
Atualizada às 09h23 Fábio de Mello Castanho
Elogiado pelo técnico da Itália, Marcelo Lippi, e observado por Dunga, o atacante Amauri pode completar o momento dourado de sua carreira com a realização de um sonho em 2009. A fase do artilheiro da Juventus é tão boa que ele pode até ter de escolher entre o uniforme verde-amarelo e o azul no amistoso marcado para o dia 10 de fevereiro, em Londres.
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O que poderia ser um dilema para alguns, é assunto encerrado para Amauri. Ainda à espera da naturalização italiana, o atacante garantiu, em entrevista exclusiva ao Terra, que a Seleção Brasileira será a sua primeira opção caso tenha de escolher entre duas convocações.
"Sou brasileiro. Se tiver mesmo a oportunidade, vou abraçar com todo o coração", resumiu. Nas razões para a sua possível escolha, o sonho de repetir parte daquilo que seu maior ídolo, Romário, fez com o uniforme verde e amarelo, quem sabe na Copa do Mundo de 2010. "É o sonho de todo jogador".
A convocação de Amauri daria um toque ainda mais europeu à Seleção. Desde 2000 na Itália, o jogador já passou por Napoli, Piacenza, Chievo e Palermo antes de brilhar na Juventus, onde marcou 13 gols em 23 jogos na atual temporada. "Tenho um estilo mais europeu".
No Brasil, por enquanto, apenas uma passagem por um time da segunda divisão catarinense e a meta de fazer gols pelo seu time coração. "Vou lutar para jogar no São Paulo", avisa.
Confira a entrevista na íntegra:
Terra - Em conversa com um de seus treinadores de infância, foi dito que você, quando garoto, jogava sério, quase não comemorava os gols. Você acha que essa personalidade te ajudou na Itália?
Amauri - Sou muito fechado no sentido do meu trabalho. Quando estou trabalhando, procuro ser o mais sério possível. Fora de campo, eu sou a pessoa mais alegre do mundo. Meus filhos me chamam de palhaço em casa. Quando eu chego em casa é uma festa, uma gritaria, uma bagunça. Até o exemplo do meu pai, meu pai é um trabalhador. Sempre tive aquela seriedade do meu pai em trabalhar, de trazer o pão para casa. Tenho essa mentalidade. É o meu trabalho e tenho que fazer.
Terra - Mas na Itália essa seriedade é levada muito a sério, não é Amauri?
Amauri - Eles gostam de mim por causa disso. Sou muito sério no trabalho. Procuro sempre estar concentrado. Eu odeio perder. Talvez este seja meu defeito. Quando perco, fico doido. Não consigo aceitar. Pelo menos por aqueles instantes. Depois eu volto a si e sei que perder faz parte da vida. Não gosto de perder, procuro fazer melhor para não perder.
Terra - Após tantos anos na Itália, você acha que tem o estilo mais parecido com quem? Luca Toni ou Ronaldo?
Amauri - Eu acho que é um estilo mais europeu. Faz quase dez anos que estou na Itália. A minha mentalidade é mais européia. Mesmo que eu consiga colocar meu jeito brasileiro, minha técnica, a mentalidade deles, que é a força física e a tática, estão presentes. Talvez consegui unir essas coisas. Hoje consigo colocar mais minha técnica em campo.
Terra - Você acha que este etilo mais europeu pode ser compreendido pelos brasileiros que estão mais acostumados com firulas?
Amauri - Eu acho que não. Cada jogador tem a sua característica. Um exemplo. O Ronaldinho é um jogador espetacular, fantasia, que dá espetáculo. Do outro lado você coloca o Kaká, que é um jogador extraordinário, mais concreto. Dificilmente você vê ele dando caneta. É mais na velocidade, e na potência para construir. Na Itália tem muitos jogadores estilo Ronaldinho, e tem aquele que joga para definir uma jogada. No futebol atual não tem essa divisão. Hoje tem de tudo.
Terra - O Dunga disse nesta semana em entrevista na Itália que você está nos planos dele. Isso pode acabar de vez com a possibilidade de os italianos te verem com camisa da Azurra?
Amauri - Como já declarei, tem essas vozes que me consideram muito na Itália. Mas eu sou brasileiro. A única que pode me convocar é a Seleção Brasileira. Eu procuro deixar até de lado a pergunta sobre a seleção italiana e brasileira. Para mim é motivo de orgulho saber que as duas me tem em consideração. Sou brasileiro e quero continuar a jogar pelo futebol. Se chegar a minha chance na Seleção, será outro sonho realizado.
Terra - Alguém da CBF já te falou para pedir para você não se naturalizar?
Amauri - Nunca falei com a CBF. E o fato do passaporte não tem a ver com isso. Não é porque quero ir para a seleção italiana. Serve para não ser extracomunitário. É importante e me abre para várias portas, seja para a Inglaterra, seja para outro lugar. Como eu nunca passei pela Seleção, há o interesse de me convocar, mas o pedido foi feito para deixar de ser extracomunitário.
Terra - Você já conversou com o Dunga a respeito de uma possível convocação?
