
Rob Hughes
A semana em que Viena servirá de cenário à final européia da qual os modernos jogadores austríacos não esperavam fazer parte começou com um pedido de demissão do técnico da seleção da Áustria, que preferiu sair antes que o demitissem.
"Estou me sentindo vazio e esgotado", disse o técnico Josef Hickersberger. "Preciso de algum tempo de folga para recarregar minhas baterias. Encerrei um capítulo, e sinto que cumpri a minha missão". Na verdade, a missão que ele tinha era completamente impossível de cumprir, o que Hickersberger sabia desde o começo.
Mas todo mundo sabe que em música é preciso que haja música, e dança, e possivelmente até mesmo um tantinho de romance.
Enquanto Hickersberger se despedia, o Coro dos Meninos de Viena podia ser ouvido em pleno volume em uma noitada de ópera no Stadthalle. Era a primeira das quatro noites de música promovida pela Ball-Kunstler, uma organização de caridade formada por três lendas do distante passado em que a Áustria tinha um futebol respeitado ¿ Herbert Prohaska, Hans Krankl e Anton Polster.
Prohaska era um jogador capaz de apresentar em campo desempenho que nenhum de seus atuais sucessores consegue equiparar. Krankl, que marcou 34 gols em 69 jogos com a camisa da seleção austríaca, e Polster, cujo total de gols na seleção é de 44 em 93 jogos, são os artilheiros do país nos anos 60 e 70, respectivamente ¿ a última era em que a Áustria revelou futebol que oferecesse nem que um reflexo pálido do maravilhoso time que o país tinha mais de 70 anos atrás.
Foi a política com "p" minúsculo que levou os três ex-jogadores a promover sua iniciativa musical. Eles desejavam se envolver nas atividades da Eurocopa 2008 co-organizada por seu país, mas foram excluídos do processo a despeito do fato de que tanto Prohaska quanto Krankl tenham sido treinadores da seleção nacional em eras passadas.
Eles dizem que até mesmo sua presença em partidas cerimoniais foi rejeitada pela federação austríaca de futebol. Com a ajuda de Skender Fani, o persuasivo advogado empresarial que ajudou a orientar as carreiras dos três jogadores ¿ que incluiu passagem por alguns dos mais importantes times europeus- e de Josef Metzger, editor esportivo aposentado do jornal Die Press, eles estão organizando quatro concertos diferentes, entre os quais uma apresentação de Elton John marcada para sábado no Stadthalle, um ginásio com capacidade para 16 mil pessoas.
O governo austríaco usou os três ex-jogadores para promover o país, mas a federação nacional de futebol parece considerá-los como párias. Os jogadores dizem que a disputa foi causada pela diferença entre o conceito que eles fazem do esporte e as orientações empresariais que a federação vem assumindo. Mas as recriminações mútuas ficaram para trás, e agora só resta a música.
A terça-feira foi uma noite em que Krankl e Polster puderam até subir ao palco, abrindo espaço para o artista escondido na maior parte dos jogadores de futebol, especialmente os artilheiros.
Começou com o palco às escuras, e Polster, cercado por seis "guarda-costas", entrando na sala pelos corredores da audiência, em meio a uma multidão que gritava "Toni! Toni!" Se você conhece o jogador, e seu senso de humor característico, sabe que o momento foi encenado como brincadeira. Ele estava simplesmente zombando de si mesmo, e colocando a platéia no clima. Mas quando chegou ao palco, com um microfone e um violão nas mãos, ele certamente se esforçou por mostrar o que tinha de melhor como cantor pop. Krankl, dividindo o palco com alguns dos músicos que criaram o gênero musical conhecido como austropop, começou a cantar de maneira quase tímida. Mas ele certamente leva a sério sua música, sua moda e sua imagem.
A atmosfera no interior da sala de espetáculos lotada era singularmente vienense. De certa maneira, era como se a cidade estivesse dando a si mesma uma final de copa na qual os austríacos teriam papel central, e culminou em uma exibição de orgulho nacionalista que só quem esteve presente seria capaz de atestar.
Antes disso, outras questões haviam se infiltrado discretamente no teatro. "Han-si", gritava a multidão. "Han-si". E não era simplesmente porque ele estava dando o máximo em seu desempenho musical. Algumas daquelas pessoas estavam gritando seu nome em um esforço para convencê-lo a retomar o comando da seleção nacional para as eliminatórias da Copa do Mundo.
