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Um exame médico na manhã de segunda-feira é tudo que separa Thierry Henry do Barcelona. A contratação é uma clara reação do clube catalão ao fato de ter sido derrotado no Campeonato Espanhol.
Um boletim, que deve ser divulgado na segunda ou terça-feira, deve determinar se o Real Madrid retém ou demite Fabio Capello, o técnico italiano que inspirou um elenco menos talentoso a superar o Barcelona e conquistar o título uma semana atrás.
Henry deve chegar ao Nou Camp usando a camisa número 14 do time, "aposentada" 20 anos atrás quando Johann Cruyff se despediu da equipe.
Capello, 61, decidiu que não vai esperar em Madri por uma demonstração de gratidão - ou o oposto - dos dirigentes de seu clube. Está partindo com a mulher para férias deliberadamente remotas, no Tibete.
O técnico fez mais do que o Real Madrid esperava dele, mas o próximo lance cabe a Ramón Calderón, o presidente da equipe, que ao que se sabe já teria oferecido contrato de US$ 1 milhão a um técnico mais jovem e relativamente inexperiente, o alemão Bernd Schuster.
Henry, enquanto isso, vai abandonar o Arsenal depois de oito convincentes temporadas. Sua partida pode ser vantajosa para o time, mas ele deixará saudades. Assisti-lo superar os padrões ingleses e transformar o Arsenal de um time tedioso em um time delicioso foi um privilégio.
Há um lado oculto em Henry. Mesmo no período em que se tornou capitão da equipe - no período que se seguiu à saída de seu compatriota Patrick Vieira, dois anos atrás - ele ocasionalmente demonstrou insatisfação.
Nesses períodos, ele não só desperdiçava seu talento como deprimia o time que deveria supostamente liderar.
Tendo isso em mente, os US$ 32 milhões oferecidos pelo Barcelona representam uma oferta que nem Arséne Wenger, técnico e mentor de Henry, recomendaria recusar.
Apenas eles dois sabem o que mudou desde o ano passado, quando Henry recusou uma oferta do Barcelona, e assinou o maior contrato da história do Arsenal, que representava, segundo ele, seu compromisso "perpétuo" para com seu time adotivo em Londres.
O que Henry não poderia adivinhar, então, era a fadiga física e mental de que ele sofreria ao longo do ano. Em maio, ele foi derrotado - pelo Barcelona - na final da Copa dos Campeões.
Seis semanas mais tarde, era parte da equipe francesa derrotada nos pênaltis na final da Copa do Mundo. O Arsenal se transferiu, em seguida, para o Emirates Stadium, um estádio tão dispendioso que não restou dinheiro para investir a sério no time.
Além disso, a nova casa da equipe não oferece as lembranças, a intimidade ou a magia do velho Highbury.
O desempenho de Henry ao longo da temporada foi errático. Ele continuou jogando até quase o Natal, quando Wenger decidiu que deveria tirar uma folga.
A explicação oficial era que Henry havia continuado a jogar apesar de uma série de pequenas problemas físicos, por muito tempo, e seu corpo havia enfim se rebelado.
Estava sofrendo de dores ciáticas, que são capazes de paralisar um trabalhador de escritório - imaginem o efeito sobre um dos deuses do futebol.
Mas os problemas pareciam ser mais que físicos. Ele não estava mais colocando o coração em campo.
Em agosto, Henry completará 30 anos, e conquistou todos os títulos que o Arsenal poderia desejar, exceto a Copa dos Campeões. Se ele realmente deseja esse troféu, o Barcelona com certeza representa uma aposta melhor.
Pelo Arsenal, ele marcou 226 gols em 364 partidas, mas foi sempre muito mais que um artilheiro. Era o barômetro do time, e quando Henry acreditava que era possível vencer, todos os demais jogadores se inspiravam.
Aos meus olhos, ele nunca foi um bom capitão. Gilberto Silva ou até mesmo Cesc Fabregas, que vem se desenvolvendo rapidamente, ocupariam melhor essa posição.
Mas ninguém era capaz de superá-lo no que tange à inspiração. Não eram apenas seus gols, mas a graça, a audácia, a velocidade extraordinária que sempre exibiu. Se essas qualidades puderem ser exibidas em companhia de Ronaldinho, Lionel Messi e talvez Samuel Eto¿o, o ataque do Barcelona com certeza será irresistível.
Mas o que fez com que Henry voltasse atrás em sua palavra?
No ano passado, ele declarou que, enquanto Wenger continuasse à frente da equipe, ele se manteria no time. Wenger o havia tomado sob sua proteção desde o Monaco, e persuadiu o Arsenal a contratá-lo por 10,5 milhões de libras em 1999.
O jogador em que Henry se transformou nasceu em larga medida devido aos ensinamentos de Wenger. Os resultados de Wenger em campo se devem em larga medida ao talento de Henry.
Eles agora se separam porque Wenger não pôde garantir ao jogador que continuaria no Arsenal pelos quatro anos de duração do contrato de Henry.
O técnico está sob contrato por mais um ano, e David Dein, o vice-presidente que contratou o francês para comandar a equipe, recentemente perdeu seu posto no conselho do time.
A cisão surgiu depois que Dein auxiliou o bilionário norte-americano Stan Kroenke a adquirir ações do Arsenal, presumivelmente como parte de um plano para tomar o controle do time.
Outros conselheiros se opõem ao controle estrangeiro, ao menos por enquanto, e a posição de Dein se tornou insustentável.
Wenger foi para o Arsenal por causa de Dein, e Henry, Fabregas, Kolo Toure, Gilberto e outros optaram pelo time devido ao técnico. A era está sob ameaça, se ainda não acabou.
Dentro de um ano, caso Frank Rijkaard, técnico do Barcelona, não consiga integrar o novo camisa 14, não descartem a hipótese de ver Wenger no Camp Nou.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
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