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Segunda, 6 de julho de 2009, 14h06

Visão audaciosa e cofres generosos reformulam o Real

Landom Thomas Jr.
Victoria Burnett

Não é comum que um homem de terno azul seja alvo de uma ovação por parte de 40 mil ruidosos torcedores de futebol. Mas quando estamos falando de Florentino Perez, o presidente do Real Madrid, e ele acaba de investir US$ 220 milhões (cerca de R$ 435 milhões) para convencer dois dos maiores astros do futebol mundial a vestir a lendária camisa branca do clube, e isso em meio a uma profunda recessão mundial, não deveria causar surpresa que a torcida faça uma saudação como essa.

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Perez, que é presidente de uma das maiores empresas mundiais de construção, abalou o mundo do esporte no mês passado ao anunciar a contratação, por valores recorde, do brasileiro Kaká, até então jogador do Milan, e do português Cristiano Ronaldo, que estava no Manchester United. Depois disso, ele também contratou Raul Albiol, do Valencia, e Karim Benzema, do Lyon, o que custou mais US$ 70 milhões (cerca de R$ 140 milhões) aos cofres do o Real Madrid.

A Uefa, federação que administra o futebol europeu, está realizando uma campanha para controlar os gastos dos times de futebol. Michel Platini, seu presidente, declarou na quinta-feira que o objetivo de sua organização, era alterar as regras de seleção para a Copa dos Campeões da Europa, de maneira a garantir que os clubes pagassem salários aos seus jogadores e tivessem despesas de contratação proporcionais à sua receita.

Mas Perez, que tinha Kaká ao seu lado na terça-feira durante a cerimônia de apresentação no estádio Santiago Bernabeu, prometeu conduzir o Real Madrid a novas alturas. Talvez mais do que qualquer outro executivo de esportes no mundo, Perez joga para satisfazer a torcida, não só em Madri mas os 200 milhões de outros torcedores com que o Real Madrid conta no mundo, aos quais ele espera vender camisas com o nome de Kaká a US$ 120 (cerca de R$ 240) por peça, ou ingressos para as partidas em que o time será comandado em campo por Ronaldo.

De certa forma, Perez pode ser definido como o George Steinbrenner do futebol internacional. Do mesmo modo que Steinbrenner revigorou o New York Yankees nos anos 70 ao investir milhões de dólares na contratação dos maiores astros do beisebol, Perez transformou o Real Madrid em uma marca mundial da variedade "ame ou odeie", ao gastar muito mais do que os seus rivais com a contratação de superastros do futebol.

Ele demite técnicos por capricho, muitas vezes opta por ignorar quaisquer críticas e registra tanto sucessos quanto fracassos épicos, o mais recente dos quais, no último caso, é o humilhante colapso de um time que incluía muitos jogadores da elite do futebol mundial, entre os quais o inglês David Beckham e o francês Zinedine Zidane.

Agora, enquanto os proprietários e dirigentes das demais equipes de primeira linha se esforçam para reduzir custos, Perez está caminhando na direção oposta. Ao prometer investir mais de US$ 420 milhões (cerca de R$ 840 milhões) nos melhores jogadores que o dinheiro pode comprar, ele na verdade está dobrando sua já tradicional aposta em que a criação de uma equipe repleta de celebridades do futebol internacional capaz de provocar entusiasmo até entre os adolescentes no Japão na verdade representa o objetivo último de um dirigente esportivo.

"O que Perez calcula é que a conquista de títulos em larga medida depende da sorte", diz John Carlin, autor de um livro sobre o Real Madrid e sobre o esforço da equipe para ter em seu elenco sempre os melhores jogadores. "Mas, ao ter no time jogadores de qualidade fantástica, é possível gerar um imenso entusiasmo que se traduz em grande interesse mundial e em muito dinheiro. Eles são mais competentes que qualquer outra equipe do mundo na tradução de espectadores em dinheiro".

Os números confirmam a suposição. O Real Madrid tem uma torcida mundial estimada em 246 milhões de pessoas e, de acordo com um estudo conduzido em 2007 pelo grupo publicitário BBDO, é a mais valiosa das marcas futebolísticas mundiais. Em 2008, a revista Forbes avaliou a equipe em US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 2,4 bilhões), enquanto um de seus maiores rivais, o Manchester United, era avaliado em US$ 1,8 bilhão (cerca de R$ 3,6 bilhões).

Mas manter um elenco dispendioso como esse requer um volume imenso de dinheiro. Porque as regras do clube impedem que Perez empregue qualquer parcela de sua fortuna pessoal em benefício do Real Madrid, a equipe se viu obrigada a assumir pesadas dívidas para bancar as recentes contratações, estimadas em US$ 700 milhões (cerca de R$ 1,4 milhão) ¿ de longe as mais altas na liga espanhola de futebol.

Perez não quis conceder uma entrevista para este artigo. Ramón Calderón, antigo presidente do clube, assumiu uma postura diplomática ao falar sobre Perez, um velho rival. Calderón aprovou a contratação de Ronaldo, afirmando que ele mesmo havia iniciado o processo. Mas, diante de alguma insistência por parte do entrevistador, não se esforçou muito por ocultar sua preocupação quanto à possibilidade de que os gastos de Perez coloquem em risco a situação financeira da equipe. E tampouco parecia muito convencido de que o novo influxo de astros seria suficiente para conquistar novos campeonatos.

"Trata-se de uma estratégia muito perigosa", declarou Calderón no escritório de advocacia que dirige em Madri. "Uma boa equipe não é formada apenas pelo acúmulo de bons jogadores. É o equilíbrio entre os jogadores que importa. A filosofia do Real Madrid sempre foi a de privilegiar o trabalho duro, e jamais admitir derrota. Tudo mais é apenas Hollywood".

Mas Perez está apostando que as pessoas estarão dispostas a pagar bem para assistir a esse filme. Muito mais do que o beisebol ou o futebol americano nos Estados Unidos, na Espanha o futebol é parte do tecido da vida cotidiana.

Perez conta com o apoio dos maiores bancos espanhóis e pode contar com um lucrativo contrato de televisão que, ao que se comenta, pagaria mais de US$ 160 milhões anuais ao time, bem como com um acordo de patrocínio com a Adidas cujo valor é estimado pelos analistas em cerca de US$ 670 milhões em prazo de oito anos. Mas alguns dos observadores afirmam que os cálculos de Perez sobre uma bonança de marketing semelhante à que o Real Madrid viveu quando da contratação de David Beckham são infundadas.

"No primeiro mandato de Perez como presidente do time, o mercado estava vivendo um momento de euforia econômica", afirma Jose María Gay de Liebana, professor da Universidade de Barcelona que conduziu um estudo sobre as finanças do Real Madrid. "Agora vivemos um momento de recuo. As receitas de marketing estão em queda, como os patrocínios e o valor dos direitos de transmissão televisivos. Será muito difícil para o clube recuperar seu investimento apenas com a venda de camisas".

Tradução de Paulo Migliacci.

The New York Times

EFE
Um dos reforços do Real Madrid, Cristiano Ronaldo será apresentado nesta 2ª
Um dos reforços do Real Madrid, Cristiano Ronaldo será apresentado nesta 2ª

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