
Rob Hughes
Dois brasileiros que conquistaram uma Copa do Mundo tomaram decisões de carreira neste final de semana. Um deles, Ronaldinho, atraiu todas as manchetes e conseguiu uma oferta 30 vezes superior à do outro jogador, Gilberto Silva, que se transferiu com menos recriminações e certamente mais convicção de que está realizando o máximo que seu talento permite.
O Barcelona arcou com um imenso prejuízo ao vender Ronaldinho ao Milan por US$ 33,6 milhões, e mais US$ 6,4 milhões caso o clube italiano chegue à Copa dos Campeões da Europa em 2009. Um ano atrás, o Milan tentou contratar o jogador oferecendo o dobro e foi rejeitado. Desde então, Ronaldinho caiu do pedestal que ocupava como melhor jogador de sua geração e grande expressão da alegria do futebol a um homem fora de forma e quase invisível.
Aos 28 anos, ele ainda tem tempo de se recuperar e de nos propiciar de novo a alegria de assisti-lo. Mas ele será um homem de sorte se puder dizer aos 31 anos, como Gilberto Silva, que conseguiu exercer todo o talento que lhe foi dado e manter uma fome de bola que lhe valerá mais US$ 10 milhões pelas três próximas temporadas. Silva, que na adolescência trabalhavam em uma fábrica de doces no Brasil, se transferiu do Arsenal para o campeão grego Panathinaikos.
O time de Atenas pagou apenas US$ 1,25 milhão à equipe londrina. Por esse valor, adquiriu um líder que transmitirá experiência aos companheiros, estabelecendo um exemplo de discreta confiabilidade.
Na condição que ambos exibem no momento, Ronaldinho é um risco e Gilberto uma garantia.
Ronaldinho não fala sobre o declínio de sua carreira nos dois últimos anos, dizendo apenas que "agora não é hora de falar sobre o Barcelona". Ele saiu de um clube cujo conselho está rachado, e no qual oito dos 17 diretores renunciaram. Um deles, Sandro Rosell, antigo representante da Nike no Brasil e responsável por persuadir Ronaldinho a se transferir ao Barcelona, cinco anos atrás, está tentando conquistar a presidência.
Disputas internas no comando dos clubes em geral não afetam os astros nos gramados, mas na Catalunha corre o argumento de que Ronaldinho - e outro talento que deixou o clube recentemente, Deco - foram adquiridos por meio das conexões de Rosell. Os dois saíram como parte do esforço do presidente Joan Laporta para eliminar o poder do rival sobre o clube.
Embora Pep Guardiola, o novo técnico do Barcelona, tenha dito no mês passado que duvidava que o jogador pudesse um dia voltar a ser o que foi, Carlo Ancelotti, que o comandará no Milan, tem opinião muito diferente.
"Ronaldinho traz muito entusiasmo, e entusiasmo é o ingrediente de que necessitamos para começar bem a nova temporada", disse ele.
Trata-se de uma escolha intrigante de termos. Entusiasmo parecia ser exatamente o que estava em falta na vida de um talento fabuloso que, na metade da carreira, parece ter se acomodado às realizações passadas.
Silvio Berlusconi, o proprietário do Milan e o homem que banca as contas do time, ofereceu outro motivo, em sua própria estação de TV. "Ronaldinho é nosso", anunciou Berlusconi, o primeiro-ministro italiano. "Agora espero que todos os torcedores que me pediram a contratação de Ronaldinho, durante a campanha eleitoral, fiquem satisfeitos".
Adriano Galliani, o assessor encarregado de contratar jogadores a mando de Berlusconi, afirmou no sábado que havia precisado trabalhar durante três anos para conseguir Ronaldinho. Ele acrescentou que adquirir grandes jogadores coloca "peões" importantes no tabuleiro do Milan.
A expectativa era a de que Galliani conseguisse a contratação do atacante africano Emmanuel Adebayor, do Arsenal, este mês, mas ele terminou anunciando ao Milan que Ronaldinho seria o novo reforço.
"Ronnie é um jogador com imenso impacto de mídia", disse Galliani depois que 40 mil torcedores compareceram para assistir ao primeiro treino do jogador com a camisa rubro-negra da equipe. "Adebayor nem tanto. Personagens como Ronaldinho atraem mais interesse para a nossa liga, de parte da mídia, e ajudam a lotar os estádios e a tornar os desafios mais interessantes".
Ronaldinho chegou mais ou menos ao mesmo tempo que Kaká, que estava no Brasil se recuperando de uma cirurgia no joelho. Como Kaká e Ronaldinho se acomodarão em campo juntos? Sem problemas, respondeu Ronaldinho, dizendo que os dois já haviam jogado juntos muitas vezes pela Seleção Brasileira.
Mas o agente de Kaká está indicando o oposto, e encorajando especulações na mídia quanto à possibilidade de que Kaká, que vem sendo o maestro do Milan nas últimas temporadas, aceite uma suposta oferta de US$ 100 milhões do Chelsea. O Milan rejeita completamente a possibilidade.
Ronaldinho diz que sente ímpeto renovado, com a camisa do Milan. Por enquanto, ela não tem número, porque embora Ronaldinho use uma corrente de prata no pescoço da qual pende um chamativo medalhão "10R",a camisa 10 do Milan vem sendo usada, e é zelosamente defendida, pelo holandês Clarence Seedorf.
A camisa 10 é o número mágico do futebol brasileiro, reservada ao craque do time.
Talvez Ronaldinho encontre harmonia e reencontre seu futebol na Itália. Gilberto Silva, de sua parte, já parece tão confortável em Atenas quanto em sua casa de St. Albans, região norte de Londres.
O talento dele não pode ser comparado ao de Ronaldinho, mas Silva oferece organização, vigor físico e dedicação à equipe. No dia em que ele deixou o Arsenal, Arséne Wenger, o técnico do time, disse que lamentava a saída de um verdadeiro profissional, e agradeceu o jogador. Silva completará 32 anos em outubro. Com gratidão típica, ele disse que seu contrato pelos próximos três anos representa muitas vezes mais dinheiro do que seu pai, ferreiro, ganharia em uma vida toda de trabalho.
Tradução: Paulo Migliacci ME
Herald Tribune
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