Amauri - Nunca conversei com o Dunga. Nunca me ligaram. Soube de algumas vozes que saíram no Brasil, que eu estava pedido esclarecimento sobre minha convocação. São vozes que meu ex-empresário (Mariano Grimaldi) lançou. Isso pode estar prejudicando. Não é fácil uma seleção chamar um jogador que nunca jogou no Brasil, e ele ser titular. Falar isso não é do meu caráter. Nunca vou falar isso que só vou se for para ser titular. Sou muito coerente. Tem que suar muito para chegar, e fazer muito mais continuar. Sem isso, não tem como. Esse procurador não existe mais. Não trabalho com ele mais desde maio. O que ele falou não fui eu quem disse.
Terra - Apesar de tudo isso, o Dunga disse (em entrevista ao jornal italiano La Gazzetta dello Sport) que conta com você, que quer te dar uma chance na Seleção Brasileira. Como você recebeu a notícia?
Amauri - Sou a pessoa mais feliz do mundo. Para mim é um sonho. Se acontecer, será um sonho realizado. Serei a pessoa mais feliz do mundo. Falta a Seleção na minha carreira. Estou contente daquilo que estou fazendo. Vamos ver se vai chegar a minha oportunidade em 2009.
Terra - Por ironia, o próximo jogo do Brasil será conta Itália. Já imaginou se você for convocado para pegar logo a Itália...
Amauri - Para você ver como é o destino. Prega várias coisas. São coisas que parecem estar escritas. Mas vamos ver se acontece. Não é oficial. Se o destino achar que é assim minha história, assim vai ser.
Terra - Pode acontecer uma situação inédita no ano que vem, que é ser convocado por duas seleções ao mesmo tempo. Já parou para pensar nisso?
Amauri - Já parei para pensar, mas no mesmo tempo deixei de pensar. Sou uma pessoa que espera acontecer, e se acontecer vamos ver no momento. O que eu posso dizer é que sou brasileiro. Não tem o que esperar, entendeu?
Terra - O Afonso Alves teve uma trajetória parecida com a sua e acabou não se firmando na Seleção. Se convocado, o que você acha que deve fazer para não repetir a trajetória dele?
Amauri - Com certeza é jogar o futebol, saber aproveitar a oportunidade que me darão na Seleção e fazer aquilo que estou fazendo. Não adianta fazer tudo só aqui. Com certeza para jogar na Seleção tem que fazer muito, e ainda mais para continuar. O segredo é esse. Ali tem que dar o máximo do máximo possível para jogar bem e continuar.
Terra - Se por um acaso a convocação da seleção italiana vier antes da brasileira, você aceitaria?
Amauri - Não tem como eles me chamarem. Não existe nenhum tipo de situação. Neste momento não existiria.
Terra - Mas a Copa de 2010 é um sonho para você?
Amauri - Hoje eu estou jogando em um dos clubes mais importantes do mundo. Posso olhar para o futuro. É o sonho de todo o jogador, mas para chegar à Copa do Mundo, tem que jogar muita bola. Primeiro pensamento é de chegar na Seleção. Depois disso, eu pensarei na Copa.
Terra - Voltar ao Brasil está nos planos?
Amauri - Este não é o momento. Estou muito bem na Itália. Mas para o futuro quero vestir a camisa do São Paulo para falar que foi uma carreira perfeita, seria o máximo.
Terra - E a do Corinthians? Nem se a sua mãe (que é corintiana) falar muito para você jogar?
Amauri - Nunca se pode dizer nunca. Mas o primeiro sonho é aquele de chegar no tricolor. Vou lutar para isso. Só o futuro vai dizer.
Terra - Como você faz para acompanhar o São Paulo na Itália?
Amauri - Tem um canal que passa o Campeonato Brasileiro. No último eu vi menos, porque tinha muitos jogos. Não é como se estivesse no Brasil, mas sempre tento acompanhar. Quando eles ganharam (o Brasileiro de 2008), fiquei muito feliz. Era um domingo onde tinha feito um gol. Depois vi o São Paulo campeão. Fiquei duas vezes feliz.
Terra - Qual é o seu ídolo de infância?
Amauri - O Baichola. Romário era o numero um. Cresci vendo os gols do Romário. Gostaria de um dia conhecê-lo para dizer que é o meu ídolo.
Terra - E no São Paulo, seu time coração?
Amauri - Tinha o Raí. Tinha também jogadores como o Palhinha, o Muller, todos extraordinários.
Terra - Gostaria de jogar em outro centro?
Amauri - Neste momento é difícil dizer. Nunca se pode dizer. Logicamente a Inglaterra tem um campeonato fascinante. Assim como o espanhol. São dois que qualquer jogador gostaria de jogar.
Terra - A sua mãe disse que você deveria jogar na Itália, porque no Brasil não teve oportunidades. Um conselho dela pode fazer a diferença?
Amauri - Ela falou isso? Depois da entrevista vou perguntar porque ela falou isso. Apesar de tudo, minha família respeita muito a minha decisão. Tem aquele comentário e tal, mas eles sabem que a decisão cabe a mim.
Terra - A sua primeira opção é o Brasil e ponto final?
Amauri - Sou brasileiro e saber desta notícia no jornal (entrevista do Dunga) me deixa orgulhoso. Se tiver mesmo a oportunidade, vou abraçar com todo o coração.
Redação Terra
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