aumentar a capacidade do estádio. O Maracanã, que já abrigou 173.850 torcedores na final da Copa do Mundo de 1950, passará a ter capacidade para 90 mil pessoas. Hoje, o público máximo do estádio é 78 mil pagantes.
A reforma do estádio do Maracanã custará ao Governo do Estado R$ 45 milhões e durará até dezembro de 2005. Além das alterações na geral, o campo será rebaixado em 1,20 m, o número de banheiros e vagas para estacionamento será aumentado e novos acessos serão construídos.
O estádio, no entanto, perderá um pouco do seu charme. Setor mais popular, é na geral que estão os torcedores mais folclóricos e divertidos do Rio. Alguns ganharam fama, como o torcedor do Fluminense que passava pó de arroz no corpo inteiro e, após entrar em campo com o time, assistia à partida da geral. Ou os irmãos flamenguistas Paz e Fé, que acompanham o time no Brasil inteiro. Outros, no entanto, se mantiveram no anonimato, mas eram bem conhecidos dos jogadores.
"Tem um negão que deve ter seus 50 ou 60 anos e grita 'Mengo! Mengo!' do primeiro ao último minuto. Nunca vi garganta tão forte. O Maracanã lotado e dá para ouvir o cara gritando", lembra o ex-jogador Júnior, que se consagrou no estádio jogando pelo Flamengo.
O setor era também o local onde se mostrava a maior confraternização entre os torcedores. Sem uma divisão rígida, rivais acompanhavam lado a lado os jogos. Isso era mais claro no passado, mas continuava a existir mesmo com o aumento da preocupação com a segurança, nas últimas décadas.
As fantasias também marcavam o jeito de ser dos "Geraldinos". Dependendo da moda vigente, se encontrava de tudo. Do personagem Mister M aos tradicionais super-heróis.
"Vai mudar o comportamento. As fantasias e tudo mais vão continuar. O que não vai ter é a coreografia", afirma Evaristo de Macedo, que atuou no estádio como jogador do Flamengo, na década de 50, e depois como treinador.
Mesmo com os pontos positivos para a segurança e para o conforto do torcedor, a geral do Maracanã vai deixar saudade.
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