"Isso não vai acontecer", disse Fani, que em certa medida continua a agir como empresário desses ex-jogadores que, em sua era, eram as peças mais importantes do futebol de seu país e que agora, como qualquer esportista aposentado, precisam encontrar uma maneira de preencher o vazio. Nos bastidores, Krankl e Polster falavam sobre a sensação que jogar futebol propiciava, e que nunca os deixou apesar da aposentadoria.
Será que subir ao palco como cantor pode substituir o entusiasmo que um jogador sente ao marcar um gol precioso diante de sua torcida? Krankl respondeu que "jogar futebol era minha vida, meu trabalho. Isso para mim é um hobby. Mas, ja, é possível sentir pelo menos uma pontinha daquilo que eu costumava ter".
Já Polster é menos reservado. Ele claramente procura aprovação, e quer que sua apresentação ao mesmo tempo pareça divertida aos olhos dos espectadores mas também demonstre seus méritos.
"É a mesma coisa que uma boa partida de futebol", ele diz. "Você está lá no palco, e tem de fazer o melhor que puder. Sente que a audiência está com você, e é como se você estivesse mais vivo. Se você não tiver orgulho daquilo que está fazendo, o melhor seria que não o fizesse".
Estamos falando de homens fortes, de homens corajosos que assumiram o risco de dividir o palco com alguns dos músicos e compositores cujas canções estão inscritas na cultura austríaca, e especialmente na de Viena. Os Ball-Kunstler, literalmente "artistas da bola", certamente fizeram a platéia dançar em seus assentos.
Entre os espectadores, há pessoas dos 15 aos 75 anos, e ninguém consegue ficar sentado quando Wolfgang Ambros, um cantor e compositor considerado como o criador do gênero austropop, inicia uma série de duetos de rock e de música folk com Polster. Tanto o cantor quanto o jogador estão tentando retomar suas carreiras. Ambros passou por um câncer de próstata, e Polster simplesmente não deseja desaparecer aos olhos do público.
Já o segundo artista, Willi Resetaris, oferece uma mistura única. Suas raízes estão na Croácia. Ele é um homem de 59 anos que decidiu abandonar uma carreira como professor de educação física e inglês para desenvolver uma forma de música muito pessoal, que mistura a batida característica do rock com ritmos derivados da cultura cigana de sua Iugoslávia natal. Ele é presidente da Integration House Vienna, uma organização de defesa dos direitos humanos, e divide seu tempo no palco com Krankl, em duetos sérios, fortes e barulhentos nos quais os dois têm partes rigorosamente iguais.
Por fim, em terceiro lugar, e claramente um cantor que desfruta de relação muito especial com seu público, surge Rainhard Fendrich. Porque as apresentações anteriores estouraram o horário combinado, Fani, o promotor do espetáculo, parece muito preocupado. O ginásio estava reservado até a meia-noite, o entusiasmo das pessoas estava chegando ao seu ponto mais alto, e algumas das canções que a platéia veio para ouvir, ou melhor, para cantar com Rainhard, talvez tivessem de ser cortadas. De fato, pouco depois da meia-noite as luzes do ginásio foram desligadas. Mas os espectadores não aceitaram. Gritaram por mais, correram em direção ao palco. Fendrich indicou para eles, em mímica, que os amplificadores haviam sido desligados e que não seria possível concluir o show. Fani saiu em socorro da platéia, fechando um acordo rápido com a administração para estender a apresentação.
O espetáculo continuou por outros 30 minutos. A audiência mantinha isqueiros acesos na escuridão, como velas, e o que todos tiveram de cantar antes de partir foi uma composição de Fendrich em 1990, que se tornou uma espécie de hino alternativo do país, e cuja letra diz "eu sou da Áustria".
A noite se encerra com essa celebração pelos austríacos ¿ sempre fervorosos na admiração aos seus ídolos musicais e esportivos - de algo que o futebol do país já não lhes pode dar: orgulho nacional.
No sábado, o palco caberá a Elton John. Ele pode fazer uma grande apresentação e levantar ainda mais dinheiro para dar aos garotos uma chance de crescer no futebol, mas sua apresentação jamais se comparará à de terça-feira. Porque a terça-feira mistura esporte, música e uma sociedade que parece ter a necessidade de se sentir bem sobre si mesma. No domingo, o estádio da cidade será ocupado por estrangeiros.
Tradução de Paulo Migliacci.
Herald Tribune
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