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 Final da Liga dos Campeões ressuscita mística de laterais brasileiros
27 de maio de 2011 15h31 atualizado às 15h59

Fábio treina com o Manchester United nesta sexta: brasileiro deve atuar na lateral direita. Foto: AP

Fábio treina com o Manchester United nesta sexta: brasileiro deve atuar na lateral direita
Foto: AP

Dassler Marques

Na direita, Carlos Alberto Torres. Pela esquerda, Nílton Santos. É com dois laterais brasileiros que se escala a seleção do século XX eleita pela Fifa. Se no passado já era assim, no presente continua sendo. Finalistas da Liga dos Campeões que se decide neste sábado, Manchester United e Barcelona dão sequência à grande história do Brasil nas camisas 2 e 6.

Para muitos, o barcelonista Daniel Alves é o melhor lateral do futebol mundial na atualidade. "Não tenho dúvidas disso. Maicon é muito bom, mas Alves é de outro planeta", define o argentino Ariel Judas, comentarista da Rádio Marca. Ele é o dono da camisa 2 do Barcelona, que tem Maxwell e Adriano Correia para a esquerda. Com os gêmeos Fábio e Rafael, do Manchester United, são cinco brasileiros dessa posição na decisão europeia.

Embora no Brasil muitas vezes não se dê conta, não há outro país capaz de formar tantos laterais de qualidade. A Argentina, por exemplo, deve convocar Javier Zanetti, 38 anos, para a Copa América. "Acho que agradamos tanto pela maneira como jogamos", define Cafu, uma lenda da posição, em entrevista exclusiva ao Terra. "A minha saída e a do Roberto Carlos valorizou os laterais brasileiros. Atacamos e marcamos com eficiência. Hoje em dia tem uma garotada boa que se beneficia disso", conta o ex-jogador de Milan e Roma.

Para o ex-corintiano Sylvinho, 11 temporadas consecutivas na Europa trouxeram grandes ensinamentos. Jogador de Seleção quando partiu do Brasil, em 1999, ele enumera o que aprendeu ao trabalhar com treinadores como Arséne Wenger, do Arsenal, e Pep Guardiola e Frank Rijkaard, ambos no Barcelona.

"É preciso se adaptar na parte tática, que se perde um pouco ainda no Brasil. É saber fechar a linha defensiva, principalmente quando por dentro ou por fora. É não perder o posicionamento. Às vezes, laterais brasileiros pensam que é preciso cruzar oito bolas por jogo e dar duas assistências. Na Europa é bem diferente. E desculpa, mas concordo com a Europa. Se você aprende tudo isso, vira um fenômeno. Por isso temos essa legião".

Martí Perarnau, colunista do diário catalão Sport, explica mais a respeito dos aprendizados na Europa. "Treinadores como Ferguson e Guardiola buscam manter fortalezas e corrigir as deficiências dos laterais brasileiros. Ferguson tinha tradição de ingleses, mas viu a oportunidade de moldar Fábio e Rafael. Sabemos que Sir Alex gosta muito de apostar nos jovens, porque trabalha e os aperfeiçoa".

Cafu, que atuou na Europa por 12 anos e tem 142 partidas pela Seleção, discorda da ideia de que laterais brasileiros não sabem marcar. "Isso é mentira! Isso não existe. Se o treinador pede, o jogador marca. Se avançam demais é porque o treinador pediu". Ponta direita de origem, ele foi adaptado à posição no início da carreira com o São Paulo. "Foi uma mudança radical, mas boa, porque me tornei um grande da posição. Se você já foi formado ali tem facilidades", acredita.

O exemplo de Cafu ajuda a explicar as características dos laterais brasileiros, que normalmente participam em posições mais avançadas nas categorias de base, em que é mais difícil encontrar garotos dispostos a vestir as camisas 2 e 6. "Os brasileiros têm uma combinação excelente em termos físicos e técnicos. São rápidos, resistentes e com técnica individual de altíssimo nível. Os clássicos laterais espanhóis são menos dotados tecnicamente", avalia Martí Perarnau.

A tradição de apoiar o ataque é cultural dos brasileiros que atuam nessa posição. Dados do Footstats da edição 2010 da Série A mostram que os seis jogadores mais acionados da competição são justamente laterais. Alessandro e Roberto Carlos (Corinthians), Léo Moura e Juan (Flamengo), Jean (São Paulo) e Kléber (Internacional). A responsabilidade de armar o time não é só dos meio-campistas.

"Os laterais brasileiros são paradigmas mundiais no futebol atual. Cafu e Roberto Carlos moldaram o estilo ideal para essa posição. Apenas a França chega perto, mas ainda muito distante do Brasil", compara Ariel Judas. De fato, os franceses podem se vangloriar de Abidal, do Barcelona, e Evra, do Manchester United. "Esse é fantástico", define Sylvinho.

Desde 1990, quando realiza eleições para definir os melhores de cada Copa do Mundo, o Brasil é presença praticamente certa quando o tema é lateral. Jorginho (1994), Roberto Carlos (1998 e 2002) e Maicon (2010) foram indicados nos respectivos Mundiais. Marcelo, do Real Madrid, é visto como o próximo grande da posição.

"Ele é um dos melhores do Real, um jogador interessantíssimo", crê Ariel. E Daniel Alves a referência: "Ele está fazendo história. Tem qualidade, personalidade e está em um grande time", aponta Cafu, referência da posição e isento de vaidade. No próximo sábado, mais uma vez os brasileiros se farão presentes em um momento ápice do futebol mundial. A partir das laterais de Barcelona e Manchester United, claro.

Terra