
George Vecsey
Com seus cabelos aloirados e bochechas rosadas, Fernando Torres, atacante espanhol, não parece dispor da determinação e força física necessárias a perturbar a poderosa seleção alemã.
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Mas, com os cotovelos estendidos ou usando as mãos para tirar defensores do caminho, Torres ajudou a derrubar a Alemanha no domingo, propiciando ao futebol espanhol seu maior momento nesta geração ¿ ou seu maior momento, pura e simplesmente.
Torres marcou o único gol da vitória por 1 a 0 em Viena que deu à Espanha seu título na Eurocopa 2008, o primeiro campeonato importante do futebol espanhol desde 1964. Mas o gol que ele conquistou por força de vontade aos 33min do primeiro tempo não foi sua única contribuição.
Ele e seus colegas de equipes fizeram o impensável durante as longas décadas em que a concentração e o ânimo espanhol fracassaram em campo. A Espanha manteve a Alemanha tão preocupada que a seleção alemã não conseguiu montar uma das viradas de final de jogo que fazem da equipe o oposto do time espanhol.
Lembram-se dos dois gols que permitiram que a Alemanha superasse a França na prorrogação, em 1982, tirando um jogador francês do campo direto para o hospital? Depois houve aquele gol de último minuto contra a valente Turquia, na semifinal da Eurocopa há uma semana. A Alemanha quase sempre se recupera quando em desvantagem, e especialmente diante de uma seleção cujos torcedores se acostumaram a esperar o colapso.
Francisco Franco veio e se foi. Pablo Picasso veio e se foi. Victoria de Los Angeles veio e se foi. Mas na luxuriante grama da Europa, os espanhóis se mantiveram constantes em sua capacidade de frustrar os adversários.
Na Espanha moderna, pós-Franco, existem até profissões como a de psicólogo esportivo, e nos últimos anos eles vêm proferindo opiniões ponderadas quanto aos motivos para que o futebol vistoso dos jovens jogadores espanhóis não conseguisse produzir resultados sustentados em campo. Entre as conclusões a que chegaram temos narcisismo, superproteção materna, ambigüidade quanto à vitória, blábláblá.
"Temos a chance de remover essa horrível estatística para a Espanha", disse antes do jogo Iker Casillas, o goleiro e capitão da seleção espanhola, segundo o site Uefa.com. Por três semanas, Casillas - que tem apenas 27 anos e defende a meta espanhola há oito - parecia encantado, e incapaz de erros.
No domingo, o domínio da seleção espanhola foi tão completo que até mesmo as estatísticas da partida, que em geral nada significam, refletiam o que nossos olhos e nosso bom senso diziam: a Espanha liderou em todas as categorias referentes a ataque e habilidade: tiros ao gol, com sete contra um; tiros para fora, com cinco contra dois, e escanteios, com sete contra quatro.
Por fim os torcedores espanhóis puderam saber o que é euforia. Eu mesmo pude sentir alguma euforia assistindo ao jogo em Nova York, em parte por conta das tapas servidas pelo restaurante La Boqueria, na rua 19, mas principalmente pelos torcedores espanhóis gritando "arriba!" sempre que a Espanha subia ao ataque.
Nosso grupo incluía Reggie Williams, que jogava na defesa do time de futebol americano Cincinnati Bengals. Ele está em Nova York para uma segunda cirurgia de joelho, e assistiu à partida com a camisa do Monterrey Tigres, um time mexicano. Williams diz apreciar a paixão do futebol, um esporte que nunca praticou.
"Não se pode desviar os olhos da tela", disse Williams, observando os fregueses do restaurante que mal ousavam olhar para seus pratos durante a partida.
Torres, contratado pelo Liverpool na temporada passada depois de seis temporadas com o Atlético de Madrid, tem 1,86m e pesa 78kg, mas parece frágil. No entanto, coube a ele a jogada decisiva da partida, depois de receber um passe de Xavi Hernandez, ganhar do lateral alemão, o pequeno Philip Lahm, e depois bater o goleiro Jens Lehman com um tiro no canto.
No segundo tempo, quando todos os torcedores racionais de futebol esperavam reação e virada alemã, Williams comentou: "Chegou a hora do desespero". Em seu esporte de especialistas, ele havia sido substituído em uma final de Super Bowl, em 1989, quando Joe Montana fez o passe que resultou na derrota de seu time.
A Espanha dominou as ações ofensivas, no domingo, repelindo a Alemanha e voltando sempre ao ataque, e jamais cometendo o erro fatal que seus torcedores temiam.
A seleção espanhola de 2008 não parecia dividida pelas rivalidades regionais que tradicionalmente prejudicam a equipe, e forçaram antigos técnicos a dividir as posições do time entre bascos, catalães, castelhanos, asturianos, andaluzes e assim por diante. Ocasionalmente, jogadores que tinham o azar de errar em uma cobrança de pênalti ou falhar na marcação de um atacante adversário terminavam julgados com base em sua região de origem.
A união em campo também fez diferença. O técnico espanhol Luis Aragonés selecionou os jogadores pela velocidade e competência ofensiva, deixando de fora um dos veteranos atacantes espanhóis, Raul, do Real Madrid. Aragonés, que está chegando aos 70 anos, de alguma maneira conseguiu convencer os jogadores espanhóis a jogar unidos.
O símbolo da partida foi Michael Ballack, o capitão alemão que passou minutos fora de campo devido a um corte na têmpora. Torres jamais deixou de disputar a bola fisicamente com seus adversários, até receber um cartão amarelo e sair de campo, substituído, aos 33min do segundo tempo.
Nós conseguimos comer todo o almoço, enquanto em nossa volta os torcedores espanhóis comemoravam, como o faziam em Viena e sem dúvida em todas as regiões da Espanha. Pablo Casals veio e se foi. Salvador Dali veio e se foi. E a Espanha por fim venceu uma final, com todo o país falando a mesma língua. "Olé! Olé"!"
Tradução de Paulo Migliacci.
The New York Times
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AP
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